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Saúde

Doação de córnea pode mudar a vida de quem espera por transplante

Procedimento é indicado em casos de infecções, traumas e doenças como o ceratocone

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Dr. Celso em entrevista sobre doação de órgãos e transplante de córnea para a TV Bom Dia
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo TV Bom Dia

Cada vez mais surgem cores relacionadas a determinados meses do ano para poder discutir questões de saúde e prevenção. Esse mês de setembro, além da saúde mental representado pela cor amarela, é representado também pela cor verde, marcado por outra temática extremamente importante que é sobre a doação de órgãos. O dia 27, por exemplo, é o Dia Nacional da Doação de Órgãos e esta é uma campanha muito ampla, e nela entra também a doação de tecidos, como a córnea.

A córnea é a estrutura transparente localizada na parte da frente do olho e tem papel fundamental na formação da visão. Quando apresenta cicatrizes, deformidades ou outras alterações que comprometem a transparência ou o formato, o transplante pode ser indicado.

Transplante substitui a córnea doente

O médico oftalmologista do Instituto de Olhos Santa Luzia, o Dr. Celso José Pertille, especialista em transplante de córnea e cirurgia refrativa, compara a estrutura do olho ao funcionamento de um relógio para explicar o procedimento. "A córnea, eu costumo dizer para os pacientes que é como se fosse o vidro do relógio. E quando a gente fala em transplante de córnea, a gente realiza a troca desse vidro. A gente não troca o relógio por inteiro, apenas o vidro".

Segundo ele, uma córnea com opacidade, cicatriz ou deformidade pode impedir a passagem adequada da luz e comprometer a visão, mesmo quando as demais estruturas do olho estão funcionando normalmente. "O transplante é isso, a gente troca a córnea doente, que seria como se fosse o vidro doente, por uma córnea nova e saudável".

Traumas, infecções e ceratocone estão entre as causas

O transplante pode ser necessário em diferentes situações. Traumas que deixam cicatrizes na córnea e úlceras, que são feridas provocadas por infecções ou outras condições, estão entre as causas.

Outra doença associada ao transplante é o ceratocone, alteração progressiva que modifica o formato da córnea e pode prejudicar a qualidade da visão. Nem todos os pacientes com a doença precisam chegar ao transplante. "O ceratocone avançado, que outros tipos de tratamento já não melhoram a visão, é um caso de necessidade de transplante de córnea", explica Dr. Celso.

O diagnóstico precoce pode reduzir a possibilidade de evolução para quadros mais graves. Entre os tratamentos disponíveis está o CROSSLINK, procedimento que busca aumentar a resistência da córnea e estabilizar a progressão do ceratocone. "A ideia é fazer o diagnóstico precoce, realizar o tratamento o quanto antes para que a gente consiga a estabilização e que o ceratocone não evolua para um caso avançado a ponto de precisar o transplante de córnea", aponta o oftalmologista.

Uso inadequado de lentes pode aumentar risco de infecção

Alguns casos que levam ao transplante podem estar relacionados a cuidados inadequados com lentes de contato, como dormir com as lentes ou entrar em piscinas usando o dispositivo pode aumentar o risco de infecções na córnea.

Uma infecção pode provocar uma úlcera e, depois da cicatrização, deixar uma opacidade capaz de comprometer a visão, “então, ter um cuidado maior é um jeito de diminuir a chance de precisar de um transplante", afirma Dr. Celso.

O acompanhamento oftalmológico também é importante para identificar precocemente doenças como o ceratocone e definir o tratamento antes que ocorram alterações mais graves.

Técnicas mais recentes permitem preservar partes saudáveis

O transplante de córnea passou por mudanças nas últimas décadas, em vez de substituir necessariamente toda a espessura da córnea, algumas técnicas permitem retirar apenas a camada afetada pela doença. Esses procedimentos são chamados de transplantes lamelares. Em determinados casos de ceratocone, são substituídas camadas anteriores, já em doenças que provocam edema, ou inchaço da córnea, pode ser substituída uma camada localizada na parte posterior.

A preservação das estruturas saudáveis pode contribuir para uma recuperação mais rápida em alguns tipos de cirurgia. O médico explica que "quando a gente troca a camada de trás da córnea, que é no caso de pacientes com edema de córnea, inchaço, não precisa de pontos, pois é uma película extremamente fina, é uma cirurgia que o transplante cola sem necessidade de ponto. Esse é um dos maiores avanços do transplante de córnea".

Recuperação pode levar meses

O resultado visual não é imediato, a recuperação depende da técnica utilizada, da condição do paciente e da resposta do olho ao transplante. Nos transplantes lamelares anteriores, como os realizados em determinados casos de ceratocone, são utilizados pontos e a retirada ocorre gradualmente. A adaptação da visão pode levar meses. "E quando eu falo em gradual, é em torno de meses, pode demorar até um ano", afirma o médico.

O transplante também não tem como objetivo eliminar totalmente a necessidade de óculos ou lentes de contato. Mesmo depois da cirurgia, alguns pacientes precisam desses recursos para alcançar melhor qualidade visual.

