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Mulher negra ocupa espaço de decisão na OAB em Erechim

Com 22 anos de carreira e história marcada por militância, advogada assume papel de liderança em instituição

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“Se desafiem, se vejam. O lugar é nosso. Fomos silenciadas por muito tempo, agora vamos falar”, conc
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo TV Bom Dia

A posse da nova diretoria da OAB de Erechim, realizada no último dia 9 de julho, teve um significado muito especial para a advogada Luísa Fernanda dos Santos que, com 22 anos de atuação profissional, foi empossada como conselheira suplente para o triênio 2025-2027. Sua presença na diretoria não é apenas simbólica, representa um movimento crescente de ocupação de espaços de poder por mulheres negras em instituições historicamente elitizadas.

A trajetória de Luísa até esse momento é marcada por conquistas pessoais e profissionais, mas também por um compromisso com justiça social, inclusão e representatividade.

Um marco pessoal e coletivo

Luísa recorda com emoção o início de sua jornada: “Sou formada desde o dia 2 de agosto de 2003. O dia da minha formatura foi um dos mais emocionantes da minha vida. Fui a primeira da minha família a concluir um curso superior. Foi uma conquista imensa, não só minha, mas de toda a minha família, dos meus avós, pais, primos, irmã”. Para ela, o Direito sempre esteve associado à justiça social e, mesmo com os obstáculos enfrentados por uma mulher negra em um ambiente majoritariamente branco e masculino, sua motivação nunca esmoreceu.

O caminho até a diretoria

A chegada à diretoria da OAB não foi por acaso. Ao longo dos anos, Luísa se aproximou da entidade por meio da militância antirracista e da defesa dos direitos humanos. “Recebi o convite para presidir a Comissão da Igualdade Racial na gestão passada. Foi aí que comecei a me integrar mais ao movimento institucional e percebi a importância da nossa atuação dentro da entidade de classe”.

Essa participação ativa culminou em sua candidatura como conselheira suplente. “Me coloquei à disposição para concorrer. Eu precisava estar ali. A representatividade importa, e muito. Cresci aqui em Erechim e nunca me vi representada na integralidade enquanto mulher negra nesses espaços”, afirma.

O peso da representatividade

Em uma cidade com aproximadamente 80% da população autodeclarada branca, a presença de uma mulher negra em um cargo de liderança dentro da OAB carrega forte carga simbólica. “Historicamente, cargos de decisão são ocupados por um tipo específico de pessoa: homem, branco, classe privilegiada. Quando não nos vemos ali, a mensagem é clara: esse lugar não é para você. Estar ali muda tudo”.

Para Luísa, ocupar esse espaço vai além de uma conquista individual. É sobre provocar mudanças estruturais. “Não estamos nesses espaços para manter as coisas como estão. Estamos para transformar. A diversidade importa porque ela amplia o olhar sobre os problemas. Um olhar que passou pelo racismo, pelo machismo, pela exclusão, enxerga questões que outros não veem”.

Inspiração e abertura de caminhos

A advogada acredita que sua posse pode servir como inspiração para outras jovens negras. “Assim como eu me inspirei em mulheres que vieram antes de mim, hoje eu posso ser essa inspiração para outras. Eu não quero ser a exceção. Ainda me incomoda ser a única. Quero abrir um portão inteiro, que por muito tempo esteve trancado. Eu quero ver mais mulheres negras sentadas à mesa, com microfone na mão”.

Essa ampliação de presença não se restringe ao Direito, mas deve alcançar todas as áreas. “Ainda vemos as pessoas negras apenas nas periferias, não nos centros de decisão. É preciso observar: quem está sentado à mesa e quem está servindo? Isso diz muito sobre os lugares que ainda não nos são acessíveis”.

Primeiros passos e atuação na Comissão da Igualdade Racial

Desde janeiro, quando a nova diretoria começou a atuar, Luísa tem vivido um período intenso de aprendizado e integração. Além da função de conselheira suplente, ela também assumiu a vice-presidência da Comissão da Igualdade Racial. “Essa nova diretoria é muito integrada. Temos reuniões quase semanais, e participamos ativamente de eventos como a entrega de carteiras para os novos advogados”.

Um ponto de destaque é a proposta de letramento racial dentro da OAB: “O racismo não é um problema só das pessoas negras, é um problema da coletividade. Por isso, buscamos envolver todos os colegas, independente da cor da pele”.

Expectativas para o triênio e pautas prioritárias

Com um olhar voltado para o futuro, Luísa destaca os objetivos para o triênio: “Queremos mostrar que as mulheres negras chegaram e vão continuar ocupando esses espaços. Mas também temos um compromisso com pautas maiores: combate à violência de gênero, desigualdade social, racismo institucional. A OAB tem um compromisso com a Constituição e com os direitos humanos, e isso só se fortalece com mais diversidade”.

Uma data de resistência e celebração

A posse de Luísa aconteceu às vésperas do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. A data, segundo ela, é símbolo de memória, resistência e celebração. “Muitas mulheres negras foram invisibilizadas na história do Brasil. Essa data diz: estamos aqui e vamos continuar. A frase da Angela Davis resume bem: ‘Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela’”.

Transformando estruturas através do protagonismo

O sistema jurídico, segundo Luísa, ainda carrega práticas racistas e revitimizadoras. “Ainda somos minoria em cargos de decisão, como juízas, promotoras, conselheiras. A mulher negra tem muito a contribuir com conhecimento técnico, político, teórico. Ela é elo entre o cidadão e a justiça. E ela vê aquilo que muitas vezes ninguém quer ver: a desigualdade, o racismo, a violência”.

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