Eu havia trazido na semana passada um excerto de Eduardo Giannetti e, associada a esse excerto, uma questão. O excerto: “Quanto mais subimos na encosta do que a ciência nos faculta conhecer, a superfície das coisas, mais descemos na gruta do que mais importaria saber - o porquê e o para quê de tudo. Que sabe a aranha da Via Láctea ou o tamanduá do cogito cartesiano? E, no entanto, vivem - como nós.” A questão que eu formulei precisa de um pequeno parágrafo para ser rememorada:
A ciência (o “como” das coisas) e o que importaria saber (o porquê e o para quê das coisas) são caminhos separados. E mais: o que o excerto diz é que esses caminhos não são só separados, mas se opõem e se afastam, articulados: o de cima sobe e o de baixo desce, como diria Chico, aliás, Science. É como se fosse preciso riscar no chão do terreiro das ciências os seus limites, e reconhecer a necessidade de se buscar sentido e propósito em outras direções; a profundidade de nossa experiência no mundo – e o próprio exercício de buscar essa profundidade - estaria em um outro lugar.
Que lugar é esse? E que “gruta” seria aquela? Essas são as perguntas cujo horizonte de possibilidades de resposta eu queria explorar – mesmo que talvez só seja possível apontar linhas e ângulos de percursos potenciais. Façamos isso em dois movimentos: o caminho da experiência – o caminho das “lições aprendidas das vidas que vivemos” (McRaven) -, e o caminho do sábio (caminhos cruzados, e que talvez sejam o mesmo e um só).
Antes, porém, paremos para contemplar aquela aranha e aquele tamanduá de Giannetti, que ignoram a Via Láctea e o cogito cartesiano. Deng Ming-Dao, em arranjo semelhante, tematiza patos e também aranhas: “Dois patos aninhados na relva à beira do lago. Nas asas de ambos a mesma marca purpúrea brilhante. A água proporciona comida, banho e divertimento. Que necessidade eles têm de erudição?” E: “"Tão logo sua rede está estabelecida, uma aranha não pensa em expandir-se de maneira antinatural. Não combate seus vizinhos, não se aventura em outros países, não tenta voar até a Lua, não constrói fábricas, não tenta escravizar os outros, não tenta ser intelectual. A partir de seu centro, uma aranha irradia-se para seu mundo com economia. Ela simplesmente é o que é e está satisfeita com isso.”
O sentido disso, nas tradições filosófico-religiosas do Extremo Oriente, é o de que seria necessário deslocarmos o centro gravitacional, a coluna cervical de nossa existência, de nossa posição na vida e no mundo, do conhecimento racional – das ciências, filosofias e literaturas -, para “um estado de profunda intuição” (Ming-Dao). O cultivo dessa intuição, simbolizada por aranhas, tamanduás e patos, faria com que trilhássemos uma senda tida como natural, ou como mais natural – o flow, o Tao -, mais livre, porque teria o condão de desarmar um jeito de viver ditado por obsessões, compulsões e hábitos que nem sabemos de onde vêm, mas que nos manietam, comandam; um jeito de viver em que, justamente, o peso do conhecimento pode se tornar um estorvo e, para voltarmos ao excerto de Giannetti, um instrumento de afastamento do que importaria saber - o porquê e o para quê das coisas, os sentidos e propósitos.
A intuição faria ainda uma espécie de “seleção natural” dos saberes que nos são necessários, ao “aterrar” esses saberes na experiência, em nossas práticas, em nossas práxis – transformando-os em ingrediente das “lições aprendidas das vidas que vivemos”. A experiência é o professor definitivo, advertia o mesmo Deng Ming-Dao. E o aluno/a definitivo também, acrescentaríamos nós. De outro lado, o conhecimento como inorgânica e eruditamente acumulado, como estorvo, como fardo – ou como hábito, compulsão obsessão -, pode nos levar, meu Deus, a uma tese de doutorado (e a um doutor/a doente, como tem ocorrido mais e mais).
Na terceira e última coluna deste arco, retomaremos o assunto com os caminhos da experiência e do sábio.