Dormir e sonhar
"Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer." A frase é do genial Mário Quintana e traz sutis provocações sobre o dormir e sobre os sonhos. São coisas diferentes, eu sei, mas andam juntinhas, mesmo quando a gente não consegue lembrar de nada ao acordar. Por vezes, muitas vezes, nem nos é permitido saber, como se a mente tivesse um gerente celestial. Em outras, é melhor nem saber, tudo em nome da saúde.
Liberdade
Há um recôndito de nossas vidas onde a liberdade não tem limites. Não há controle social, não há moralismo, regras ou algo que impeça o nosso livre pensar. Este lugar é o nosso dormir. Passamos um terço da vida assim e nem nos damos conta. Quem dorme menos do que isso, ou perde a saúde, ou perde a razão, ou, até mesmo, encurta a própria vida. Porque dormir é a parte mais gostosa do dia. E não se paga nada por isso. Ao dormir descansamos, viajamos, sonhamos. Nada de remorsos como dizia Quintana. Dormir é tão bom que às vezes me pergunto por que será que não dormimos mais?
Vendedor de Ferrari
De certo modo, tenho de concordar com o vendedor de colchões. Aquele que bate à porta da nossa casa e oferece um equipamento que promete nos levar aos céus ao preço de um carro usado. Alegam ser a Ferrari dos colchões. Pensando bem, há quem invista milhares de reais em um automóvel que será utilizado pouco mais de duas horas por dia e, para poder a prestação do carro, economiza no colchão, onde permanecemos bem mais tempo do que no automóvel. É como diz a sabedoria popular: não há nada melhor do que uma boa noite de sono. Até há, mas disso não vamos comentar.
Não consciente
No fundo, somos aquilo que pensamos. Uma espécie de psicosfera individual. A soma de todos os nossos pensamentos. Por mais que na vida acordada tenhamos de nos comportar conforme as regras do lugar, ao dormir, liberamos tudo o que se passa (ou passou) em nossa mente durante o dia. Aquela bunda que nos desvia o olhar, a grama do vizinho, o nosso lado mais sombrio, fofoqueiro e silencioso. Facetas que poderiam falar mais contra nós do que sobre quem somos. Esses pensamentos soltos do dia, aleatórios e despretensiosos, voltam todos à noite, e não vale dizer que não pensamos só porque não sonhamos com eles.
A vida dormida
Ao dormir, cometemos tudo aquilo de que Quintana dizia se arrepender. Coisas boas e outras nem tanto. Mas o ato de adormecer nos leva para muito mais além. Ficamos livres para sonhar com quem amamos, com quem já está em outro plano. Fazemos isso sem qualquer controle. Cada manhã, uma surpresa. Afinal, não é permitido escolher com o que se quer sonhar. Nos sonhos podemos esbofetear um inimigo e até mesmo fazer as pazes, sem rancor. E por mais que os pensamentos se entrelacem, que as imagens fiquem todas distorcidas, não deixa de ser maravilhoso. Não raro, acordamos chocados, alegres ou chorando. Dormindo temos ideias, descobrimos o outro lado e até podemos resolver problemas. Há muita coisa que se pode fazer quando acessamos o inconsciente.
A melhor parte
Será que dormir não é a melhor parte dos nossos dias? Se for assim, será que o bom da vida não seria sonhar? Claro, não precisamos passar a vida a dormir. Óbvio que não. São precisos esses dois terços acordados para termos matéria-prima para os sonhos. É no sono que processamos o que vivemos quando estamos acordados. Até a nossa memória é registrada enquanto dormimos. Mesmo que, de vez em quando, tenhamos lá uns pesadelos aterrorizantes, dormir faz bem, faz-nos encontrar a nossa verdadeira essência. Uma conexão com o céu. Ao sonhar, temos contato com o que realmente se passa na vida. Um bom momento para refletir, sem precisar da moral dos outros. Sem custar nada, sonhar é um verdadeiro exercício de autoconhecimento.