Da alegria e certeza de realizar um bom negócio para a tristeza e o medo de ter caído em um possível golpe. Esta é a dúvida de uma moradora de Erechim, que prefere não ter o nome divulgado e recentemente entregou o único automóvel que tinha para uma empresa no município, mas até o momento não recebeu o valor que havia sido acordado no negócio, ficando com um prejuízo que ultrapassa R$ 12 mil reais.
Segundo ela relatou para a reportagem, o anúncio da venda do seu veículo havia sido postado no Facebook e foi pela rede social que uma mulher entrou em contato, mostrou interesse pelo carro, disse que trabalhava em uma empresa, na área central da cidade, e pediu para ver o veículo.
A proprietária levou o carro até a empresa e conta que no local conversou com um homem, que disse ser o empresário proprietário do local.
A proposta
Para a reportagem, a moradora de Erechim contou que estava pedindo R$ 18 mil pelo automóvel e que o empresário teria feito a seguinte proposta: quatro mil reais de entrada, na entrega do veículo e dois mil reais por semana, até que o valor total fosse atingido.
“No início eu não desconfiei de nada, havia muitas pessoas no local fazendo o mesmo negócio, achei normal, já que eles mexiam neste setor de documentação de veículos, multas, etc...”, diz a mulher.
Pouco depois do empresário ter pago o valor de entrada, ele teria feito contato com a mulher, solicitando a documentação do veículo e uma procuração para a transferência do automóvel, reconhecida em cartório. “Entreguei o carro no mesmo dia para um homem, que o vendeu logo na sequência para outra pessoa. A mulher com quem eu havia conversado na rede social foi comigo ao cartório fazer a documentação”, comenta a dona do carro.
Segundo ela, após quitar a entrada e a primeira parcela, a empresa deixou de efetuar os pagamentos e o empresário teria parado de atender o telefone. A mulher então retornou até a empresa, e para sua surpresa, teria encontrado as portas fechadas e outras pessoas que, disseram, estavam na mesma situação em que ela se encontrava. “Me senti muito mal, enganada, pois a gente trabalha tanto para ter uma coisa e ela é levada assim. Eu precisava muito deste dinheiro do carro por isso estava vendendo”, lamentou a mulher em lágrimas, durante a entrevista.
Outras vítimas
Sem contato via telefone ou mensagem com os responsáveis pela empresa, a mulher então procurou a polícia e descobriu que pelo menos outras 20 pessoas estariam em situação parecida e todos os casos envolveriam o mesmo estabelecimento. “Quando cheguei na delegacia encontrei mais pessoas, fazendo registro. Como eles fizeram este negócio, de tal forma completo, nossa sensação é de que eles vão sair impunes e a gente não vai ter o carro ou o dinheiro de volta”, ressaltou a mulher.
Para a reportagem, ela contou que descobriu que seu carro foi vendido para uma família que mora na cidade de Concórdia, Santa Catarina, por R$ 16 mil, valor menor do que o pedido por ela e prometido pela empresa. O automóvel já teria sido até mesmo transferido, com a utilização da procuração entregue por ela ao empresário.
Segundo o advogado, Everton Luís Sommer, que representa algumas das pessoas afetadas pelo mesmo problema com a empresa, o caso inicialmente aponta para ser tratado na Justiça Civil, como um desacordo comercial. “Nos últimos dias recebemos mais de 10 pessoas em nosso escritório, pedindo auxilio jurídico. Elas contam sempre a mesma história, que ele comprava o carro parcelado, prometia um valor maior do que o solicitado pelas pessoas e após pagar uma entrada e um parcela, ou às vezes nenhuma, vendia o carro e cortava o pagamento”, explica o Sommer.
Conforme o advogado, a orientação principal para quem eventualmente esteja vivendo a mesma situação, é que registre o caso na Delegacia de Polícia e logo após busque um advogado de confiança, para ingressar com um pedido de suspensão das procurações. “Desta forma pode-se tentar ao menos evitar que os veículos não possam ser transferidos a tempo para terceiros, que compraram, muitas vezes, de boa fé”, destaca.
A empresa
Por telefone, a reportagem tentou contato com a empresa e com o empresário, mas as ligações iam para a caixa postal. A reportagem então foi até o local e enquanto esteve lá, o estabelecimento se encontrava com as portas fechadas.
Em comunicado nas redes sociais, publicado no último dia 15 de setembro, a empresa diz que “está com sua matriz fechada por alguns dias para reorganização e por questões de segurança, dado a ameaças recebidas, que incluíam inclusive difamação”, e que “uma central será criada para a regularização dos pagamentos”.
O que diz a Polícia
O caso está sendo apurado pela 1° Delegacia da Polícia Civil de Erechim. O delegado responsável, Rodrigo Dreyer, não quis gravar entrevista, mas confirmou que já foram registrados mais de 20 boletins de ocorrência contra a empresa pelas vendas sem pagamentos, por isso, os processos devem ser apurados de forma conjunta pela delegacia, que irá abrir um inquérito do caso.
*Os nomes dos envolvidos e da empresa foram preservados, pois até o momento da publicação desta matéria a Polícia Civil seguia apurando os fatos.