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Atualização da NR 1 amplia exigências sobre riscos psicossociais no trabalho

Mudanças entram em vigor em maio de 2026 enfatizando o papel da ergonomia nas empresas brasileiras

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Roberta Grendene em entrevista à TV Bom Dia
A arquiteta e ergonomista, Roberta Grendene, salienta que para a empresa, é muito mais vantajoso inv
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Vivian Mattos e TV Bom Dia

A partir de maio de 2026, entra em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR 1), considerada a base da legislação brasileira sobre saúde e segurança do trabalho. A mudança havia sido prevista inicialmente para 2025, mas teve a implementação prorrogada por um ano para que empresas e profissionais se preparassem para as novas exigências.

Com a atualização, ganha ainda mais relevância a NR 17, que trata da ergonomia no ambiente laboral e passa a ter papel central no mapeamento de riscos psicossociais nas organizações. Especialistas destacam que as mudanças exigem das empresas uma abordagem mais estruturada para identificar e gerenciar fatores que podem afetar o bem-estar dos trabalhadores.

A base das normas de segurança no trabalho

A NR 1 é conhecida como a “norma mãe” da segurança do trabalho por estabelecer as diretrizes gerais que orientam todas as demais normas regulamentadoras existentes no país.

Segundo a arquiteta e ergonomista Roberta Grendene, ela ocupa esse papel justamente por ser a primeira norma que organiza o sistema de proteção ao trabalhador. “Depois dela, vieram outras normas, que são relacionadas a aspectos mais específicos, por exemplo, a NR 17, que é a norma regulamentadora da ergonomia. A NR 32, por exemplo, é relacionada a hospitais, a NR 36 a frigoríficos, então os aspectos mais específicos são tratados em outras NRs”.

Atualização amplia foco nos riscos psicossociais

A principal mudança que ganha força com a atualização da norma é a obrigatoriedade de mapear e incluir os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas.

De acordo com Roberta, um dos principais desafios é esclarecer a diferença entre saúde mental e risco psicossocial, conceitos que muitas vezes são confundidos. Ela explica que saúde mental envolve questões clínicas do indivíduo, enquanto os riscos psicossociais estão diretamente ligados às condições de trabalho.

“A saúde mental é muito mais abrangente, ela aborda questões de ansiedade, de depressão, de burnout. São temas relacionados à saúde do indivíduo e analisados por profissionais da saúde. Já os fatores de riscos psicossociais são fatores ergonômicos, porque tratam do trabalho e são avaliados dentro da situação do ambiente de trabalho”.

Segundo a especialista, a ergonomia já analisava esse tipo de risco antes mesmo da atualização da NR 1, “porque estes riscos fazem parte do guarda-chuva que a ergonomia trata, que são cinco fatores de risco: os biomecânicos, os riscos de mobiliário e equipamentos, os riscos ambientais, os riscos organizacionais e os psicossociais”.

Mapeamento deve gerar plano de ação

Com a nova exigência, as empresas precisam identificar e classificar os riscos presentes no ambiente laboral, avaliando fatores como probabilidade de ocorrência, severidade e origem do problema. “Dito isso, então, o que muda com a atualização da NR 1 é que esses riscos psicossociais precisam ser mapeados e inseridos no PGR”, destaca Roberta.

Segundo ela, apenas registrar os riscos não é suficiente, pois “não adianta ter os riscos mapeados e engavetar o laudo. É preciso ter um plano de ação e colocar esse plano em prática, registrando as medidas adotadas para comprovar que providências estão sendo tomadas”.

Ergonomia ganha maior atenção nas empresas

Embora a ergonomia já tenha papel consolidado na legislação trabalhista, muitas organizações ainda concentram suas ações apenas em riscos físicos ou químicos. Na avaliação da ergonomista, isso pode levar a diagnósticos incompletos. “Não é que a ergonomia passe a ter um peso maior, ela já tem esse peso. O que acontece é que muitas empresas não dão à ergonomia a importância que ela realmente tem”, afirma.

Ela alerta ainda que avaliar apenas os riscos psicossociais pode gerar lacunas na análise, pois “muitos dos riscos psicossociais podem surgir nos outros quatro fatores de risco que a ergonomia aborda, como os biomecânicos, organizacionais, ambientais e de mobiliário e equipamentos”.

Falta de informação levou à prorrogação

A entrada em vigor da atualização da NR 1 foi adiada justamente para esclarecer dúvidas sobre a aplicação das novas exigências. Para ela, o problema não foi apenas falta de preparo das empresas, mas também desinformação entre profissionais da área. “Não havia ainda uma compreensão por parte, inclusive dos profissionais da saúde e da ergonomia, de como isso poderia ser abordado”.

Empresas podem ser autuadas mesmo sem acidentes

Um dos pontos que gera dúvidas entre empresários é se a ausência de acidentes de trabalho elimina o risco de autuação e, a especialista é bem clara e ressalta que “a não existência de acidentes do trabalho não quer dizer que a empresa não tenha riscos ergonômicos acontecendo ali dentro”.

Ela explica que a identificação desses riscos depende de análises específicas, pois “talvez só não tenha acontecido um acidente por sorte, porque só vai ser diagnosticado um risco ergonômico a partir de uma análise ergonômica”.

Caso uma auditoria identifique irregularidades, a empresa pode ser autuada mesmo sem registro de acidentes.

Fiscalizações podem ocorrer a qualquer momento

As inspeções podem ocorrer de diferentes formas, por sorteio aleatório, denúncias ou cruzamento de dados de afastamentos registrados em sistemas oficiais. Nesse cenário, manter documentos atualizados se torna fundamental, afinal, “não adianta mostrar uma avaliação ergonômica feita em 2015, por exemplo, sendo que estamos em 2026”, alerta a ergonomista.

Ela explica que documentos como o PGR e as análises ergonômicas devem ser constantemente revisados, pois “tanto o PGR como as análises ergonômicas são documentos vivos, porque as empresas não são estáticas. Pessoas entram, saem, setores mudam e layouts são modificados”.

Investimento em ergonomia pode reduzir custos

Além de evitar multas e autuações, a ergonomista destaca que a adequação às normas pode trazer ganhos de produtividade e redução de afastamentos. Roberta defende que a ergonomia deve ser vista como investimento, não apenas como obrigação legal. Para ela, “uma empresa não se faz sem trabalhadores, então investir em ergonomia é investir nessas pessoas que fazem a empresa crescer”, afirma.

Ela lembra ainda que o custo de afastamentos pode ser muito maior que o investimento em prevenção, pois “é muito mais vantajoso investir em ergonomia do que pagar o preço de uma indenização ou de uma multa”.

Pequenas empresas também precisam cumprir as normas

As exigências valem para empresas de todos os portes que possuem funcionários contratados pelo regime CLT, a única exceção é para quem atua como Microempreendedor Individual (MEI), sem empregados.

Para as demais organizações, a recomendação é iniciar o processo de adequação o quanto antes, pois como alerta a ergonomista, “a pergunta agora não é mais se a empresa vai ser visitada por um fiscal, a pergunta agora é quando ela vai ser visitada”.

Especialista recomenda foco no capital humano

Com a entrada das mudanças em vigor, a principal orientação para os empresários é buscar informação e apoio técnico especializado, pois para ela, cumprir as normas vai além da obrigação legal e representa uma mudança de cultura na gestão das organizações. “Meu conselho para as empresas, se é que eu posso chamar de conselho, é que se invista no capital humano, porque a mão de obra é cada vez mais escassa”, conclui Roberta.

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