Como se sabe, gatos são um milagre. A força com que nos conectam não apenas à natureza de um modo geral, mas a uma dimensão especialíssima da natureza, que só a eles pertence, é algo que todos/as que conviveram ou convivem com os gatos conhecem bem. É uma dimensão que nos faz retornar ao silêncio. Os gatos são grandes apreciadores do silêncio, e lembram-nos a todo momento da necessidade de erigirmos o silêncio como um valor essencial em nossas vidas, em nossas cidades. Gatos são chineses, não importa onde nasçam. Quando você vê seu gato dormindo, em um estado de relaxamento absolutamente pleno, saiba que aquilo não é apenas um gato: é um hexagrama do I Ching. Pronto para consulta.
Gatos são monges taoístas e budistas. Ao contrário do que se crê, não são preguiçosos. Praticam, isto sim, e ensinam a todos os que possuírem olhos de ver e aprender, o milenar princípio chinês do wu wei, a não-ação. Sabe? A arte de reconhecer o momento certo de agir em uma dada situação, com economia, máxima eficácia e mínimo gasto de energia. Não pode dar errado, não é? Você já viu Bruce Lee desperdiçar um golpe? Pois é. Quando você vê seu gato se movendo com elegância pelo pátio, aquilo não é apenas um mero mover-se: é Tai Chi Chuan. E sejamos honestos: em um mundo de um capitalismo agressivo como o nosso, está mais que na hora de erigirmos a preguiça, também, como um valor essencial.
A escritora chinesa Kwon Kuen Shan publicou em 2002 um livro chamado “The Cat and the Tao”, livro que em sua edição brasileira (2015) recebeu o título de O Gato Zen” – do Taoísmo para o Zen-Budismo tem todo um caminho, mas não muito longo: está bem. O volume é constituído de pérolas da literatura chinesa ancestral (os ensinamentos de Confúcio, os “Trezentos poemas Tang”, “O sonho do quarto vermelho”. “A Arte da Guerra” de Sun Tzu) e contemporânea, com ilustrações magníficas da própria Shan.
Diz a autora: “Existem muitos livros sobre gatos. Procurei fazer um livro de gatos de uma espécie diferente. Minhas pinturas deviam mostra-los em ação, em descanso, indiferentes ou obstinados, filosóficos ou apenas eles mesmos, embora nunca humildes! Minha intenção era combinar a sabedoria e o caráter felino com a filosofia e o ensinamento oriental apropriado, apontando o Caminho (Tao, Do) para algumas respostas à busca humana de alívio da tensão cotidiana.”
Legal, hein? Quero, nesta e na próxima coluna, partilhar com o caro/leitor algumas dessas pérolas, está bem?
“Conhecer é saber o que você entende e o que você não entende.” Confúcio.
“Hoje em dia as coisas no mundo andam estranhas: dizem isso, dizem aquilo. Não adianta discutir. Mais vale dormitar.” Anônimo.
“Não esgote a gentileza e a lealdade de um amigo – assim se preserva a amizade.” Provérbio chinês.
“Para saber como é uma pessoa, há sete maneiras: faça-lhe uma pergunta difícil, observe seu talento para a análise. Diga uma provocação, observe sua atitude. Pergunte-lhe como resolve problemas difíceis, avalie sua inteligência. Deixe-a enfrentar uma situação difícil, observe sua coragem. Embriague-a, observe sua natureza. Alicie-a com ouro, observe sua integridade. Dê-lhe instruções para uma tarefa, avalie sua fidedignidade.” Sun Tzu.
“Aproveite a oportunidade quando ela aparece. Se passar, talvez nunca mais volte.” Feng Menglong.
“Saber o que se passa requer discernimento; saber o que fazer a respeito requer sabedoria.” Provérbio Chinês.
“Dia após dia, ele sabe o que lhe falta. Mês após mês, não esquece o que aprendeu. Eis alguém realmente inspirado pelo saber.” Confúcio.
“Não ameaço os fracos, nem temo os poderosos.” Zuo Quining.
“Não se abale por dentro ao perder; não ostente por fora ao vencer.” Gao Bogong.