“Nasci na década de 1970. Não tenho, portanto, a memória de ver suspeitas receitas de bolo publicadas no jornal em meio ao noticiário político. As desventuras de “Julinho da Adelaide”, obscuro compositor de “Apesar de Você”, somente me foram contadas anos depois, quando a história já tinha o status de lenda, o mesmo valendo para os agentes do DOPS que invadiram um teatro querendo prender o perigoso e subversivo Sófocles, autor da peça em cartaz.
Ainda assim, lembro de discos que vinham com o aviso de que determinadas canções tinham sua execução pública e radiodifusão proibidas pela censura, isso quando não vinham com as faixas inutilizadas por arranhões propositalmente produzidos para denunciar a violência cometida contra os artistas (alguém lembra do disco de estreia da Blitz?). Possuo também uma vaga recordação de ver pela TV ridículas bolinhas pretas tentando ocultar detalhes de uma cena mais intensa de “A Laranja Mecânica”.
A existência da censura, desta forma, não foi algo que me tenha passado despercebido, e o estudo da História, tanto na escola quanto na universidade, foi a ferramenta adequada para compreender como esta nefanda instituição era apenas parte de algo maior: um regime antidemocrático, de cunho militar mas com apoio de parcelas da sociedade civil, que limitava nossa possibilidade de criação e expressão política e cultural.
Em outras palavras, era mais um dos subprodutos do golpe de 1964. É certo que a censura gerida pelos militares não era nenhuma novidade em terras brasílicas, como tão bem nos prova o período do Estado Novo. Infelizmente, se formos olhar no longo prazo, os períodos nos quais podemos pensar e falar livremente ainda conformam a menor parte de nossa História.
Mas é importante também que não nos atrapalhemos com o conceito. Por um lado, a liberdade de expressão e criação conquistada com o fim da censura não pode ser confundida com a ausência de responsabilidade pelos discursos que produzimos. A liberdade para emitir opiniões e ideias, inclusive nas redes sociais, não pode ser uma trincheira para proteger preconceitos, desinformação, negacionismo e discursos de ódio.
A liberdade de expressão não pode ser confundida com uma ferramenta para perseguir professores, censurando-os justamente por discordarmos de suas abordagens, ainda que nossa formação passe a quilômetros de suas áreas de atuação, ou para vetarmos livros ou outras obras de arte por acreditarmos que elas nos atinjam em alguma convicção pessoal. Tais ações nada tem a ver com a defesa da liberdade, sendo antes uma fantasia que serve apenas aos que, saudosos do autoritarismo, vestem o cosplay mal costurado de censores e censoras.
Não precisamos voltar aos tempos da ditadura, assim como não precisamos da censura ou de censores. Precisamos, sim, é de democracia. De uma democracia cada vez mais forte, saudável e soberana”.