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Refugiado da Segunda Guerra é filho de prisioneiros de campo de concentração nazista

Wladislaw Havryluk, o Tramela, mora em Erechim desde o fim de 1948 vindo da Alemanha

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Wladislaw ‘Tramela’ Havryluk é um dos poucos refugiados da Segunda Guerra que ainda vivem em Erechim
Por Salus Loch
Foto Arquivo pessoal

 

Salus Loch

 

Wladislaw Havryluk nasceu em 1946, na Alemanha. Com dois anos e meio atravessou o Atlântico no navio inglês Stewart e veio parar em Erechim na condição de refugiado de guerra ao lado dos pais, Nycolay, de origem ucraniana, e Maria, búlgara. Os três, assim como outros tantos, fugiam de uma Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial.

O tempo passou e Wladislaw virou ‘Tramela’ – apelido que deu nome à empresa de reforma, conserto e modernização de ônibus e micro-ônibus que fundou em Erechim há mais de duas décadas.

Foi aqui, também, que conheceu (num baile no Clube Rui Barbosa) e casou com a professora Marilene Chiarello. Da união, nasceram os filhos Juliano, engenheiro mecânico que trabalha com o pai na Tramela, e Mariele, radiologista que fez carreira em Florianópolis/SC. Com eles, também vieram os netos – a alegria do avô: Davi, de 10 meses (filho de Juliano) e Bernardo, que completa 2 anos em maio (filho de Mariele).

A seguir, Wladislaw – com a participação da esposa, Marilene – conta um pouco da surpreendente trajetória que uniu os pais (Nycolay e Maria) num campo de concentração nazista, provando que o amor pode estar onde menos se espera.

 

Seus pais se conheceram num campo de concentração, durante a Segunda Guerra. O que o Sr sabe desta história?

Sei o que meu pai me contou. Que eles estavam presos trabalhando no mesmo campo de concentração numa cidade próximo a Berlim. Ele, de família polonesa nascido na Ucrânia, e ela, vinda da Bulgária. Havia um alojamento para homens e outros para mulheres, sendo que o único dia de folga era nos domingos. Mas, o Seu Nycolay e a Dona Maria deram um jeito de ficar juntos. Um ano depois do fim da guerra, eu nasci.

 

O Sr já visitou a Alemanha, ou algum dos lugares de onde seus pais vieram?

Não. Nunca tive este interesse.

 

E pretende ir?

Não.

 

Considerando a história de seus pais, o que mais lhe marcou?

A capacidade que temos de dar e receber carinho mesmo diante da adversidade. Eles se conheceram, bem dizendo, no inferno. E de lá saíram juntos, firmes e fortes.

 

Por que seu Nycolay e dona Maria escolheram o Brasil, e Erechim, para tentar reconstruir a vida?

Quando meus pais foram libertados do campo de concentração e a guerra acabou, eles seguiram morando em Berlim. Meu pai era marceneiro e minha mãe ficava em casa cuidando de mim, recém-nascido. A coisa não estava boa. Era preciso fugir do comunismo e encontrar um lugar melhor para viver. Parece que o Getúlio Vargas abriu um programa permitindo que estrangeiros viessem morar no Brasil. Meu pai se inscreveu e viemos para cá. Sobre a escolha de Erechim, minha mãe, que era uma mulher muito inteligente, diz que foi por causa do clima, mais parecido com o europeu. O calor da Ilha das Flores onde desembarcamos, no Rio de Janeiro, era terrível.

 

A adaptação da família a Erechim foi difícil?

No começo, sim. Mas, meu pai era um homem trabalhador. Conseguiu um emprego na Madalozzo e começamos a nos arrumar. Mais tarde, abriu o próprio negócio: uma oficina de móveis, em nossa casa. Lembro que meu pai dizia: o Brasil é o melhor país do mundo, aqui você tem o que comer e pode ir onde quiser. Na Europa, na guerra e com os comunistas, isso não existia. Ele só ficava transtornado quando via a foice e o martelo dos comunistas. Dizia que se mataria se os vermelhos tomassem conta do Brasil.

 

E a sua trajetória, como foi?

Cheguei com dois anos e meio em Erechim. Me criei aqui. Lembro que meu pai me obrigou a estudar bem cedo. Passei pelo Imlau, o colégio das freiras (São José), Medianeira. Até para padre estudei quase um ano em Rio do Oeste, mas aquilo não era pra mim. Voltei, fui para o Agrícola e depois o Haidée, até que com 17 anos comecei a trabalhar na antiga Incasel, na montagem de carroceria de ônibus. Tranquei os estudos e fiquei 22 anos lá. Quando a empresa faliu, trabalhei um ano na Reunidas, em Caçador, até ser contratado pela Comil para ser supervisor. Mais 12 anos se passaram até que resolvi, em sociedade, abrir minha própria empresa de reforma e modernização de ônibus. Estamos há 23 anos no mercado.

 

Saiu bem da Comil?

Sim, sem problemas. Meus primeiros clientes foram indicados por eles. Hoje, presto assistência técnica para Comil, Marcopolo e outras. Mas, te digo: a pessoa que abre uma empresa não pode gostar de dinheiro (para fins pessoais); se não, quebra. Ela tem que gostar do trabalho e fazer de tudo para ver a empresa crescer – pensando no futuro do negócio e em seus empregados.

 

Curiosidades:

# O mesmo navio que trouxe os Havryluk ao Brasil também fez desembarcar no país, e mais tarde em Erechim, a professora aposentada Krystyna Altmajer Vaz – que teve sua história retratada na edição do dia 9 de fevereiro, também no Bom Dia Entrevista. Detalhe: Foi o bate papo com Krystyna que abriu ‘a porta’ para que descobríssemos a história de Wladislaw Tramela. As famílias Havryluk e Altmajer – vizinhas na rua Farrapos – mantém relação de amizade até hoje.

 

# Há 11 anos, Wladislaw Tramela superou um câncer na garganta, causado pelo fumo. ‘Acreditar sempre’ e ‘ter fé’, diz ter sido as principais lições que a doença lhe ensinou.

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