Lucidez
De volta das minhas férias, como há tempos não gozava, salto direto ao teclado. Escrever era o meu primeiro desejo no retorno ao trabalho. Estava saudoso de aqui estar, pois recentemente meu espírito recebeu um jorro de luz de um premiado leitor deste jornal. De tempos em tempos é assim, algum leitor surge no caminho e abençoa a nossa jornada cega de escritor. Cega porque o que uma mão escreve, a outra não sabe quem vai ler.
A inspiração
Então, inspirado no iluminado Mansueto (por desconhecimento a grafia será com um só “t”), não me restava outro assunto senão falar sobre a lucidez. Afinal, quando eu mostrava a reportagem do Bom Dia aos amigos mais próximos, todos destacavam a lucidez do nosso ilustre leitor. Mas, afinal, o que vem a ser a lucidez? E por que razão deixamos para usar este termo somente com os que são jovens há mais tempo? Perguntas como estas me despertam outra constatação: seremos nós lúcidos, considerando o ambiente extremamente digitalizado em que vivemos? E mais, haverá lucidez quando a inteligência artificial passar a tomar decisões em nosso lugar?
Lucidez
Os melhores dicionários a definem como a qualidade de quem é lúcido. Aquele que tem clareza de ideias e precisão de raciocínio. Para a ciência médica, são aqueles que têm a mente sadia. Já na física, significa aquele corpo que brilha, dá luz, claridade e lustro. No bom e velho senso comum, a lucidez é, além disso, algo que percebemos na pessoa, mas que é difícil exprimir. Mesmo assim, eu vou tentar descrever: lucidez é quando percebemos que a pessoa passou pelos desafios da vida sem comprometer as capacidades mentais, não importa a idade. É um espírito que brilha através do próprio corpo.
Desafios
Pensando bem, nem vou me dar ao trabalho de responder às perguntas que fiz logo acima. Deixo para o solitário leitor constatar. No entanto, não me furto de escrever o óbvio – como sempre fazem os cronistas – e dizer que quem lê costuma ser lúcido. Simples assim. A leitura é, talvez, um silencioso remédio. Protege o cérebro, tempera as emoções, exercita a imaginação e, sobretudo, promove a empatia. Passivamente, nos tornamos ativos. Projetamos ideias, raciocinamos e, com ou sem conclusão, protegemos nossa mente, numa velocidade que só a natureza humana é capaz de acompanhar sem o comprometer a saúde mental.
Mundo visual
O leitor também já reparou que um livro de trezentas páginas não se lê em menos de duas horas. Um filme, sim. Não há como, através da leitura, ser veloz e assertivo. Somente as imagens têm essa capacidade. Agora imagine quantos filmes, “Tik Toks”, vídeos curtos, propagandas e outros apelos visuais seria possível ver no tempo em que se lê um livro de trezentas páginas. De maneira simplória, o leitor pode concluir: se a leitura torna os humanos mais lúcidos, como serão aqueles que não leem e que dedicam horas e horas ao mundo das imagens? Não é difícil constatar. A humanidade, no geral, está adoecida e busca a própria cura no mesmo meio onde perdeu a saúde.
O legado
Em tempos loucos como estes em que vivemos, seja no clima ou na psicosfera, a simplicidade e a mansidão do nosso ilustre leitor indicam um bom caminho para termos saúde mental. Como um farol, Mansueto nos mostra o poder da leitura, despretensiosa, como uma ferramenta fundamental para atravessar décadas insanas e trevosas com leveza e luz. Obrigado, Mansueto! Como dizem “cá” em Portugal, a luz divina passa por si.