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Saúde

O desafio de informar em meio ao avanço dos ultraprocessados

Professor Carlos Monteiro, defende que comunicadores produzam conteúdos mais precisos e questionem a influência da indústria na alimentação moderna

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O desafio de informar em meio ao avanço dos ultraprocessados
Por Vivian Mattos
Foto Banco de imagens/ Freepik

A comunicação e o jornalismo desempenham um papel crucial na orientação das escolhas alimentares do público, especialmente diante da profunda mudança no sistema alimentar nas últimas décadas. Este foi o tema central da aula “Informação nutricional, escolhas alimentares e saúde pública ” do curso de Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, da USP, que contou com a participação do professor Carlos Augusto Monteiro, médico, professor emérito da Faculdade de Saúde Pública da USP, e fundador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS).

Monteiro, conhecido por ter criado a classificação de alimentos Nova e o conceito de alimentos ultraprocessados (UPFs), destacou a importância de jornalistas e comunicadores produzirem “matérias melhores, mais acuradas e mais corretas” sobre o tema.

Criada em 2009, a classificação Nova é uma inovação conceitual da epidemiologia brasileira que organiza os alimentos conforme o grau de processamento, dividindo-os em quatro grupos: in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários processados, processados e ultraprocessados. 

 

Do processamento mínimo ao ultraprocessamento

Antes da Segunda Guerra Mundial, os grandes problemas de saúde ligados à alimentação eram a pobreza, geradora de desnutrição e carências nutricionais e a contaminação dos alimentos. A indústria, inicialmente, teve um papel positivo ao aplicar processamentos mínimos, como secagem, pasteurização, fermentação, que aumentavam a duração e a segurança dos alimentos.

Contudo, o avanço da ciência e tecnologia dos alimentos abriu caminho para os alimentos ultraprocessados. O ultraprocessamento consiste na criação de novos produtos de baixo custo que substituem os alimentos convencionais, usando ingredientes baratos, como soja, milho, trigo, açúcar e aditivos que os tornam "extremamente agradáveis" e até "irresistíveis".

Professor Monteiro destacou o modelo de negócios do ultraprocessamento: criar formulações altamente lucrativas que maximizam os ganhos por meio de ingredientes básicos muito baratos. Um exemplo é o macarrão instantâneo, que usa amido modificado, óleo de palma e aromatizantes para simular um prato, sendo mais conveniente e barato do que os ingredientes convencionais.

 

O custo para a saúde e a ciência

O consumo de ultraprocessados está em ascensão globalmente. Nos Estados Unidos, 60% das calorias vêm de UPFs; no Brasil, esse índice já atingiu 20%, partindo de 5%.

As evidências científicas acumuladas, que somam mais de mil estudos mundiais desde a proposição do conceito em 2009, mostram que dietas baseadas em UPFs não são adaptadas ao organismo humano e estão associadas ao aumento de diversas doenças crônicas. 

Em relação à depressão e doenças mentais, o efeito pode ser detectado em um prazo mais curto, possivelmente devido à inflamação crônica de baixa intensidade causada por alterações no microbioma intestinal.

 

O gigante na sala

A dificuldade em reverter esse quadro reside no poder econômico das transnacionais, sendo que dez empresas controlam o mercado global de ultraprocessados. A receita diária dessas empresas é astronômica, estimada em cerca de 1 bilhão de dólares.

Essas gigantes utilizam estratégias agressivas para evitar qualquer tipo de regulação e impedir que o consumidor tenha acesso à informação correta. 

 

O papel da comunicação

A comunicação é importante para que os consumidores se informem e pressionem as autoridades por políticas de regulação. É preciso que a informação vá além da recomendação genérica de consumir frutas e evitar sódio.

A imprensa deve atuar em disseminar o conteúdo das pesquisas de forma aprofundada, mostrando a relação entre UPFs e doenças e desmascarar a estratégia da indústria de semear dúvidas sob a fachada da ciência.

O professor também advertiu sobre a cobertura de temas como a obesidade, que muitas vezes foca na estética ou em "novidades" como as canetas emagrecedoras, termo que é, por si só, uma "jogada de marketing" que desvia a atenção dos riscos da medicação de longo prazo. É vital que a imprensa não culpabilize o indivíduo obeso, mas sim questione o sistema alimentar que o coloca em um ambiente desfavorável.

 

Guia Alimentar Brasileiro

O Guia Alimentar Brasileiro, desde 2014, é um modelo mundial ao recomendar a preferência por alimentos minimamente processados e evitar os ultraprocessados. Contudo, a efetividade das orientações depende de políticas públicas.

Apesar dos obstáculos e da resistência da indústria, que ameaça sair de países que tentam implementar regulações, o Professor Monteiro concluiu que a sociedade civil informada é a única que pode enfrentar as transnacionais.

 

Artigo produzido como conclusão do curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, da ECA-USP, inspirado na aula “Informação nutricional, escolhas alimentares e saúde pública”, ministrada pelo professor Carlos Monteiro, professor emérito da FSP/USP e pesquisador fundador do Nupens/USP, no dia 22 de setembro de 2025, das 15h30 às 17h30. As seguintes ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio: 1) Pinpoint, para transcrição da aula.

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