Um colega professor que de modo bem legal costuma postar em suas redes sociais excertos de livros que está lendo – sem comentá-los, mas escolhendo-os de um jeito que faz com que os próprios excertos “falem” por si mesmos -, postou dia desses um trecho de Eduardo Giannetti: “Quanto mais subimos na encosta do que a ciência nos faculta conhecer, a superfície das coisas, mais descemos na gruta do que mais importaria saber - o porquê e o para quê de tudo. Que sabe a aranha da Via Láctea ou o tamanduá do cogito cartesiano? E, no entanto, vivem - como nós.”
Essa passagem tem estado em minha mente nos últimos dias: ela traz consigo questões que têm me preocupado a vida inteira. Em primeiro lugar temos, ali, que a ciência nos “faculta conhecer” apenas a superfície das coisas. Isso é desconcertante, não é? Estaríamos, com ela, “subindo uma encosta”, a encosta do saber, e não nos apercebemos de que, fazendo isso, estamos entrando mais profundamente na gruta da ignorância do que mais importaria... justamente saber: o “porquê” e o “para quê” de tudo. Quer dizer: a ciência – o “como” das coisas - e o que importaria saber – o porquê e o para quê – são caminhos separados.
Uma outra forma de dizer isso é assim: o conhecimento das coisas do mundo, incluindo nós mesmos, lança luz sobre uma parte relevante de nossa experiência no mundo e sobre o próprio mundo – mas apenas superficial dessa experiência. A “profundidade” de nossa experiência no mundo estaria em um outro lugar.
Repare o caro leitor/a: não se trata, aqui, do célebre “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos, um oceano”, de Isaac Newton. É que, para Newton (por mais que ele cultivasse um lado místico), o problema de só sabermos “uma gota” é um problema de tempo: quanto mais livros e artigos científicos escrevermos, quanto mais pesquisas fizermos, mais estaremos avançando sobre o oceano que desconhecemos, desconhecíamos. Um dia o quebra-cabeças todo estará completo, e o que ignoramos será apenas residual (perspectiva que perdurou até Max Planck e Einstein, mais ou menos; num livro excelente sobre tudo isso, “A Ilha do Conhecimento”, Marcelo Gleiser propõe a metáfora de uma ilha, a ilha do conhecimento, que de fato cresce – mas, como nossa capacidade de fazer mais e melhores perguntas também cresce, o oceano do desconhecido não para nunca de se expandir).
Não se trata, porém, no excerto de Giannetti, disso. Todos os oceanos ainda seriam a encosta superficial do que a ciência nos permite saber. E a gruta sem fundo do que precisaríamos saber, desceria dramática e infinitamente – sem que nem soubéssemos.
Jorge Luis Borges, em clave literária, mas não só, enunciou esse paradoxo de outro modo: livros, quanto mais os há, mais tudo o que há resta ainda por ser explicado. Borges – tu estás me acompanhando, caro leitor/a? – radicaliza o parágrafo de Giannetti: não é possível que tenhamos segurança sequer sobre o que a ciência nos faculta conhecer, seja esse conhecimento de superfície ou de fundo, não importa. A cada esforço de explicação (louvável, para o escritor), tudo ainda resta por ser explicado. É o que temos, é o que somos, diria Borges, presumivelmente, e talvez também Giannetti.
De novo: a “profundidade” de nossa experiência no mundo estaria em um outro lugar. Mas que lugar é esse? E essa “gruta”, hein? A tradição hermética (estamos agora não com Newton, mas com Giordano Bruno) trazia, traz consigo – cito de memória – a psicanalítica elaboração “A caverna em que tu tens medo de entrar guarda o tesouro que tu procuras.” Que gruta é essa, que caverna é essa? Que tesouro é esse? E a aranha e o tamanduá que Giannetti nos apresenta, que não conhecem a Via Láctea e o cogito cartesiano?
Voltaremos ao tema na semana que vem, com uma resposta possível.