Eu ando mergulhado, por essas semanas, na preparação de uma disciplina eletiva, um seminário temático que será oferecido agora, no próximo semestre, no curso de História da UFFS, a que dei o nome de “Tópicos em Antiguidade: Sun Tzu, ‘A Arte da Guerra’ e o Pensamento Clássico Chinês”. Como Drummond, cansei de ser moderno: vou ser eterno. Tenho explorado temas super, mega, ultra, hiper contemporâneos nas disciplinas de ementa livre que tenho oferecido, no mínimo, desde 2014. Resolvi, assim, fazer um passeio pelo Mundo Antigo e explorar leituras e apontamentos estruturados que tenho feito ao longo da vida – à feição do que fiz no ano passado, com “Tópicos em Antiguidade: Marco Aurélio, as ‘Meditações’ e o Estoicismo. Trata-se de uma pegada, uma dobradinha, como se vê, Ocidente e Oriente.
Bem: nessa preparação, estou elaborando uma aula em especial sobre a poesia clássica chinesa – para dar um toque literário, estetizado, à jogada – e, nisso, pensei em partilhar com o caro leitor/a alguns poemas pelos quais passei e selecionei, todos do século VIII e apanhados de livro organizado por Sérgio Capparelli e Sun Yuqi. Está bem? São eles:
Li Bai: “Diálogo sobre a montanha: Há quem pergunte por que vivo nestas tristes colinas./ Sem responder, sorrio, de coração sereno, enquanto as flores de pessegueiro flutuam na água./ Tudo vai embora, tudo se apaga./ Aqui é outra, a terra, e outro, o céu./ Nada parecido com o mundo dos humanos lá embaixo.”
“Antigo poema: Zhuangzi sonhou que era uma borboleta ou a borboleta sonho que era Zhuangzi?/ Se uma criatura é capaz de em outra se transformar, torna-se o mundo uma metamorfose sem fim./ Se o oceano de Peng Lai tornar-se novamente um límpido riacho, por que se espantar?/ E o que importa, se nas portas da cidade quem cultiva melões foi um dia o marquês de Dongling?/ De riqueza e honrarias nós sempre gostamos, e por ela sempre lutamos, mas, enfim, buscando o quê?”
“Vento de outono: O ar do outono é fresco./ Clara, a lua./ Folhas secas se juntam e se dispersam./ Pousa a gralha e, súbito, assusta-se./ Pensando em nós dois, quanto te reencontrarei?/ Nessa mesma hora, nessa mesma noite, a dor lateja./ Ao passar pela porta, vi o quanto doía a saudade./ Se maior, mais fundo penetra. Se menor, faz-se infinita./ Dor tamanha, preferível não te conhecer.”
Du Fu: “Balada das cem preocupações acumuladas: Eu me lembro: tinha quinze anos, e o coração de criança./ Robusto como um bezerro, corria solto./ Em agosto, no pátio, quando tâmaras e peras amadurecem, subia nas árvores milhares de vezes por dia./ E de repente, aos cinquenta anos, no mais das vezes sentado ou reclinado, raramente de pé, pois ando pouco, eu me esforço para sorrir quanto encontro meus benfeitores./ Por isso, tristeza e mil preocupações misturam-se ao que sinto./ Na volta, ao passar pela porta, encontro quatro paredes vazias./ Minha mulher é bonita, mas quando me olha, tem o semblante triste./ Meu filho, tolo, não trata o pai com respeito e ao me receber à porta, furioso, bate pé e exige comida.”
“Flores fugazes: Não que goste de flores a ponto de morrer por elas, mas temo a beleza que se vai, a velhice que se aproxima./ E dos galhos elas se lançam, efêmeras, sobre o chão./ Aos tenros botões, pelo que desabrochem, se possível com doçura.”
“Canção sobre minha cabana destruída pelo vento de outono: No céu claro de outono, o vento a soprar violento arranca as três camadas de palha do teto de minha cabana./ As palhas se espalham, chegam à margem oposta do rio, penduram-se nos galhos mais altos das árvores quando sopra o vento, ou então, em redemoinhos, acumulam-se no brejo./ Os moleques da aldeia, vendo-me fraco, atrevem-se a roubá-las bem diante de meus olhos./ Afastam-se com elas às braçadas, à luz do dia, para as touceiras de bambu./ Grito em vão, com os lábios queimados, a boca seca: nada acontece./ Volto, apoiado em minha bengala, e suspiro./ O vento a seguir se acalma, mas as nuvens tornam-se mais escuras./ O céu de outono, pouco a pouco, mergulha na obscuridade./ Minhas colchas, de tão usadas, são frias que nem ferro./ São meus filhos desnaturados, no meio dos pesadelos, que as rasgam com os pés.”