Atualmente em fase de elaboração, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz em seu texto pontos que geram questionamentos. O principal deles está relacionado à disciplina de História que, em sua proposta, teve falhas admitidas até mesmo pelo Ministério da Educação. A maior crítica se deve à organização e a falta de alguns conteúdos, como a Inconfidência Mineira e Revolução Industrial, por exemplo.
A nova base, que atualmente está disponível para consulta no site do MEC, privilegia, entre outros aspectos, o estudo mais aprofundado das civilizações africanas e ameríndias. No entanto, a mudança não agradou alguns historiadores, a exemplo de associados da Associação Nacional de História (ANPUH).
Ainda no ano passado eles divulgaram uma nota afirmando que “[...]apesar das boas intenções da proposta do componente de História na BNCC para o rompimento com uma perspectiva eurocêntrica e quadripartite, não há nada novo e realmente significativo no campo da pesquisa na área sendo incorporado ao documento apresentado. Apenas uma inversão dos parâmetros eurocêntricos por um conhecimento histórico com centralidade em uma História do Brasil”, criticaram os historiadores da seção Rio de Janeiro da ANPUH.
Professor de Erechim acredita que proposta limita o ensino
Convidado pelo Jornal Bom Dia a analisar a nova proposta da BNCC, o professor de História, Marcelo Damião Maito De Grandi, que atua na Escola Normal José Bonifácio e na Escola de Educação Básica da URI afirma que a História estudada no Brasil sempre teve um caráter eurocentrista. “Por muito tempo fomos colônia de Portugal e nos deparamos com um regime de segregação e preconceito. Tudo o que vem de fora é melhor e o que é produzido aqui não presta. O enorme preconceito que existe no país e essa visão de que tudo que existe fora do Brasil é melhor, nos é deixado como uma herança do período colonial. Ainda temos, em parte, um pensamento colonial”, pontua.

Ele destaca que é de suma importância um estudo mais aprofundado das civilizações africanas e ameríndias, tanto pela sua riqueza cultural e histórica, como também pelo fato dessas civilizações serem parte integrante da História do próprio Brasil. Por outro lado, ele afirma que “abandonar partes importantes da História Global, como a Antiguidade Clássica (gregos e romanos), o período medieval, etc. é completamente equivocado e errado. Não deve haver a opção de um conteúdo pelo outro. Não existe conteúdo mais ou menos importante, pois, todos são complementares”, pondera.
Para ele, “ao tirar conteúdos que já são trabalhados em aula, não estaremos melhorando o aprendizado dos estudantes, pelo contrário, estaremos limitando-o”. “Sabemos que alguns estudantes não se interessam pela História e vivemos um período histórico no qual grande parte dos jovens apenas se interessa com suas atividades presentes, porém, não podemos deixar que aquele aluno que busca conhecer mais de si mesmo e da História do Mundo que o cerca, tenha uma oferta limitada de conhecimento”, completa.
Questionado sobre a necessidade de selecionar conteúdos na disciplina, ele afirma ainda que busca fazer com que os estudantes possam ter contato com o máximo de histórias, de personagens e de fatos. “Devemos valorizar a história africana e ameríndia sim, mas, para isso não existe a necessidade da exclusão da história de outras civilizações. No final das contas só existe uma História: a História da Humanidade”, finaliza.
Entenda a BNCC
A Base Nacional Comum Curricular, conforme explica o MEC, vai deixar claro os conhecimentos essenciais aos quais todos os estudantes brasileiros têm o direito de ter acesso e se apropriar durante sua trajetória na Educação Básica, ano a ano, desde o ingresso na Creche até o final do Ensino Médio. Com ela os sistemas educacionais, as escolas e os professores terão um importante instrumento de gestão pedagógica e as famílias poderão participar e acompanhar mais de perto a vida escolar de seus filhos.
Com ela, ficará claro para todo mundo quais são os elementos fundamentais que precisam ser ensinados nas Áreas de Conhecimento: na Matemática, nas Linguagens e nas Ciências da Natureza e Humanas. A Base é parte do Currículo e orienta a formulação do projeto Político-Pedagógico das escolas, permitindo maior articulação deste.
Sua proposta preliminar foi feita por uma comissão de 116 especialistas de 37 universidades de todas as partes do Brasil. Atualmente a BNCC está em sua segunda fase, a de consulta pública, para que em abril, a segunda versão do documento seja divulgada. A partir disto, serão realizados seminários em todos os estados, para que as secretarias estaduais e municipais deem suas últimas contribuições. Entre maio e junho, a comissão fará a última versão, que será apresentada, avaliada e votada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). O prazo para que ela esteja pronta é 24 de junho de 2016.