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‘É preciso olhar mais para o sol do que para a escuridão’

Declaração é da professora Krystyna Altmajer Vaz, refugiada da Segunda Guerra Mundial que, nascida polonesa, confessa amar o Brasil – onde mora há sete décadas

'Chegamos ao Brasil na condição de refugiados de guerra'.
Por Salus Loch

 

Krystyna Altmajer Vaz, nascida em Dulnik, na Polônia, chegou a Barão de Cotegipe, interior do Rio Grande do Sul, no último dia de 1948. Vinda direto da Alemanha no navio inglês Stewart, tinha pouco mais de seis anos e era uma refugiada da Segunda Guerra Mundial, assim como os pais, Czeslaw (em português, Cezario) e Regina, e o irmão mais velho, Ian (João).

Hoje, aos 76 anos, ‘Tia Kryztyninha’, como é carinhosamente chamada por amigos, colegas e os centenas (milhares?) de estudantes que ajudou a alfabetizar, mora sozinha numa espaçosa e bem decorada casa - que tem no verde a cor preponderante (do pátio à fachada), na Avenida Farrapos, em Erechim/RS.

Foi lá que recebeu a reportagem do Bom Dia para contar um pouco de suas lembranças, experiências e, claro, ensinar. ‘É preciso olhar mais para o sol do que para a escuridão’, alertou – dizendo-se preocupada com uma sociedade que valoriza mais o aspecto negativo (tragédias e outros) do que as boas ações.

 

A Sra nasceu na Polônia, no ano de 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial. Em 1948, veio morar no Rio Grande do Sul. Como e por que se deu essa mudança?

Chegamos ao Brasil na condição de refugiados de guerra. Em 1944, minha família foi levada da Polônia à Alemanha de trem, escoltada por soldados. Meus pais foram obrigados a trabalhar para os alemães, pois não apoiavam os nazistas. Ao fim da guerra, seguimos na Alemanha por mais de três anos. Foi muito triste. Minha mãe estava deprimida – até que, com a perspectiva de virmos para cá, as coisas mudaram. Mamãe tinha um padrinho de batismo que morava em Barão de Cotegipe. Organizamo-nos e, com  esperança, decidimos partir em busca de uma nova vida.

 

Por que o Brasil?

Meus pais escolheram o Brasil por ser o primeiro país a receber famílias inteiras, mesmo que o Estado não desse nenhuma assistência. Acontece que no período da Guerra havíamos sofrido com a separação. O pai abria trincheiras e minha mãe trabalhava em fábricas. Optamos por vir para um lugar onde tínhamos uma referência – que era um dos requisitos para se estabelecer no Rio Grande do Sul – e pudéssemos ficar juntos, além do clima, semelhante ao nosso. É interessante observar, também, que das 800 famílias que vieram conosco no antigo navio de guerra Stewart, apenas três pararam no RS, sendo as outras duas de origem ucraniana.

 

O que a Sra lembra da viagem da Alemanha para o Brasil?

Lembro-me da insegurança, embora durante os 14 dias de percurso tudo tenha corrido bem. Lembro ainda que meu pai dizia que o Brasil era uma ilha cheia de riqueza e muito ouro. Imaginava-me sempre na cama de pijama apagando a luz para dormir. Sobre a ilha, vale esclarecer que o local onde desembarcamos era chamado de Ilha das Flores, no RJ, sendo que de lá fomos a São Paulo e de trem chegamos ao RS.

 

Como se deu a adaptação ao Brasil? O que te marcou?

O início não foi nada fácil, pois a língua era uma barreira, assim como as condições financeiras. Viemos da Europa com a roupa do corpo, muita fé e mais nada. Lembro que a coragem e a força de vontade dos meus pais para enfrentar o que fosse chamava minha atenção. Aquilo, aliás, serve de exemplo até hoje. No começo, faziam o que sabiam - que era a agricultora, ocupação deles na Polônia.  Aos poucos, meu pai começou a trabalhar com o comércio, através da compra e venda de produtos coloniais. Ele comprava em Barão e vendia em Erechim. Ele era ótimo em relações interpessoais.

