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Opinião

Origem e propagação da araucária (Parte II)

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Roberto Ferron
Por Roberto Ferron
Foto Divulgação

Com os milhões de anos de evolução, a. angustifolia sobreviveu a grandes transformações climáticas, as quais modificaram sua dispersão no Brasil. Até 11,5 mil anos atrás (Pleistoceno), ao terminar a última glaciação no mundo, as regiões Sul e Sudeste do Brasil tinham clima frio (mas não cobertas por gelo) e seco, que não permitia o estabelecimento da araucária, a qual sobrevivia em refúgios próximos aos rios. Pesquisas de fósseis no solo indicam que neste período os planaltos destas regiões do Brasil não tinham florestas, mas eram cobertos por pastagens de gramíneas (campos). Após este período, principalmente de 6.000 a 4.000 anos atrás (no Holoceno), houve aumento da temperatura e da umidade, favorecendo a expansão da araucária. Mas, a grande ocupação pela araucária dos campos nos planaltos ocorreu no Sul do Brasil e iniciou há menos de 1.500 anos. Na região Sudeste esta expansão da araucária foi menor e manteve as populações isoladas em relação àquelas do Sul do Brasil.

A Origem de A. angustifolia tem particularidades, atualmente sua propagação e manejo de plantios determina que estas populações sejam geneticamente distintas, como verificado em estudos utilizando marcadores moleculares.

Na última década alguns estudos arqueológicos realizados sugerem que a ampla expansão e ocupação da araucária dos planaltos do Sul do Brasil foi devida, em grande parte, ao transporte e atividade dos indígenas das tribos Kaingang e Xokleng (que tinham como característica marcante a construção de casas subterrâneas). Isto porque este período de 1.450 anos atrás coincide com a ocupação desta região por estes indígenas e porque o pinhão foi um dos principais alimentos no inverno e a araucária era usada para delimitar território para estes indígenas. Uma vez que os pinhões são sementes grandes, a dispersão por animais ocorre à pequenas distâncias, o que reforça a hipótese de que os humanos tiveram expressiva contribuição na dispersão da araucária no Sul do Brasil.

A espécie A. angustifolia foi descrita cientificamente pelo naturalista europeu Antonio Bertolini, em 1820, a partir da coleta de uma árvore plantada no Morro do Corcovado, Rio de Janeiro. Inicialmente ele a denominou Columbea angustifolia e, depois, por afinidade com A. araucana, passou à denominação de A. angustifolia. A classificação botânica da espécie é: reino Plantae, filo Gymnospermae, classe Coniferopsida, ordem Coniferae, família Araucariaceae, gênero Araucaria, espécie angustifolia.

A araucária é uma árvore de vida longa, podendo viver de 200 a 300 anos (ou mais). É perenifólia, com altura média de 20 m a 25 m e 1,0 m a 1,5 m de diâmetro. Apresenta tronco reto e cilíndrico, com ramos dispostos em 8 a 15 verticilos, tendo 6 a 10 ramos por verticilo. As araucárias mais velhas têm formato de candelabro, devido à perda dos verticilos basais. Os ramos primários e secundários são de hábito plagiotrópico, ocasionando o crescimento lateral. Os ramos secundários são conhecidos por grimpas e contém as folhas denominadas de acículas. As inflorescências desenvolvem-se na extremidade dos ramos na planta adulta, sendo que a primeira floração normalmente ocorre entre 12 a 15 anos do plantio da semente. Os órgãos reprodutivos das araucárias femininas são folhas modificadas que formam os denominados ginostróbilo, os quais são compostos por mais de 200 folhas carpelares inseridas ao redor de um eixo cônico. O óvulo nasce na axila, protegido por uma folha modifi cada estéril. Esta folha une-se a outra folha modifi cada estéril envolvendo o óvulo fecundado, formando a semente da araucária, denominada de pinhão. O estróbilo feminino maduro, denominado de pinha, apresenta três tipos de estruturas: o pinhão cheio (que foi fecundado, o qual é usado no consumo animal e humano e para regeneração da espécie), o pinhão chocho (que não foi fecundado) e as escamas de preenchimento (falhas) (Figura 1).

Recomenda-se fazer a coleta do pinhão maduro quando ainda estiver preso na árvore ou caído recentemente, pois ele é destruído por brocas quando permanece por muito tempo no solo. A dispersão das sementes pode ser barocórica (ação da gravidade) e/ou zoocórica (animais) como a cutia, o papagaio charão, a gralha azul, dentre outros. Apesar da grande importância destes animais na dispersão da araucária, a regeneração natural é pouco efetiva devido à baixa luminosidade dentro da mata fechada. Em campo aberto as plantas dificilmente se desenvolvem, pois, geralmente são eliminadas pelos proprietários na fase inicial de crescimento, evitando-se assim, problemas futuros devido à dificuldade de corte. Contudo, é importante destacar a relação das matas com araucárias com a manutenção da biodiversidade local. A redução e a consequente fragmentação das matas não interferem somente na dinâmica das demais espécies vegetais, mas também nas espécies animais, pois estas acabam ficando sem ter o alimento (pinhões) em abundância.

O pinheiro brasileiro depende sua perpetuação e propagação do ser humano!

Texto extraido do Livro “Araucária particularidades, propagação e manejo de plantios”, dos autores Ivar Wendling Flávio Zanette. Embrapa Brasília, DF 2017.

 

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