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Expressão Plural

O aforismo 78 e os hexagramas 29 e 30

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Gerson Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

Paulo Bittencourt, nessa semana que passou, me enviou um zap com esta mensagem: “Olha a força dos clássicos: talvez ninguém possa falar melhor do que Lao-Tsé sobre as enchentes no Rio Grande do Sul e as alterações climáticas, sobretudo diante da exortação dos ambientalistas esclarecidos para quem só poderemos fazer frente aos eventos climáticos extremos por uma atitude de franca harmonia para com a natureza: "O fraco sempre vencerá o forte. Nada há no mundo tão fraco e flexível como a água. Mas quando ataca o duro e o forte, demonstra seu poder. Assim, o fraco vence o forte, e o flexível, o duro.”

Isso me lembrou, de imediato, de um texto do escritor e filósofo Deng Ming-Dao sobre o significado da água na cultura taoísta. Nele, percebe-se a dualidade desse elemento da natureza: “A sabedoria clássica diz que não há nada mais fraco que a água, mas, unida, ela pode tornar-se uma força titânica. Como uma onda gigante. Ou quando um rio atravessa desfiladeiros. (...) A água não vence porque cede. Ela vence porque é implacável. Ela preserva e não desiste. É constante. A rocha pode bloquear a água. A rocha pode até segurar a água em um lago por milhares de anos. Por que, então, a água pode superar a rocha? Porque a rocha não pode se mover. Não pode operar a mágica de ser implacável.”

O aspecto terrível, implacável da água tem uma história antiga na cultura chinesa. No I Ching - o Livro das Mutações, o mais antigo texto do mundo -, o Hexagrama 29, “Kan: Água sobre Água”, tem o significado de Escuridão, para o estudioso Alfred Huang (para Wilhelm, O Abismal, para Blofeld, O Abismo; preserva-se em todos os casos a ideia de algo sinistro no presente, ou no momento próximo-futuro).

“O ideograma escolhido para este hexagrama é uma forma antiquíssima e muito bela. A parte esquerda é um símbolo da Terra. A direita é formada por duas partes: a porção superior representa uma pessoa apoiada em um pé só, com o outro erguido, sem tocar o solo, dando a entender que está caindo. Diretamente sob um dos pés há um traço vertical simbolizando o movimento de queda. A parte inferior do ideograma parece um poço. Tem-se a imagem de alguém que cai em um poço. O significado de “Kan” é duplo: o poço, ou cair. “Escuridão” representa não apenas um poço, mas também uma situação difícil ou perigosa.

No entanto, como observa Huang, todo o I Ching expõe os princípios opostos e mutuamente interdependentes do Yin e Yang: o Hexagrama seguinte, o 30, é “Li: Fogo sobre Fogo”, e significa “Brilho”, a forma invertida de “Escuridão”. A tradição exegética do I Ching, com efeito, estabelece como tema central do Hexagrama 29 o cair, mas sem afogar-se; estar-se em perigo, mas não perdido/a. “Mantenha-se confiante: acalme a mente. Com convicção e fé, cautela e confiança, pode-se enfrentar qualquer situação difícil. Tanto O Abismal quanto Abismo têm o sentido de não ter fundo. Kan é um poço, um poço escuro, mas não sem fundo. Há esperança. (...) Os antigos chineses acreditavam que, por mais perigosa ou escura que fosse uma situação, quando a pessoa era capaz de seguir o caminho do Céu (o Tao), poderia passar por ela com a mesma segurança que a água passa por uma grota.” Para Huang, a ideia de que sempre é possível transformar situações ruins, terríveis, implacáveis, é o “espírito central do I Ching”.

A passagem que o Paulo salientou faz parte do célebre aforismo 78 do Tao Te King. Nesse aforismo, além de situar-se ao lado dos “ambientalistas mais esclarecidos”, Lao Tsé, em trecho que se segue àquele, escreve, deixando um puxão de orelha de dois mil e seiscentos anos para nossos governantes e uma lição sobre responsabilidades: “Quem toma sobre si a lama do reino, esse é o senhor dos sacrifícios na Terra; quem toma sobre si a infelicidade do reino, esse é o rei do mundo.”

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