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Expressão Plural

Na enchente, seguremo-nos as mãos (II)

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Gerson Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

Minha colega Elisabete Hammes, servidora da UFFS, é alguém que possui uma visão de mundo que é ao mesmo tempo crítica e poética. Ela escreveu um texto em feitio de fábula, ou de alegoria fabular – mas de fundo científico -, que traz de modo exemplar aquelas duas qualidades. Nancy Houston propõe que nós, Sapiens, sejamos a “espécie fabuladora”. Nós contamos e escutamos histórias – e assim compreendemos e damos substância à nossa experiência no mundo, constituindo a nós mesmos e ao próprio mundo. Com Freud, sabemos que essa elaboração é também parte essencial de um trabalho de luto – que é bem o caso do momento que vivemos. Mesmo porque depois da queda do céu teremos de seguir em frente. O texto:

“A incrível máquina de fazer chover

Conta a lenda que, há algumas décadas, um país ofereceu a outro uma tecnologia que iria impulsionar sua produção agrícola. Resumidamente, a receita era retirar a diversidade das matas e no lugar colocar uma pequena vegetação que produzisse grãos. E então, de norte a sul, essa receita de se produzir em abundância, baseada na mecanização e em monocultura, tornou-se a nova onda. A modernidade mais e mais tomava conta dos campos, enquanto as matas e seus habitantes davam lugar a extensas plantações, e a diversidade de tamanhos, cores e odores foi lentamente substituída por tapetes que hora se coloriam de verde, hora de amarelo, hora de cor de terra. Nesse processo, chamado de revolução verde, muitos enriqueceram, enquanto outros perderam suas terras e deslocaram-se para as periferias de pequenas e grandes cidades. Nada, naquele momento, dava qualquer indício de que essa tecnologia, no futuro, se transformaria na máquina de fazer chover.

No coração daquele grande país, existia uma vegetação muito distinta. Sobre a terra avistavam-se árvores de pequeno porte, com galhos retorcidos, e poucos imaginavam quão extensas e profundas eram suas raízes. Essa vegetação tinha uma função muito específica, a de recolher a água da superfície e conduzir aos subterrâneos, onde se encontravam grandes bolsões d’água, ou aquíferos, que alimentavam nascentes, que desaguavam nos rios da Amazônia e do Pantanal, levando água e vida tanto para seu país, quanto para países vizinhos.

Passaram-se alguns anos, e o território onde se localizava o coração daquele país começou a secar. Após a retirada das árvores que coletavam as águas da superfície, e que foram substituídas por outras espécies com pequenas raízes, aquele bioma, chamado Cerrado, deixou de cumprir sua grande missão. E então percebeu-se, a duras penas, que a nova tecnologia era, na verdade, uma máquina de fazer secar. Peraí:  mas não era para ser a máquina de fazer chover?

Bom, na verdade, quando fazemos chover, e muito, em um certo lugar, é porque em um outro, a água vai faltar.

O sul daquele extenso país, para onde fluía a umidade do norte, em um fluxo através da cordilheira andina, era relativamente bem abastecido pelas chuvas. Através de rios aéreos, as águas deslocavam-se do Bioma Amazônia para o Bioma Pampa. Ao mesmo tempo, as frentes frias, vindas da vizinha Argentina, passavam pelo estado e fluíam em direção ao centro do país. Porém, como por ali o ar estava seco e quente devido à retirada das árvores, a frente fria não conseguiu chegar, e, ao ser bloqueada pela barreira de ar quente, acabou fazendo o caminho de volta, retornando para o sul, e despejando suas chuvas por ali. E foi tanta água, mas tanta água, que as cidades, os campos, tudo se transformou em um grande lago.

E foi assim que aquele país se deu conta de que, na verdade, a tecnologia que havia comprado, há tanto tempo, para revolucionar a produção agrícola, era, na verdade, a fantástica máquina de fazer chover. Ou seria de fazer secar?”

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