No calendário ambiental, o Dia Mundial pela Limpeza da Água tem um papel crucial: lembrar que a qualidade da água doce, essencial para a vida, está ameaçada por diversos fatores como poluição, uso excessivo, falta de saneamento básico e mudanças climáticas.
A data, criada por entidades ligadas à ONU, é dedicada à mobilização global por rios, lagos, lagoas, represas e mares, promovendo campanhas educativas, mutirões de limpeza e projetos de conscientização.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 2,2 bilhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso a água potável segura. No Brasil, embora 12% de toda a água doce do planeta esteja em território nacional, os desafios também são enormes: 35 milhões de brasileiros não contam com abastecimento regular e 100 milhões não têm coleta de esgoto, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2023). O resultado é um ciclo de degradação, onde o despejo de resíduos sem tratamento polui mananciais que poderiam abastecer a população.
A situação no Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul, estado marcado por rios de grande importância como o Guaíba, o Jacuí e o Uruguai, enfrenta uma realidade desafiadora. Um levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica apontou que em 2023 60% dos pontos de monitoramento em rios gaúchos apresentaram qualidade de água apenas regular ou ruim. O impacto é sentido especialmente nas áreas urbanas, onde o crescimento desordenado gera acúmulo de lixo, lançamento de esgoto in natura e assoreamento.
A tragédia climática de maio de 2024, quando enchentes históricas atingiram o estado, também escancarou a vulnerabilidade dos mananciais. Além da destruição causada, milhares de pontos de captação de água foram contaminados por resíduos industriais e urbanos, exigindo esforços emergenciais de purificação.
“As enchentes mostraram o quanto nossas águas estão frágeis. A poluição química e o descarte irregular se misturaram à força da natureza, resultando em um desafio sanitário e ambiental de grandes proporções”, destacou em relatório a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA-RS).
Erechim e a região do Alto Uruguai
No Norte gaúcho, municípios como Erechim e os que compõem a região do Alto Uruguai também lidam com a necessidade de preservar suas fontes hídricas.
O Rio Cravo, que corta parte da região, é frequentemente monitorado por órgãos ambientais. Apesar de abrigar iniciativas de recuperação de matas ciliares e projetos de conscientização, a pressão sobre os recursos hídricos permanece alta.
Exemplos de mobilização
No Rio Grande do Sul, iniciativas como o Projeto VerdeSinos, que atua na bacia do Rio dos Sinos, e o Guaíba Vive, em Porto Alegre, mostram que mutirões de limpeza, reflorestamento e monitoramento comunitário podem trazer resultados. Já em Erechim, campanhas como o Mutirão de Limpeza do Lago e ações escolares de coleta de resíduos têm sensibilizado moradores e jovens sobre o destino do lixo.
O problema dos resíduos sólidos é particularmente grave. Estima-se que, só em Erechim, cerca de 30 toneladas de lixo são coletadas diariamente, parte delas mal descartada em terrenos baldios, margens de córregos e áreas de preservação. Em nível estadual, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), apenas 3% do lixo reciclável é de fato reaproveitado, o que contribui para o acúmulo de resíduos em aterros e no meio ambiente.
O papel da sociedade
Especialistas apontam que a mudança começa em atitudes simples: não descartar lixo nas ruas, separar recicláveis, evitar o desperdício de água e apoiar projetos ambientais locais. Nas escolas, a educação ambiental tem sido trabalhada em disciplinas interdisciplinares, reforçando o papel da nova geração na transformação cultural.
Caminhos para o futuro
Com o novo Marco Legal do Saneamento, o Brasil tem a meta de universalizar o acesso à água potável e coleta de esgoto até 2033. No entanto, especialistas avaliam que o prazo é desafiador, sobretudo em regiões mais pobres. No Rio Grande do Sul, o processo de concessão de serviços de saneamento para a iniciativa privada está em curso, gerando debate entre defensores da eficiência e críticos do possível aumento de tarifas.
Em Erechim e região, a expectativa é de que projetos de recuperação de nascentes, como os conduzidos por associações de agricultores, e ações de conscientização escolar e comunitária ampliem o impacto positivo.
