Como eu havia combinado com o caro leitor/a há duas semanas, irei explorar as lâminas, os arcanos maiores, do “Tagrot”, um tarô literário lançado em abril por um dos mais legais e relevantes clubes de livros e de assinaturas de livros do Brasil. Está bem?
Tínhamos salientado que, como se sabe, existem muitos e diferentes tipos de tarô, seguindo os mais diversos conceitos, temáticas e universos referenciais. E tínhamos mencionado, como exemplos, o “Tarot Mitológico”, baseado nas narrativas da mitologia grega, o “Tarot dos Filósofos” (em que Frantz Fanon é “A Justiça”, o arcano 11), e o “Tarot de Nosotras”, um tarô feminista. Tem também, acrescento, o “Quantum Tarot” e o “Tarot Draconis”, apoiados em inspirações da Física e da mitologia dos dragões. Todos são menos ou mais fundamentados no clássico Tarô de Marselha, e, de um modo geral, assumem a ideia básica de que os 22 arcanos maiores – do “Louco” ao “Mundo” – emulam aspectos cruciais da vida humana.
Bem: no “Tagrot, o tarô literário, vimos que “O Louco” é representado pela figura do próprio leitor, com seu espírito aberto para iniciar uma jornada pelo Universo – que, como lembrou Jorge Luis Borges, alguns denominam “A Biblioteca” (ou é o contrário?). O Louco/ Leitor é o arcano de número zero.
E quanto ao Mago, o arcano de número 1? Ele está representando por ninguém menos que Machado de Assis. Faz sentido, não faz? O “Bruxo do Cosme Velho”. Diz-se que Machado ganhou essa alcunha por haver, certa feita, à noite, usado um caldeirão posto no quintal de sua casa, no Cosme Velho, Rio de Janeiro, para queimar cartas e outros papéis. Pode ser, pode não ser. De qualquer modo, o epíteto era usado, e pegou em definitivo quando Carlos Drummond de Andrade, em 1959, escreveu um poema para Machado intitulado “A um bruxo, com amor”. Um reconhecimento popular, portanto, da “vizinhança”, e um reconhecimento erudito – de um par à sua altura.
Mantovanni anota que o arcano do Mago estaria associado de modo profundo à própria ideia de criação. Trata-se de alguém capaz – e que sabe que é capaz - de trabalhar com os elementos da vida, do mundo, das circunstâncias, e fazer com que algo novo – um cosmos – surja a partir do caos. Pense em Machado de Assis, caro leitor/a (não estou dizendo que a literatura brasileira anterior a Machado possa ser qualificada como um “caos”). Estando, em termos de mitologia, associado à figura de Hermes (ou Mercúrio), deus da comunicação e da magia, aquele que viajava entre os mundos levando mensagens, a habilidade principal do Mago seria precisamente a de estabelecer ligações entre os mundos interiores da mente humana e os mundos exteriores, “reais”, “concretos” – em que se encontram os outros e a própria história.
É Brás Cubas, é Capitu e é Bentinho, é Brás Cubas e é o Conselheiro Aires, suas subjetividades riquíssimas – racionais ou em desvario - explicando os caminhos e descaminhos do Brasil das últimas décadas do século XIX e do início do século XX – Machado morre em 1908.
É preciso lembrar que o Mago possui ainda um aspecto mais sombrio: ele pode ser representado como um “mágico” de feira, de palco, de aniversário de criança – alguém que engana, ilude, burla, trapaceia. Machado de Assis fez muito isso, muito mesmo, no que diz respeito a introduzir na literatura brasileira um narrador (como Bentinho, por exemplo) em que de modo nenhum o leitor/a pode confiar. Pelo contrário: estamos, leitores e leitoras, autorizados a justamente desconfiar do que nos está sendo contado – mobilizando nossa inteligência em um sentido ainda raramente explorado. Somos “detetives”, como em “Édipo Rei”, de Sófocles.
Para Corrine Kenner, porém, o Mago do tarô é antes de mais nada um mestre. Como Machado de Assis, o mulato. O fundador (o Mago é o “primeiro professor” que tu irás encontrar na escola) da Academia Brasileira de Letras, onde hoje estão Gil e Krenak. Um mestre. O Mestre do Cosme Velho.