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Expressão Plural

Alaska, Miles, Rabelais, Bolívar

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Gerson Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

Eu descobri a série “Quem é você, Alaska?” um tanto tardiamente – ela é de 2019. Tinha lido o livro homônimo de John Green (2006), no qual, é claro, a série é baseada, e, portanto, já conhecia história. Foram oito horas (são oito episódios, trata-se na verdade de uma minissérie) e mais uma hora inteira, depois do fim, de boca aberta olhando para uma parede branca. O livro é excelente, mas sua versão cinematográfica leva a história para um outro patamar de realização estética. O caro leitor/a, a esta altura, já notou que estou super recomendando a série.

Miles Halter, o menino que narra a história e que está chegando em uma escola nova, um internato, longe de casa, é um colecionador de “famous last words”, as célebres últimas palavras de personalidades da cultura, ou históricas. Palavras ditas, está claro, antes de morrer – e que atravessam a narrativa. Mencionarei todas as que aparecem no primeiro episódio, está bem?

Oscar Wilde: “Ou esse papel de parede sai, ou eu saio.” Humphrey Bogart: “Eu jamais deveria ter trocado o uísque por martinis.” James Dean: “Eles têm que nos ver.” Henrik Ibsen: “Pelo contrário.” John Kennedy: “Isso é óbvio.”

Duas dessas célebres últimas palavras, no entanto, estruturam a história em um nível subjacente ao que é narrado na primeira camada: as de François Rabelais, o poeta francês do século XVI – e as favoritas de Miles -, “Eu irei em busca do Grande Talvez (the Great Perhaps)”. Miles (um estudante de high school não tão desajustado com o clássico Holden Caufield de “O Apanhador no Campo de Centeio”, talvez não tão dramaticamente desajustado, mas certamente fora do padrão), porém, deseja encontrar o Grande Talvez, o mistério da vida, ainda em... vida. E essa busca orienta suas escolhas.

Chegando na nova escola, Miles faz amizades (um pequeno grupo de “não ajustados”) e conhece Alaska – essa protagonista fascinante, misteriosa, elusiva, e sobre quem perguntamos “quem é você?” em muitos e diferentes níveis. Alaska tem um “livro da vida” – “O General em seu Labirinto”, de Gabriel García Márquez (1989). Isso já é uma surpresa, porque a cultura estado-unidense, pelo menos a cultura média estado-unidense, ignora solenemente a cultura latino-americana. Nesse livro, García Márquez trata de Simón Bolívar e apresenta, no fim, o que seriam suas últimas palavras: “Ele estava abalado pela impressionante revelação de que a disputa entre sua fortuna [aqui no sentido de o que lhe coube na vida, como em Maquiavel] e seus sonhos estivesse chegando ao fim. – Dane-se!, ele disse. Como poderei sair desse labirinto?” Essas são as últimas palavras que compõem o fio com que Alaska amarra sua visão do mundo, da vida – e, como se verá, da morte. Mais tarde, Miles encontrará uma anotação feita à mão na página correspondente: “Straight and fast”, reto e rápido.

Com o auxílio de Simón Bolívar e de Gabriel García Márquez, Alaska chegou à questão do próprio Buda – que, em outra clave cultural e outras proposições de resposta, chamou esse labirinto de samsara, a roda de nascimentos e mortes. Jovens, cultos e sensíveis, Miles e Alaska enlaçam suas perguntas, suas vidas. Buscam respostas que o mundo adulto à sua volta não pode dar. É como em Rollo May: "Quando a sociedade deixa de prover o indivíduo com uma adequada orientação psicológica e ética, ele é forçado, muitas vezes em desespero, a explorar profundamente o seu próprio íntimo para descobrir uma nova base de orientação e integração.”

Ah! Recomendo também que o caro leitor/a assista à minissérie com o aplicativo Shazam à mão: vá lançando aquela trilha sonora, que é incrível, numa playlist, confie...

Não posso deixar de concluir esta resenha com as minhas célebres últimas palavras preferidas – são de Gertrude Stein: "Em seu leito de morte, Gertrude Stein ergueu a cabeça e perguntou: 'Qual é a resposta?'. Quando ninguém falou, ela sorriu e disse: 'Nesse caso, qual é a pergunta?'."

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