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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Entre o céu e o inferno

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Há em mim uma inquietação fraturante. Por que razão as pessoas têm tanto medo da morte? Por que raios passamos boa parte de nossas vidas pensando nela? Pior ainda, como ter paz no cotidiano se há sempre o assombro da morte a nos rondar? Se pensarmos bem, a morte é um assunto fascinante. E por mais que pensemos, por mais que adquiramos uma consciência elevada sobre o tema, há sempre situações em que ela se apresenta e que pouco podemos dizer, além dos chavões-clichês.

Religião

Infelizmente, a morte é a melhor amiga da religião. Muitos dogmas andam de mãos dadas com ela. Os conceitos de céu e inferno, a ideia de paraíso, de estar sentado ao lado – ou bem pertinho – de Deus. Todas são abstrações, verdadeiras ou não, que acalmam os seres humanos. Como dizia Karl Marx, a religião é o ópio do povo. Um potente anestésico para enfrentar a mais perfeita e inexorável verdade da vida. Pensar assim, que depois da morte vamos para um lugar aprazível, numa espécie de aposentadoria vitalícia, deveria ser algo bastante reconfortante. Quiçá, é nisso que pensam os suicidas. Num lugar onde não há guerra, pensão para pagar, impostos, violência e tantas outras coisas que fazem da Terra um verdadeiro inferno. Mas não.

O pós-mortem

Mesmo o sujeito mais religioso, mesmo aquele que acredita e divulga as ideias de que o céu é um lugar incrível, benevolente, cheio de natureza e sem poluição, não adianta! Não conseguimos deixar de temer a tal da morte. Há muitos que levam vidas miseráveis aqui na Terra e mesmo assim não ficam à sua espera. Mulheres desgraçadas pela masculinidade tóxica, pacientes resignados com suas doenças incuráveis, gente de carne e osso, que passa pelas mais difíceis situações, nenhum desses é capaz de parar e sonhar com o paraíso, com o memorável encontro com as portas do céu. Não seria então, tudo isso, uma grande mentira? E se for – ou não – por que razão temos tanta dificuldade em acreditar, até mesmo quando a morte seria nossa única esperança?

Inferno

Crescemos com aquela ideia – muito errada – de que “Deus castiga”. Quem nunca ouviu que atire a primeira pedra. Para amedrontar os desviados, somos levados pelas religiões a acreditar que, assim como há o céu, perfumado e alegre, há também o inferno, fedorento como os banheiros de estádio de futebol, quente como um ônibus lotado e tenebroso como o banco dos réus. Tão duvidoso quanto o paraíso, o inferno não amedronta quem deveria. Bandidos, corruptos, trapaceiros e tarados pouco o temem. Parece que foi feito para reprimir os maus comportamentos das pessoas de bem, que optam por este caminho, mais por dúvida do que por acharem que o bem deve prevalecer sempre.

A linha tênue

Neste balanço entre o bem e o mal, as religiões omitem-se de dizer, afinal, qual a “dosimetria” das nossas falhas. Quantos acertos seriam necessários para desfazermos os erros que vamos acumulando ao longo da existência? Quem, afinal, fará o nosso julgamento? Teremos ou não recurso, duplo grau, ou seremos tratados como a moça do batom? Haverá algum anjo debochado a olhar para nós e dizer, “perdeu, mané”? Seja como for, se há céu e inferno, deve haver uma antessala onde a nossa cidadania espiritual é processada, uma espécie de umbral, onde pacienciosamente haveremos de esperar, esperar, esperar, até que possamos ser “processados” e julgados. O tal de juízo final. Lembram dele? Na dúvida, me pergunto se não seria possível dar uma espiada no inferno para não ter de ficar esperando esse temerário julgamento. De certeza que é isso que deve passar na cabeça de um criminoso.

A morte da morte

Por essas - e tantas outras - é que acredito no céu e no inferno. Acredito que sejam, sim, locais para onde podemos ir depois que morremos. No entanto, até que tudo isso seja processado, no encontro de contas do que fizemos de bem e de mal nesta vida, até que tudo seja perfeitamente esclarecido em nossa consciência, é bem provável que fiquemos nesta antessala, infinita, permeada de arrependimentos, dúvidas e certezas. A verdadeira morte, por impaciência. Até porque, se quando lá chegarmos formos também conhecer os problemas dos outros, os erros dos outros, talvez nunca cheguemos a uma conclusão. Pensando bem, eu acho que essa ideia de paraíso e de inferno podre e fedorento não passam de mais uma forma de manipular a nossa fé. Tudo isso, ainda dizem, em nome de Deus. Os humanos são realemente difíceis, deve pensar Ele.

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