 

Passou o tempo e a Sra escolheu ser professora. Por quê?

Achava importante ser professora. Na época, professor tinha prestígio. Além disso, gostava da profissão e de contar histórias. Gosto até hoje.

 

Logo que cheguei, a Sra disse que o importante deste bate papo seria passar uma mensagem de otimismo. Por quê?

Hoje a sociedade dá muita importância para o negativo. Veja a tragédia de Brumadinho. Entendo que é notícia, claro, mas também há muita coisa boa que não é dita ou noticiada. No meu caso, por exemplo, estou viva depois de ter sobrevivido à uma guerra que matou milhões de pessoas inocentes. É isso o que vale. Olhar para frente e entender que as relações humanas são mais valiosas do que quaisquer bens materiais ou disputas entre os homens. Penso que é preciso olhar mais para o sol do que para a escuridão.

 

Comparando com sua infância, o mundo é um lugar melhor para se viver?

Sem dúvida. Particularmente, posso deitar na cama e dormir como um anjo, sem ter medo de que alguém irá entrar em minha casa e me levar não sei para onde, como aconteceu em 1944.

 

A Sra chegou ao Brasil na condição de refugiada. Hoje, porém, o governo federal retirou o Brasil do Pacto Global pela Imigração da ONU. Qual sua opinião a respeito?

Amo o Brasil e a Polônia. Sou feliz por ter duas pátrias para amar. Sobre a decisão do governo, prefiro não julgar, mas tenho a dizer que a humanidade só sobreviveu graças aos movimentos migratórios. Sou prova disso.

 

Curiosidades

# Embora tenha nascido em 5 de outubro de 1942, documentos oficiais indicam que Krystyna teria vindo ao mundo em 5 de setembro de 1942 (um mês ‘antes’). Ela acredita que a confusão se deu pelos seis anos transcorridos entre a data de nascimento e o devido registro, encaminhado pelo pai.

 

# Depois de 18 anos morando no RS, os pais de Krystyna e o irmão, Ian, trocaram o Brasil pela Austrália. Ela, porém, decidiu permanecer em Erechim - onde casou com o gaúcho de Bagé, Dáiser Gonçalves Vaz (morto em 1980). Da união nasceram os filhos Tulio Leandro, engenheiro mecânico em Concórdia/SC; e a engenheira química e professora da Universidade de Granada/ESP, Deisi.

 

# Hoje, Tia Kryz tem três netos: Tiago Leandro, de 14 anos, filho de Tulio; Leandro, de sete e Luísa, com um ano e um mês, ambos filhos de Deisi – e que moram com a mãe e o pai, Miguel, na Espanha. Em abril, aliás, Krystyna embarca para o Velho Mundo onde pretende passar seis meses mimando a pequena Luísa. ‘Quero dar aos netos o carinho que meus filhos não tiveram aqui no Brasil, porque os avós estavam longe’, resume.

 

# Já em meados dos anos 60, dona Regina (mãe de Krystyna e uma exímia poetisa) havia revelado que não se adaptara a alguns aspectos do Brasil. O ciúme e a rivalidade entre os próprios migrantes poloneses que aqui viviam teria sido principal. Motivo para que a família buscasse novos ares em Melbourne, na Austrália.

 

# Em 2005, Krystyna participou na condição de ilustradora do livro ‘A menina da rua dos polacos’, de autoria da ex-reitora da URI, Mara Regina Rösler. Os desenhos foram todos feitos em ‘Wycinanka’ – arte polonesa que utiliza tesoura, papel e cores.

 

# Logo na chegada ao Brasil, o feijão preto foi descartado do prato dos Altmajer. ‘Parecia sujo’, recorda-se Tia Krys, para quem o feijão era ‘branco’, como na Europa. Logo em seguida, porém, o alimento caiu no gosto da família, tornando-se imprescindível nas refeições. ‘Quando descobrimos o sabor, passou a ser tudo o que queríamos’, completa a professora.

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