0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Erechim

Intolerância: Padre fala sobre vídeo que circula nas redes sociais de Erechim

Vídeo foi gravado no Seminário Nossa Senhora de Fátima.JPG
Por Alan Dias
Foto Alan Dias

Em entrevista para o jornal Bom Dia, o padre Valter Girelli falou na manhã de sexta-feira (29), sobre um vídeo envolvendo intolerância e que tenta dar a entender que no Seminário Nossa Senhora de Fátima estaria ocorrendo uma sessão de Candomblé (religião afro-brasileira derivada de cultos tradicionais africanos), o que seria, o que seria uma agressão aos preceitos cristãos, segundo o autor da gravação.

Conforme o padre explica, o que acontece no local é um curso de regressão e renascimento, que há cinco anos acontece no salão São José, que fica nas dependências do Seminário. “É importante a gente explicar para a sociedade que o que aconteceu, que está viralizando na internet, o vídeo deste sujeito que não quis se apresentar, não sabemos o nome dele, não conhecemos o rosto dele, o que ele faz. O que está acontecendo no salão é um curso de terapia alternativa, é um curso que há mais de cinco anos acontece aqui nas dependências do Seminário. Não tem nada de macumba, magia negra, nada dessas coisas que o rapaz levanta como suspeita. Eu já fiz essa terapia de regressão, que eles chamam de renascimento. É uma coisa científica, uma área da ciência que está aí para ajudar o ser-humano a se libertar de seus traumas, medo, complexos, é livre. Eles usam música e às vezes as pessoas reagem à terapia chorando, gemendo, buscando se livrar de seus traumas. Não tem nada que deponha contra a fé cristã, católica”.

Ainda conforme o padre, cerca de 20 pessoas da região e até de fora participam da terapia. “Quero deixar muito claro para as pessoas que prezam por este espaço, prezam pelo santuário, que podem ficar bem tranquilos, não tem nada de extraordinário. É um curso bem profissional. Temos outros cursos, um pouco nesta mesma linha, que padres estão fazendo”.

“Tem duas coisas que o ser-humano não suporta: a insegurança e a infelicidade. A nossa proposta é que a segurança e a felicidade a gente encontra em Deus, encontra em Jesus Cristo. Mas quando a pessoa está vivendo um momento de crise, seja ela afetiva, econômica, política, ela quer buscar uma segurança, por isso hoje a sociedade oferece tantas respostas ao ser-humano. A Igreja é uma resposta, a fé é uma resposta, a religião é uma resposta, mas temos diversos cursos e formas de terapias que também são respostas. As pessoas criticam a Igreja dizendo que ela só quer dinheiro. Costumo dizer que a Igreja não tem uma máquina de imprimir dinheiro. Nós vivemos do aluguel destas salas, mas aluguéis selecionados, com consciência”, complementa padre Valter 

 

Amor e tolerância

“O Seminário é uma propriedade particular, da Igreja, mas é uma propriedade regida pelo espírito da tolerância e pelo espírito ecumênico. Por isso que, para usarem a esplanada do Seminário, nós nunca pedimos de que religião a pessoa é, nunca pedimos de que partido político ela é, não olhamos a classe social, nós não olhamos para a cor da pessoa e nem para a sua opção sexual. É um espaço aberto, porque acreditamos que o quê nos salva é o amor, é a caridade, a misericórdia. Amor é o elemento central, por isso que Deus vai salvar católicos, crentes, membro de outras religiões, ateus e até os à toa”.

 

Intolerância

O que não admitimos é essa intolerância. Hoje podemos dizer que não é só aqui em Erechim, é no Brasil, no mundo. Hoje a intolerância política, religiosa, racial, sexual, está se tornando uma verdadeira religião. Existe uma divulgação impressionante dessa intolerância, nas redes sociais. Infelizmente, é a maior guerra que estamos vivendo. Por isso o que hoje mais mata as pessoas, o que deprime as pessoas, não é a guerra armada, é esta guerra da língua. Colocar nas redes sociais notícias que são falsas”.

