O teatro Dante Barone na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, ficou lotado sexta-feira (3) para receber a presidente afastada Dilma Rousseff. Entre as lideranças presentes estava o deputado estadual Altemir Tortelli (PT), diversos parlamentares do PT e do PCdoB, lideranças sociais e sindicais, movimentos sociais e entidades, os ex governadores Olívio Dutra e Tarso Genro, o ex- ministro Miguel Rossetto.
O ato, que iniciou com show do Nei Lisboa, foi de lançamento do livro "Resistência ao Golpe de 2016". Dilma demonstrou estar muito à vontade para criticar o “governo interino, provisório e ilegítimo” de Michel Temer e o processo “sem provas” que a afastou da presidência. Na chegada, ela foi recebida por um grupo da Marcha Mundial das Mulheres, que a recepcionaram do lado de fora do Legislativo com uma forte batucada e gritos de “Dilma, guerreira, da pátria brasileira”.
A presidente elogiou a participação de todas as autoridades presentes, citando um a um aos que têm participado de embates e da sua defesa, em Brasília e aqui no Rio Grande do Sul. Disse que o momento em que vivemos é importante porque é de risco e de luta política aberta. “Fica claro quem é quem. No país, está muito claro quem se articulou e levou adiante o processo de impeachment, que é ilegal, inconstitucional e sem nenhuma base jurídica. É um processo que não quer ser conhecido pelo seu nome real, que é golpe”, afirmou Dilma. Ela não poupou críticas ao “governo ilegítimo de Temer”, que têm como um dos principais líderes Eduardo Cunha. Lembrou que “ele (Cunha) está bem presente no exercício de sua atividade”.
Bolsa-Família, Mais Médicos, as áreas de Cultura e de Educação e outros programas implantados e fortalecidos em seu governo foram citados pela presidente como políticas que “estão deixando de ser atendidas e gerenciadas por Temer”. Além disso, Dilma comentou que há uma diferença entre o golpe militar e a ditadura e o golpe parlamentar e a democracia. Ao comparar a democracia como sendo uma árvore, “o golpe militar é um machado cortando a árvore e estabelecendo em seu lugar o deserto do arbítrio, da censura e de tantas proibições. Já o golpe parlamentar ao cortar uma árvore é um parasita impedindo que as instituições se desenvolvam e funcionem normalmente.”
Sobre o processo de impedimento que segue no Senado, Dilma afirmou que está sendo cerceado o direito de defesa. “Ser democrata é garantir o direito de defesa. Se eles são incapazes de garantir o direito de defesa, não são democratas, são golpistas”, acusou a presidente.
Durante o discurso, a presidente informou que a Casa Civil “ilegítima, provisória e interina” decidiu que ela deve ser impedida de viajar. Mas Dilma garantiu: “Eu vou viajar”. Mais adiante, comentou que estão tentando incriminá-la, inclusive citando que ela teria usado recursos para pagar seu cabeleireiro particular. “Tentam me incriminar a todo instante e de todas as formas. Vão tentar, mas não vão conseguir. Não vou deixar de combater todas as falsidades. Não vou me calar. Eu não tenho contas na Suiça”, afirmou a presidente.
Antes de encerrar o discurso, Dilma disse que o que está em jogo no Brasil é o hoje e, sobretudo, o amanhã democrático do Brasil e como vão ser garantidos os direitos e conquistas individuais e coletivas. Ela defendeu que “o Brasil precisa por muito tempo do regime presidencialista. “E não falo em causa própria, porque não posso mais me reeleger”. Por fim, pediu unidade e capacidade de luta da militância para enfrentar todas as adversidades e arbitrariedades, como por exemplo, “o processo que me impede de usar avião para viajar”.