Nesta quinta, dia 7, é comemorado o Dia Nacional da Lei Maria da Penha. A data marca a sanção de uma das legislações mais importantes no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher, em vigor desde 2006. Em 2025, a lei nº 11.340/2006 completa 19 anos e segue sendo um instrumento essencial de proteção e transformação social.
Reforçar compromissos e relembrar conquistas
A criação de um dia nacional em homenagem à Lei Maria da Penha vai muito além de uma formalidade simbólica, trata-se do reconhecimento da luta histórica das mulheres por dignidade e segurança.
“Como coordenadora de política para mulheres de Erechim, vejo na data uma oportunidade de reforçar o compromisso das instituições e da sociedade civil com a proteção e o cuidado com as mulheres em situação de violência”, destaca Joana Mattia, advogada, doutora em Direito e Coordenadora de Políticas Públicas para Mulheres em Erechim.
Além da homenagem, a data serve como ferramenta estratégica para dar visibilidade à causa, promover debates e articular políticas públicas eficazes.
Fortalecendo o debate e rompendo silêncios
O Dia Nacional da Lei Maria da Penha é um ponto de partida para ampliar o debate sobre a violência de gênero. Joana lembra que, muitas vezes, essa violência ocorre de forma silenciosa, dentro de lares e relações onde predomina o medo e a dependência emocional ou financeira.
Em Erechim, ações como a Semana Municipal de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar e o projeto “Ausências que Gritam” vêm se destacando.
“Esses momentos contribuem para romper o silêncio, ampliar o acesso à informação, e principalmente, mobilizar a sociedade para a construção de uma cultura de não violência”.
Agosto Lilás
Em sintonia com o movimento nacional do Agosto Lilás, o município de Erechim tem se destacado com uma programação intensa que inclui exposições, rodas de conversa, ações públicas e formações para a rede de atendimento.
“A prevenção passa pela educação, pela escuta ativa e pelo compromisso coletivo. Quando cada espaço se envolve, avançamos na construção de uma sociedade mais justa, segura e igualitária para todas as mulheres”, afirma Joana.
O avanço da Lei Maria da Penha
A legislação é reconhecida mundialmente por sua abordagem integral. Vai muito além do aspecto punitivo, abrangendo prevenção, proteção, assistência e repressão.
Entre os avanços, Joana destaca as medidas protetivas de urgência e a consolidação de redes de atendimento especializadas.
“Em Erechim, esse avanço se materializa na atuação do Centro de Referência em Atendimento à Mulher (CRAM) e da rede de proteção e enfrentamento, que têm se fortalecido a partir da atuação articulada entre os serviços”.
Desafios atuais e pontos de aprimoramento
Apesar dos progressos, os desafios permanecem. Há uma carência de serviços especializados em municípios menores e dificuldades para garantir acolhimento qualificado e sem revitimização.
“A cultura machista ainda presente na sociedade dificulta a compreensão da gravidade da violência de gênero. Diariamente a gente vê o impacto que o despreparo ou a desinformação podem causar”, alerta Joana.
Ela também destaca a importância de aperfeiçoar a legislação em relação à violência psicológica e moral, além de garantir investimentos permanentes e estrutura adequada para a rede de atendimento.
Erechim tem rede estruturada, mas com demandas crescentes
O município tem mostrado avanços expressivos no enfrentamento à violência contra a mulher. O CRAM, mantido com recursos próprios, é um exemplo de política pública municipal efetiva. Além dele, Erechim conta com Delegacia da Mulher, Patrulha Maria da Penha, Defensoria Pública, Ministério Público e Judiciário atuando de forma integrada.
“Apesar dos avanços, os desafios ainda são muitos, principalmente no que diz respeito à prevenção, à continuidade das políticas públicas e à ampliação dos serviços especializados para toda a região”, ressalta Joana.
Acesso, informação e confiança das mulheres em Erechim
A atuação da rede tem gerado mais confiança entre as mulheres, mas ainda há obstáculos importantes.
Pesquisas mostram que apenas duas em cada dez mulheres conhecem a Lei Maria da Penha. Esse desconhecimento impacta diretamente nas denúncias e no acesso à rede de proteção. “Ainda é grande o desconhecimento sobre a Lei Maria da Penha e os direitos que ela assegura”, aponta a advogada. “O medo, a dependência econômica, o isolamento social e a vergonha se somam à falta de informação, dificultando o rompimento do ciclo de violência”.
Campanhas como o Agosto Lilás têm contribuído para mudar essa realidade.
Parcerias e iniciativas locais que fazem a diferença
Erechim investe em políticas públicas articuladas, com destaque para ações da Coordenadoria da Mulher, Secretaria de Assistência Social e parcerias com universidades, coletivos e ONGs locais.
A Semana Municipal de Enfrentamento à Violência e os cursos formativos que serão lançados no segundo semestre de 2025 são exemplos concretos de investimento em capacitação e empregabilidade de mulheres em situação de vulnerabilidade.
Prevenção
A prevenção é uma prioridade, e embora nem sempre reflita na redução imediata dos números, tem trazido avanços importantes em conscientização, diálogo e acolhimento.
“A prevenção não depende apenas da denúncia: ela se dá também quando rompemos com os silêncios, com as violências naturalizadas e com a responsabilização da vítima”, afirma Joana.
Projetos com a participação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM) e entidades locais têm ampliado o alcance das ações.
Educação, empresas e instituições no combate à violência
As escolas, empresas e instituições têm papel fundamental. Joana defende a inclusão do debate sobre igualdade de gênero e direitos humanos desde a educação básica até as ações corporativas.
“A prevenção não é responsabilidade exclusiva do poder público. Ela exige o compromisso de toda a sociedade, incluindo os setores educacional, empresarial e comunitário”.
Vivência profissional
Joana Mattia, que atua diretamente com os casos através do CRAM e da Coordenadoria da Mulher, relata que trabalhar com violência doméstica é um desafio diário, mas também uma missão transformadora.
“Não se trata apenas de aplicar a lei, trata-se de compreender as múltiplas dimensões da violência e atuar de forma intersetorial e empática. É uma atuação que exige firmeza técnica, mas também sensibilidade”.
Joana reforça para as mulheres que elas não estão sozinhas. “A violência doméstica nunca é culpa da vítima e, a denúncia, embora muitas vezes desafiadora, pode ser o primeiro passo para a reconstrução de uma vida com dignidade e segurança”.
Ela orienta buscar ajuda por meio do CRAM pelo WhatsApp: (54) 99139-1480, CREAS, delegacia da mulher ou pelo número 180.
Justiça e sensibilidade
Por fim, Joana reconhece avanços no Judiciário, especialmente com a criação de juizados especializados e concessão ágil de medidas protetivas, mas ressalta a necessidade de mais investimentos e sensibilidade institucional.
“A justiça de gênero não pode ser apenas uma promessa, precisa ser uma prática cotidiana”.
O trabalho desenvolvido pela rede local é a prova de que políticas públicas eficazes, informação acessível e escuta empática podem transformar realidades.
Ainda há muito a ser feito. Mas, como lembra a própria advogada, “cada passo é importante, mesmo que pareça pequeno. E reforço que não há vergonha em pedir ajuda”.