Nos transplantes lamelares posteriores, utilizados em alguns casos de edema da córnea, a recuperação costuma ser mais rápida e o paciente pode retomar as atividades gradualmente, em alguns casos dentro de um período de um a três meses.

Para a reabilitação visual após o transplante, o período também varia. De acordo com oftalmologista, é possível que a avaliação mais precisa da visão ocorra a partir de cerca de quatro meses, mas alguns pacientes podem levar até um ano ou mais.

Rejeição exige atenção aos sinais

Como a córnea transplantada é um tecido doado, não faz parte daquela pessoa, existe possibilidade de rejeição. O risco é maior no primeiro ano, embora o problema também possa aparecer anos depois. "Felizmente a rejeição tem tratamento, quanto mais cedo o tratamento for realizado, maior a chance de recuperação e de não perder esse transplante, porque uma rejeição que evolui sem tratamento ou que não responde ao tratamento, ocorre uma falência do transplante, podendo ser necessário realizar um novo procedimento, chamado retransplante”, salienta.

O uso correto dos medicamentos prescritos pelo oftalmologista é uma das medidas para reduzir esse risco. O paciente também deve procurar atendimento diante de sintomas como vermelhidão persistente, embaçamento rápida da visão ou dor ocular.

Cuidados permanecem mesmo anos depois da cirurgia

A recuperação da visão não significa que os cuidados terminam. Segundo o oftalmologista, uma córnea transplantada pode permanecer no olho por décadas e exige atenção durante todo esse período.

Atividades que envolvem impactos na região dos olhos podem representar riscos. Esportes de luta, como boxe e Muay Thai, são citados pelo médico como exemplos de modalidades que exigem atenção especial. O risco não está restrito ao primeiro ano após a cirurgia. Uma pancada pode provocar danos mesmo muitos anos depois do transplante.

Fila é estadual e segue ordem de inscrição

Para entrar na fila de transplante, o paciente precisa ser avaliado por um profissional credenciado pela Central de Transplantes. Havendo indicação, o médico realiza a inscrição. A fila é estadual e segue, em regra, a ordem cronológica de inscrição, com algumas exceções que permitem prioridade, como crianças com menos de sete anos e determinados casos de perfuração ocular causada por trauma ou infecção.

O tempo de espera depende da quantidade de pacientes inscritos e da disponibilidade de córneas doadas. "No Rio Grande do Sul, a fila está em torno de 1 ano e 4 meses. Como a gente depende da quantidade de inscritos e da quantidade de doações, o tempo varia um pouco, mas é em torno de 1 ano e 4 meses", comenta Dr. Celso.

Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, 37.719 pessoas aguardam transplante de córnea no Brasil e dados do Registro Brasileiro de Transplantes/ABTO apontam que em 2025 foi registrado o maior número de transplantes já registrado no país, ao todo foram 17.790, enquanto no Rio Grande do Sul, esse número foi de 1.029 transplantes.

O paciente não pode permanecer simultaneamente em filas de diferentes estados. É possível solicitar transferência, mas a inscrição fica vinculada a uma única fila estadual.

Pessoas que usam óculos também podem ser doadoras

O uso de óculos ou a realização de cirurgias oculares anteriores não impede, necessariamente, a doação de córneas. Cada tecido doado passa por avaliação antes de ser destinado a um transplante.

Procedimentos como cirurgias de catarata ou de correção do grau não significam, por si só, que a córnea esteja descartada para doação. A avaliação é feita pelo banco de olhos e pelos serviços responsáveis pela captação e análise do tecido. Até mesmo pessoas que receberam transplante podem, em determinadas situações, ser doadoras de córnea após a morte. As técnicas atuais permitem o aproveitamento de tecidos em situações que antes eram mais restritas.

Família autoriza a doação após a morte

No Brasil, a autorização para a doação de órgãos após a morte é dada pela família. Por isso, comunicar previamente a intenção de ser doador é uma das principais formas de deixar clara essa vontade, mesmo que a pessoa tenha registrado em vida, por meio de documentos, o desejo de doar, a família participa da decisão no momento do falecimento.

Por isso, o médico recomenda que o assunto seja discutido entre familiares. "Se você tem vontade de doar os seus órgãos, de ser um doador, converse com a sua família e deixa essa vontade alinhada para que no futuro seja possível ajudar muita gente".

Novas alternativas buscam evitar ou adiar o transplante

Além do CROSSLINK, outras alternativas são utilizadas no tratamento do ceratocone. Uma delas é o Anel Corneano Intra-estromal, que pode auxiliar na melhora da visão e, quando associado ao CROSSLINK, contribuir para o controle da doença.

Pesquisas também estudam medicamentos e colírios para outras doenças da córnea. Em casos de edema, por exemplo, o objetivo de algumas dessas pesquisas é retardar a necessidade de um transplante.

A prevenção, o diagnóstico precoce e o acompanhamento médico são fatores que podem interferir na evolução das doenças que afetam a córnea. Já para os pacientes que chegam ao transplante, a disponibilidade de tecidos doados é parte essencial do tratamento, por isso a importância do Setembro Verde na conscientização da população a respeito da doação de órgãos.

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