Padre Valter diz ainda que, “todo mundo sabe meu endereço, sabe meu nome, eu estou aqui (Seminário) sempre, de peito aberto, botando a cara, porque eu tenho consciência do que nós estamos fazendo.

Poderíamos reunir o pessoal ligado ao Candomblé e às outras religiões que ele faz a crítica e entrar na justiça, mas somos da tolerância, da caridade e do amor. Se a pessoa quiser conversar comigo, estou à disposição. Gostaria de saber quanto é que ele paga para usufruir deste espaço, que trouxesse a ficha do dízimo, para saber qual Igreja que ele participa. Então que ele venha explicar para a gente, mostre a cara, mostre o rosto”, finaliza o padre.

 

O vídeo

O vídeo mostra um homem circulando o salão São José e questionando a música, que parece remeter a religiões afro-brasileiras. Na gravação ele comenta que “está acontecendo um bagulho meio estranho” ali dentro. Entre outras frases, fala: “como é que pode isso aí. Eu já participei de terreiro quando era mais novo, não tinha conhecimento algum, fui induzido a esse caminho, depois eu peguei o conhecimento, né, e peguei o rumo certo, né. Mas eu sei que isso aí é batuque, né meu”.

Em outros momentos, diz: “Eu tô querendo uma explicação de alguém aí. Eu tô pensando até em entrar aqui dentro e acabar com essa bagunça aí, cara. Isso aí tá me deixando bem incomodado...”, “Cara, tô revoltado com isso aí, meu, a minha vontade é entrar aqui dentro e quebrar toda essa p.... aí, véio. Que m.... é essa? Que que tá acontecendo aí? Que Candomblé é esse dentro do seminário?”, “Espero que alguém tenha uma explicação para me dar, senão o bicho vai pegar. Eu vou, sei lá, vou arrombar essa porta, vou pedir o que está acontecendo aí dentro, cara”. Na sequência ele bate na porta e tanta abri-la, mas está trancada e indaga sobre ouvir os gritos de uma mulher. Em momento algum o homem se identifica no vídeo divulgado.

Nas redes sociais a gravação circulou e algumas pessoas a descreveram como “Macumba e orgia dentro do seminário de Erechim” e o jornal Bom Dia chegou a receber mensagem solicitando ajuda para divulgar o vídeo e afirmando que “a comunidade cristã exige uma resposta do Seminário sobre este caso”.

Os perfis nas redes sociais onde a reportagem encontrou o vídeo foram apagados ou deletaram a gravação.

 

A terapia

Em nota para o jornal, os responsáveis por desenvolver o trabalho terapêutico em Erechim, falaram sobre a terapia realizada, que é conhecida como Respiração Holotrópica, desenvolvida há 60 anos pelo psiquiatra tcheco, naturalizado americano, Stanislav Groff e por sua esposa Cristina Groff.

“Esta terapia tem como objetivo ampliar a consciência do indivíduo sobre ele mesmo, ou seja, a pessoa nessa terapia consegue tomar consciência de partes dela que ela não consegue lidar na vida cotidiana e que geram problemas de saúde física, mental e emocional. Traumas profundos, emoções em desequilíbrio, comportamentos destrutivos, mas também autoconfiança, alegria, paz interna e nas relações são vivenciadas nesse processo”, diz parte do texto.

É realizada através da respiração intensa, trabalho corporal e das músicas instrumentais de diversas origens culturais (indianas, afro, árabes, tambores, instrumentos indígenas etc...) cria-se um ambiente propício e seguro para a pessoa entrar em contato com seu íntimo e expressar  o que ela sente trazendo profundo alívio emocional e até mesmo resolução de doenças físicas”, relata ainda a nota, que também condena a maneira agressiva e preconceituosa usada na divulgação do vídeo.

Publicidade

Blog dos Colunistas