Um compromisso coletivo
O Dia Mundial pela Limpeza da Água reforça a ideia de que a responsabilidade é compartilhada: governos, empresas e cidadãos precisam atuar juntos. Se por um lado grandes projetos estruturais são urgentes, por outro, pequenas atitudes cotidianas podem evitar que resíduos cheguem a rios, córregos e lagos.
Coleta seletiva e reciclagem comunitária
- Separar corretamente o lixo doméstico evita que resíduos plásticos e metais cheguem até os cursos d’água.
- Em várias cidades do RS, cooperativas de catadores fazem parcerias com prefeituras. Erechim já conta com iniciativas nesse sentido, mas a adesão da comunidade ainda pode crescer.
- Programa de preservação de nascentes
- Agricultores e moradores de áreas rurais podem proteger nascentes com cercamento, reflorestamento de mata ciliar e uso de barraginhas para evitar erosão.
- Exemplo: o programa “Nascentes do Rio Uruguai”, realizado em alguns municípios do Norte gaúcho, já cercou e recuperou centenas de pontos de água.
- Uso consciente da água em casa
- Evitar desperdícios como lavar calçadas com mangueira ou deixar torneiras abertas é essencial.
- Pequenas ações reduzem a pressão sobre mananciais locais e sobre o sistema de tratamento de água.
- Captação de água da chuva
- Muitas comunidades já instalam cisternas para aproveitar água da chuva em atividades como irrigação de hortas e limpeza.
- O semiárido brasileiro tem o programa “Um Milhão de Cisternas”, que pode inspirar adaptações em outras regiões.
- Educação ambiental em escolas e comunidades
- Oficinas, palestras e atividades lúdicas envolvendo crianças e adolescentes criam uma cultura de respeito à água.
- Exemplo: em municípios da Serra Gaúcha, alunos participam de “monitoramento cidadão”, coletando amostras de rios e aprendendo a avaliar a qualidade da água.
- Hortas comunitárias sustentáveis
- Incentivar hortas urbanas e comunitárias com técnicas de irrigação eficiente (como gotejamento) ajuda a reduzir o consumo de água potável e ainda reforça a consciência ambiental.
- Denúncia e fiscalização comunitária
- Moradores podem acionar a prefeitura ou órgãos ambientais ao identificar despejo irregular de lixo, esgoto ou agrotóxicos em cursos d’água.
- Canais como o Fala Cidadão (em Erechim) e o Disque Denúncia da Fepam são meios práticos de participação popular.
Desassoreamento do Rio Dourado
Com o início das obras no Rio Dourado, Erechim deu mais um passo na prevenção de desastres e na proteção das comunidades ribeirinhas, reforçando a importância da integração entre Estado e Município em ações estruturantes e de segurança.
O município foi um dos 23 municípios gaúchos contemplados pelo programa Desassorear RS, iniciativa do Governo do Estado que visa garantir melhor vazão dos cursos d’água e reduzir o risco de alagamentos em períodos de chuvas intensas. O contrato com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur) prevê o desassoreamento em trechos do Rio Dourado, que somam mais de 2.600 metros e foram fortemente afetados pelas chuvas recentes. O projeto foi cadastrado pela Secretaria Municipal de Planejamento, Mobilidade Urbana e Segurança Pública, em conjunto com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, e segue o modelo já realizado anteriormente no Rio Tigre, também em Erechim.
“A parceria com o Governo do Estado é fundamental para a proteção da população é muito importante essa união de esforços, porque temos muitos locais ao longo do Rio Dourado que sofreram inundações, inclusive residências, nos eventos climáticos mais recentes. Sempre digo que prevenção é o melhor remédio. Prevenir é o investimento mais seguro que podemos fazer, e agora estamos realizando o que precisa ser feito para evitar novas inundações”, destaca o prefeito Paulo Polis
O secretário William Racoski reforça que o trabalho atende diretamente às comunidades. “Essas ações trazem tranquilidade para as famílias que vivem próximas ao rio. Além de recuperar a capacidade de vazão, o desassoreamento diminui os riscos de prejuízos e perdas que tantos moradores já enfrentaram em enchentes anteriores”, afirmou.
Programa Desassorear RS
O Desassorear RS é uma iniciativa da Sedur em parceria com a Secretaria de Logística e Transportes. Cabe às prefeituras indicar os trechos prioritários, garantindo que as intervenções contemplem pontos vulneráveis, onde o risco de transbordamento é maior.