A agricultura familiar não é apenas um modo de produção. Para muitos agricultores, ela é uma escolha de vida, um compromisso assumido com a natureza e com o futuro. Emanuel Hollenbach é um agricultor familiar que conta muito bem essa história e que carrega no próprio percurso pessoal o sentido mais profundo do que significa viver e produzir no campo.
A família de Emanuel sempre esteve intimamente ligada a agricultura familiar, essa relação vai além do sentido profissional visto que os pais atuavam profissionalmente como médicos e tinha a agricultura como um estilo de vida. Foi no município de São João da Ortiga, no interior do Rio Grande do Sul, que ele cresceu em um ambiente marcado pela relação direta com o campo, pela produção de alimentos sem o uso de agrotóxicos e pela convivência cotidiana com a natureza.
Ainda na infância, acompanhava o trabalho do pai com a criação de abelhas e com o cultivo de hortaliças de forma orgânica, em uma época em que esse modelo produtivo ainda era pouco difundido. Aos 18 anos, deixou a propriedade para cursar Agronomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Foi nesse período que passou a ter contato direto com dois universos distintos, o da agroecologia e o do agronegócio convencional.
Após a graduação, Emanuel ingressou profissionalmente no setor de sementes, atuando com culturas como soja, milho, trigo e canola. Trabalhou em diferentes regiões e chegou a viver experiências profissionais nos Estados Unidos. Apesar do avanço técnico e da inserção no mercado, o modelo produtivo baseado no uso intensivo de insumos químicos passou a gerar incômodo e frustração. A distância entre aquilo que produzia e os valores aprendidos na infância foi decisiva para a mudança de rumo.
O retorno ao campo ocorreu a partir da decisão de reconstruir a vida produtiva na propriedade da família. Junto com a esposa, eles deixaram a capital gaúcha e voltaram a São João da Urtiga para seguir o projeto. A escolha foi clara, investir na agricultura familiar com base em práticas agroecológicas, preservação ambiental e autonomia produtiva.
Hoje, Emanuel define esse retorno como um ponto de virada. “Eu não era feliz antes. Agora eu sou feliz porque eu vivo muito. A gente vive bem aqui com a família, com a dinâmica que criamos com outros agricultores e com a escolha produtiva de cuidar do meio ambiente”, relata. Para ele, o campo deixou de ser apenas espaço de trabalho e passou a ser território de pertencimento e qualidade de vida.
Produção e tecnologia de mãos dadas no campo
A principal atividade desenvolvida atualmente é a apicultura. A região onde está inserida a propriedade possui áreas de mata nativa e diversidade de flora, condições fundamentais para a produção de mel. Toda a produção é feita de forma orgânica, sem uso de insumos e defensivos, porém a certificação para o mel é de difícil obtenção visto que esse tipo de certificação exige um raio de três quilômetros livres de contaminação química, o que impõe limites à expansão, mas reforça o compromisso ambiental do sistema produtivo. Além do mel, a propriedade mantém práticas diversificadas, como hortas orgânicas, agroflorestas e integração com outros agricultores e entidades de pesquisa da região.
Apesar da forte conexão com práticas tradicionais, a inovação tecnológica ocupa espaço relevante na propriedade mostrando que elas são aliadas da agricultura familiar. Emanuel investiu em um sistema de monitoramento de colmeias, baseado em tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos. O equipamento utiliza sensores e balanças que medem peso e temperatura interna dos enxames, permitindo acompanhar o fluxo de néctar, períodos de floração e condições ideais de manejo.
“Eu comprei um sistema que monitora os enxames, me entregando um relatório completo da colmeia”, explica. Segundo ele, a tecnologia qualifica a produção, reduz perdas e amplia a capacidade de planejamento. O investimento teve um custo elevado, porém dinamizou e qualificou a produção sendo uma ferramenta fundamental para a expansão da agroindústria.
A tecnologia não é empregada só nas colmeias, a agroindústria investe em embalagens, rótulos e na criação de uma identidade que deixe uma marca aos consumidores. Não só os produtos se destacam pelo visual elaborado bem como os estandes nas feiras que chamam a atenção. As redes sociais têm sido aliadas e é Emanuel e sua esposa que mesmo com pouca experiência levam o dia a dia no campo aos seguidores e seguidoras espalhados pelo mundo.
“A imagem gera o desejo de consumo, então a gente tenta sempre fazer com que seja bonito e atraente para o consumidor sempre garantindo a qualidade do produto. A gente gosta bastante de divulgar os nossos, isso faz com que mais pessoas conheçam a rotina da propriedade e o processo de produção. As redes sociais são uma grande ferramenta, antigamente era restrito ao local, hoje pode se comercializar para todo o Brasil e pelo mundo.” destaca.
Comercialização, renda e permanência no campo
Emanuel defende que a agricultura familiar precisa ser reconhecida como estratégica para a segurança e a soberania alimentar, além de desempenhar papel central na preservação ambiental e no desenvolvimento das economias locais, bem como necessita de investimentos que incentivem a permanência no campo e garantam a atividade não só como uma alternativa, mas como uma realidade.
Para ele, a permanência de jovens no campo depende de condições objetivas, renda, qualidade de vida, acesso a mercados e políticas públicas de incentivo. Experiências bem-sucedidas precisam ser visibilizadas para inspirar novas gerações, destacando a importância de mostrar resultados positivos, eventos de sucesso e modelos que conciliem produção, sustentabilidade e dignidade.
As redes curtas de comercialização são uma ótima alternativa que ampliam a autonomia do agricultor familiar e reduzem a dependência de grandes empresas. As feiras, na sua opinião, cumprem papel estratégico nesse processo. “A feira é um tipo de dinâmica de comercialização, não é o único, nem toda a produção é vendida na feira. Mas é o que agrega valor ao teu produto, que consegue vender pelo teu preço em vez de vender mais barato para o mercado para ele revender.”, explica.
E foi por meio da FETRAF-RS que Emanuel alcançou novos espaços para levar seus produtos. Foi em 2023 que participou da sua primeira grande feira, o Pavilhão da Agricultura Familiar na Expointer. E todo o seu trabalho não passou despercebido, o produto foi premiado na categoria Mel, no Concurso de Agroindústrias, já em sua primeira participação e repetiu o feito, levando para casa mais um prêmio em 2025, reconhecimento que agregou valor à marca e ampliou a confiança dos consumidores. Para ele, premiações desse tipo ajudam a colocar a agricultura familiar em evidência e reforçam a qualidade dos produtos.
Em 2026, a Feira da Agricultura Familiar em Capão da Canoa abre o calendário de feiras regionais da Agroindústria de Mel Viva Flor, que participa da feira desde a sua primeira edição. Emanuel levará ao litoral gaúcho a qualidade de quem produz com amor, respeito ao meio ambiente e consciência!
Reconhecimento e perspectivas futuras
Atualmente o agricultor participa ativamente do Sintraf de São João da Urtiga, estando presente na direção do sindicato, onde encontrou uma forma de materializar sua luta pela ampliação da agricultura familiar. Para ele estar nesses espaços é fazer parte de uma luta coletiva por melhor condições no campo e obtenção de políticas públicas estruturantes.