No conto “O espelho”, Machado de Assis provoca reflexões sobre o conceito de individualidade, a percepção do ser sobre si mesmo e as influências sociais na construção do “eu”. Como um espelho, é a partir da imagem do “outro” que o sujeito passa a se identificar como indivíduo, assim, a identidade é construída também a partir do olhar e da interação com os demais.
O sociólogo e professor da Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Erechim, Luís Fernando Santos Corrêa da Silva explica que, a noção de indivíduo como se entende atualmente é algo recente na história, remonta ao início do período moderno. Tal momento, marcado por revoluções de natureza política, econômica e científica, identifica o caráter individual do ser humano, que passa a ser compreendido como alguém sistematicamente separado da coletividade.
Conforme aponta o professor, com o aumento médio das liberdades individuais nos últimos dois séculos, mesmo em um cenário de crescimento das desigualdades, a tentativa de realização de desejos e aspirações pessoais passam a estruturar o cotidiano: a procura por um trabalho recompensador, qualidade de vida e a tentativa de preencher a vida de significados de ordem individual.
“É esse processo que produz como efeito colateral o individualismo, visto que ele se manifesta como uma tentativa de imposição de uma individualidade em detrimento das demais. Ou seja, quanto mais se fortalece a necessidade da realização dos desejos individuais, mais difícil é a realização desses mesmos desejos, visto que muitos deles envolvem aquilo que é partilhado por todos e, por isso, geram conflitos”, indica Luís Fernando.
Para a doutora em Psicologia, Fernanda Grendene, as causas de comportamentos individualistas e de isolamento social podem ser relacionadas também às redes sociais e às novas tecnologias. “O que antes os seres humanos aprendiam na interrelação com o outro, agora se dá pela internet. Quase tudo ilusoriamente pode ser resolvido com o intermédio das redes sociais, o que causa uma falsa ilusão de que o indivíduo se basta, o que leva então ao individualismo e isolamento social”, identifica.
Distantes de tudo, próximos das consequências da solidão
Assim como reconhece Grendene, comportamentos relacionados ao isolamento e à individualidade podem provocar ansiedade nos indivíduos, além de dificuldades nas relações interpessoais, como o trabalho em equipe, por exemplo. Desse modo, as habilidades socioemocionais acabam ficando prejudicadas.
“Observamos enquanto profissionais da saúde mental que os casos de ansiedade e quadros depressivos vem aumentando entre crianças e adolescentes, o que pode estar relacionado as questões de isolamento social e individualismo. Além disso, atualmente vivemos em uma cultura de muita pressão social, pelo perfeccionismo que se alastra pelas mídias sociais”, analisa Fernanda.
Apesar dessa hiper conexão digital, relatos de solidão emocional têm se tornado cada vez mais comuns. Criou-se uma ilusão de que popularidade nas redes sociais é sinônimo de afeto ou aceitação verdadeira, porém, a interação online não substitui vínculos humanos autênticos e pode até mascarar sentimentos de vazio e introspecção.
“A pressão por reconhecimento, seja estético, intelectual ou moral, provoca uma necessidade de aceitação sem precedentes, fonte de uma profunda frustração quando não é atingida. Como consequência disso temos uma sociedade que apresenta dificuldade em reconhecer e lidar com as diferenças, visto que o diálogo se torna mais promotor de conflitos do que de entendimento”, destaca o professor Luís Fernando.
Ainda de acordo com o sociólogo, o isolamento social pode ser explicado como uma tentativa de fuga dos conflitos coletivos e de afirmação da individualidade. Embora nem todo o isolamento possa ser resumido à fuga do convívio social, o período atual é marcado pelo sentimento generalizado de não-reconhecimento e, com frequência, as pessoas se sentem menos valorizadas do que deveriam.
O provérbio xhosa, da África do Sul, "Umuntu ngumuntu ngabantu”, é de inspiração Ubuntu, uma filosofia que se opõe ao narcisismo e ao individualismo, e na tradução livre significa "uma pessoa é uma pessoa por causa das outras pessoas”. Conceito moral que pode ser uma potente alternativa para compreender a importância de uma convivência social altruísta.