Começa nesta quinta-feira, dia 21, a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, que segue até o dia 28. Instituída pela Lei nº 13.585/2017, a iniciativa visa promover a conscientização sobre os direitos das pessoas com deficiência, incentivar sua inclusão social e combater o preconceito e a discriminação. Apesar de ter ganhado força com a legislação, a Semana já é comemorada desde 1963 pelas APAEs (Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais), que ao longo das décadas vêm impulsionando ações de mobilização em todo o país.
Neste contexto, um dos temas centrais é a construção da autonomia da pessoa com deficiência desde a infância. Por isso, a psicóloga Marina Mósena Capeleti, da Associação dos Deficientes Físicos do Alto Uruguai (ADAU), reforça a importância do papel das famílias neste processo.
Autonomia é um direito e começa em casa
Segundo Marina, promover a autonomia da pessoa com deficiência é uma tarefa que se inicia desde os primeiros anos de vida e envolve pequenas atitudes cotidianas.
“A autonomia é um direito e uma construção contínua, que começa na infância, e os pais e familiares têm um papel fundamental nesse processo, para que ela se reconheça como sujeito ativo, capaz de tomar decisões, expressar vontades e participar da vida em sociedade”, afirma.
Entre os estímulos recomendados, a psicóloga destaca permitir que a criança escolha a roupa que vai vestir, guardar seus objetos, participar do preparo das refeições, ou realizar pequenas tarefas conforme sua idade e capacidade.
“Esses momentos são oportunidades valiosas de aprendizado e fortalecimento da autoestima.”
Medo do futuro e superproteção
Preparar um filho com deficiência para a vida adulta não é um caminho simples. Marina aponta que as famílias enfrentam desafios emocionais profundos, especialmente relacionados à insegurança sobre o futuro.
“Preparar um filho com deficiência para uma vida mais independente é um caminho cheio de amor, mas também de muitos desafios”, destaca.
O medo sobre quem cuidará da pessoa com deficiência na ausência dos pais é uma das maiores angústias relatadas.
Além disso, a superproteção, apesar de compreensível, pode se tornar um obstáculo quando impede o desenvolvimento da autonomia. “A superproteção, embora compreensível, pode ser um obstáculo quando se transforma em medo constante de que a pessoa não consiga lidar com o mundo”.
Marina também denuncia o capacitismo estrutural e a falta de inclusão real na sociedade, o que torna ainda mais difícil preparar alguém para um mundo que, muitas vezes, não está preparado para acolher.
Autonomia fortalece autoestima e saúde emocional
A construção da autonomia traz impactos diretos na autoestima e no bem-estar da pessoa com deficiência. A psicóloga relata experiências positivas em seu trabalho com esse público, pois “quando ela é estimulada a participar de decisões, a realizar pequenas tarefas e expressar suas vontades, ela passa a se ver como uma pessoa capaz e valorizada”.
Essa autonomia contribui para a autoconfiança, reduz a dependência e favorece relações mais equilibradas com a família e a comunidade, afinal “ela se sente mais respeitada, incluída e mais feliz e isso tem um impacto direto em sua saúde emocional e na forma como se enxerga no mundo”, pontua Marina.
Trabalho e lazer
Atividades profissionais e de lazer são essenciais para o desenvolvimento da identidade adulta da pessoa com deficiência. A ADAU, por exemplo, promove a inclusão no mercado de trabalho por meio de projetos específicos.
“O trabalho permite que ela se sinta útil, valorizada e parte do coletivo, contribuindo com suas habilidades e sendo reconhecida por isso”, ressalta.
Já no campo do lazer, experiências com esportes, artes, música e convivência social permitem que a pessoa desenvolva talentos, crie vínculos afetivos e construa uma imagem de si mesma além da condição de deficiência.
“Tudo isso é essencial para construir uma identidade mais ampla do que apenas “alguém que precisa de cuidados””.
Profissionais de saúde e educação
Marina destaca o papel essencial de educadores e profissionais de saúde no apoio à transição para a vida adulta. Ela defende uma atuação integrada, que respeite as singularidades de cada pessoa.
“Devem oferecer um ensino adaptado, acessível e focado não apenas no conteúdo escolar, mas também no desenvolvimento de habilidades para a vida”.
Isso inclui comunicação, resolução de problemas, autocuidado, socialização e, sobretudo, o envolvimento da família nesse processo.
“Ressalto aqui a importância de atuar em parceria com a família, ouvindo suas angústias e fortalecendo sua confiança no processo”.
A psicóloga salienta ainda que o apoio deve começar cedo, com planejamento e metas progressivas, contemplando também temas como sexualidade, direitos e convivência social.
Participação ativa e digna é um direito de todos
Por fim, a psicóloga reforça que garantir a participação ativa da pessoa com deficiência significa assegurar recursos e oportunidades reais de inclusão em todas as esferas da sociedade.
“Precisamos oferecer recursos e apoios adequados, como tecnologias assistivas, comunicação alternativa, acessibilidade física e linguagem simples que realmente sejam efetivas”.
Ela conclui que a luta contra estereótipos e visões limitadas da deficiência é contínua e necessária para promover uma inclusão de fato.