Para botar em perspectiva mítica e clássica a relação entre seres humanos e cães, trago uma história colhida do complexo de narrativas escritas entre os séculos 4 a.C. e 4 d.C. e que constituem o Mahabharata - o épico, a "Ilíada" da Índia (acho que se lermos "gato" onde se lê "cão" o Vyasa, que segundo a tradição foi quem ditou o livro a Ganesha - aquele mesmo, de cabeça de elefante -, não se importaria). E, além de trazê-la, proponho que uma investigação sobre o modo como os animais são representados nas escrituras sagradas das diversas religiões do mundo pode constituir um interessante exercício de religião comparada, flagrando-as em uma angulação coerente com a sensibilidade contemporânea. Citação e pequena adaptação:
Os tambores ribombaram. A carruagem de Indra desceu e pousou ao lado de Yudhishtira. O Senhor dos Deuses uniu suas mãos e disse: “Namas. Nós o saudamos. Suba na carruagem; vim para levá-lo embora deste deserto de morte.” “Meus irmãos e nossa esposa precisam vir comigo.” “Eles já deixaram os corpos, e partiram à sua frente - respondeu Indra. Vamos, entre.” “Senhor do Passado e do Presente! - exclamou Yudhishtira -, este cãozinho, minha derradeira companhia, também precisa ir.” “Não - disse Indra. - Não poderá ingressar no céu com um cão nos calcanhares. Ele é um ser profano e sem alma.” “É dedicado a mim e buscou a minha proteção. Abandonado sozinho aqui ele morreria.” “Não há lugar para cães no céu. São impuros. Não pode ser.”
Yudhishtira franziu a testa. “Não pode ser de outra maneira.” “Mas não compreende? Você conquistou o céu! Imortalidade, prosperidade e felicidade em todos os planos são suas. Deixe esse animal e venha comigo; isso não seria cruel.” “Este lugar em que estamos pertence a meu reino?” “Sim, Majestade.” “Então sou eu quem decidirá o que há de ser feito. Não renunciarei ao meu cachorro; renuncio ao senhor. Não abandonarei um cão fiel pelo senhor. De alguma forma e em algum lugar, a Verdade e mil sacrifícios foram postos numa balança, e já chegou aos seus ouvidos, Senhor, qual se revelou o mais pesado. Quem vem a mim por medo, desastre ou amizade, jamais o abandonarei.” “Mas não posso levá-lo! Eu o farei dormir, não haverá dor. Ninguém saberá.” “Senhor dos Céus - disse Yudhishtira -, tem a minha permissão para partir.” “O seu esplendor será pleno nos três mundos; basta que entre em minha carruagem sozinho - disse Indra. Já deixou todos os outros; por que não esse cachorro imprestável?” “Eu decidi - afirmou Yudhistira -, e mais do que isso não lhe concerne.”
E então, com espantosa rapidez, Indra ajoelhou-se na areia e curvou a cabeça. “Dharma, meu Senhor!” “Yudhishtira voltou-se, surpreso. O cachorrinho que se deitara à sua sombra desaparecera. Em seu lugar, alto e loiro, estava Dharma, de olhos cinzentos. “Yudhishtira, não se curve diante de mim, meu filho - disse o deus. - Abençoado seja; como um cão eu o segui por este deserto. Em seu coração há compaixão por todas as criaturas; ora, isso não é fraqueza, mas fortaleza, e você defendeu aquilo em que acredita até os portais dos céus.”
Yudhishtira viu-se carregado para os céus.