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Os impactos emocionais do capacitismo na vida de pessoas com deficiências

Psicóloga da ADAU destaca como o preconceito afeta a autoestima e a saúde mental dos indivíduos e seus familiares

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Reduzir o capacitismo não é apenas uma questão de respeito individual, é uma responsabilidade coleti
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo Pessoal/Marina Mósena Capeleti

A Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, que acontece de 21 a 28 de agosto existe para chamar a atenção da população a respeito de diversas problemáticas enfrentadas por esse público. E uma das grandes questões são os efeitos emocionais do capacitismo, preconceito baseado na ideia de que pessoas com deficiência são inferiores, tanto para quem vive com a deficiência quanto para suas famílias.

Danos invisíveis

O capacitismo e o preconceito geram consequências profundas na saúde emocional das pessoas com deficiência, afetando sua autoestima, identidade e qualidade de vida.

“São muitas vezes danos invisíveis que acontecem no silêncio da exclusão, na invisibilidade e na falta de oportunidades reais de participação”, afirma a psicóloga Marina Mósena Capeleti, da Associação dos Deficientes Físicos do Alto Uruguai (ADAU).

Ela explica que quando a pessoa com deficiência é tratada como incapaz ou dependente, pode internalizar essa visão negativa e começar a duvidar do próprio valor, mesmo tendo potencial para muito mais.

Isolamento, medo e sofrimento psicológico

A falta de acessibilidade e as barreiras atitudinais, como comentários preconceituosos e falta de representatividade, também afastam essas pessoas de espaços sociais, educativos e profissionais.

“A experiência contínua de exclusão, piadas capacitistas, invisibilidade e falta de representatividade, pode gerar sofrimento psíquico, tristeza profunda e quadros de ansiedade ou depressão”, pontua Marina.

Segundo ela, o capacitismo afeta diretamente a forma como a pessoa se percebe “em vez de construir uma identidade baseada em suas habilidades, desejos e valores, ela pode se ver apenas a partir das limitações impostas pelos outros”.

A dor silenciosa das famílias

O preconceito não afeta apenas quem tem deficiência. A família também sofre impactos emocionais, especialmente quando enfrenta o olhar de julgamento da sociedade.

“Por conta do estigma ou da falta de acessibilidade e compreensão, muitas famílias acabam se afastando de espaços sociais, como escolas, festas, encontros, viagens, o que provoca solidão, exclusão e desgaste emocional”, lembra Marina.

Além disso, a sobrecarga emocional, a burocracia e o medo constante sobre o futuro dos filhos geram estresse e ansiedade. “Muitas famílias sentem que estão constantemente lutando contra um sistema que não os acolhe”.

Para a psicóloga, o acolhimento psicológico e a criação de redes de apoio são essenciais: “É fundamental oferecer acolhimento psicológico às famílias, promover redes de apoio, grupos de escuta, políticas públicas efetivas e, acima de tudo, combater o capacitismo com empatia e muita informação”.

Como identificar sinais de sofrimento emocional?

O sofrimento causado pelo capacitismo pode se manifestar de diferentes formas, especialmente em pessoas com deficiência intelectual e múltipla, que podem ter modos únicos de comunicação.

“Precisamos ficar atentos ao isolamento repentino, irritabilidade frequente, crises de choro sem causa aparente, agressividade, autolesões ou comportamentos regressivos, perda de interesse, mudanças no sono e no apetite, além de queixas físicas sem causa médica definida”, orienta Marina.

Ela reforça a importância da escuta empática e do acolhimento. “Converse com empatia e sem julgamentos, respeitando a forma de comunicação da pessoa. É de extrema importância validar os sentimentos”.

Estratégias para fortalecer a resiliência

A psicologia tem um papel fundamental no fortalecimento emocional de pessoas com deficiência diante de situações de preconceito. “Não se trata de aceitar o preconceito, mas de desenvolver ferramentas internas e externas para reagir com equilíbrio e proteção emocional”, explica Marina.

Entre as estratégias, estão o estímulo à autonomia, a valorização das conquistas, o reconhecimento das qualidades e a participação em ambientes acolhedores. “Permitir que a pessoa expresse tristeza, raiva ou frustração quando for vítima de preconceito é essencial. Isso ensina a nomear sentimentos e encontrar formas saudáveis de expressá-los”.

O papel da família no enfrentamento do preconceito

Quando a pessoa com deficiência sofre preconceito, o apoio da família é crucial. Ouvir com empatia, validar a dor e mostrar que ela não é culpada pela discriminação são passos fundamentais.

“A família precisa reconhecer o que aconteceu, acolher emocionalmente, ensinar formas seguras de reagir e, quando necessário, agir legalmente. Registrar casos em escolas, locais públicos ou de trabalho é uma forma de proteção e também de combate ao capacitismo”, reforça Marina.

Ela também indica o acompanhamento psicológico, tanto para a pessoa com deficiência quanto para seus familiares, como ferramenta de fortalecimento e cuidado com a saúde mental.

Sociedade inclusiva protege a saúde mental

A responsabilidade de combater o capacitismo não é apenas individual, mas coletiva. Escolas, empresas, políticas públicas, mídia e espaços culturais têm papel essencial nessa mudança. “Acredito que para reduzir o capacitismo precisamos reconhecer e combater atitudes discriminatórias, mudar a forma de enxergar a deficiência e dar voz às pessoas com deficiência. Elas precisam ser ouvidas, representadas, contratadas, consultadas e reconhecidas”, afirma a psicóloga.

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