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Agricultor e indígenas convivem em harmonia em terra ocupada

Exemplos de paz

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Foto: Jéssica Scartazini
Por Jéssica Scartazzini - jessica@jornalbomdia.com.br

Levando em consideração o processo de colonização é possível dizer que a luta dos índios pela ocupação de um espaço é constante. Incomum, é ver o bom relacionamento entre agricultores e índios em terras ocupadas em processo de desapropriação. Apesar dos conflitos, as exceções existem. No interior de Erebango, o agricultor e empresário João Zanoelo, vive em harmonia com os mais de 80 índios que, há 12 anos, ocuparam suas terras. "Nós temos uma relação muito boa, de respeito", disse Zanoelo ao jornal Bom Dia.

O fato insusitado ocorre em Mato Preto, comunidade onde estão as famílias da tribo Guarani, comandadas pelo cacique Joel Pereira. De acordo com o índigena, as mais de 17 famílias sempre tiveram bom relacionamento com o empresário. "Ele sabe como as coisas funcionam e como se dá a demarcação das terras. Nossa relação é muito boa, ele se preocupa conosco e sempre que precisa de alguma coisa ele nos liga".  Para Joel, o que a comunidade mais sente falta é poder manter essa boa relação entre os demais índios e agricultores. "A gente não está aqui para brigar ou expulsar as pessoas de suas terras. Estamos aqui para lutar por um direito que é nosso, tanto que estamos nesta briga com o governo federal para conseguir ter um recurso a fim de que os agricultores não saiam sem nada e sejam indenizados. Não queremos que o agricultor saia sem nada, ou seja, que seja expulsos das terras. Não pretendemos fazer isso, mas infelizmente a Fundação Nacional do Índio, Funai, e o governo estão atrasando esse trâmite". 

Sobre a história

Explicando o porquê de sua boa relação com os indígenas, Zanoelo lembra que, há muitos anos, quando foi construída a ferrovia entre Getúlio Vargas e Marcelino Ramos, os índios que residiam na região auxiliaram na abertura do mato para a construção da estrada de ferro e que, naquela época, o governo havia realizado uma doação de 650 hectares, em troca do serviço realizado. Porém, com a mudança de governos ao longo dos anos, os indígenas acabaram sendo expulsos de suas terras e levados para Cacique Doble. "Isso não é justo", analisou Zanoelo.

Costumes diferentes 

Quando ele apresentou sua terra à reportagem, com os índios lá vivendo, disse que muita coisa estava diferente. "Eles não tem os mesmos costumes e cuidados que eu tinha, mas é preciso compreender, afinal, são costumes diferentes". Explicando sobre a situação de suas terras, Zanoelo diz que, na verdade, o que ele aguarda é a resposta da Funai com relação a indenização de sua propriedade. Sobre os papeis e o trâmite na justiça, Joel explica que a primeira parte da Funai já foi realizada, que é fazer o relatório e o limite das áreas. Agora tem que mandar para o Ministério da Justiça que é o responsável. "O próximo passo é um trabalho conjunto, onde é necessário conseguir os recursos para fazer a indenização dos agricultores", explicou.

Briga política 

Tanto o cacique Joel, quando Zanoelo concordam que essa é uma briga política, mas o indígena reitera que sempre esteve aberto a diálogo. "Quando viemos pra cá não pensamos em brigar com os agricultores e expulsar eles das terras. Nós sempre prezamos pelo diálogo. No momento em que o governo e que os agricultores, a exemplo do seu Zanoelo, reconhecer o que é certo, as coisas vão acontecer e vão se agilizar. Todos somos iguais, não tem motivo para ter briga.  Os seres humanos não podem querer matar um ao outro por causa de um pedaço de terra". Joel ainda complementa: "mesmo sendo índios, somos seres humanos. Sabemos dialogar, sentar e pensar junto. Não precisamos entrar em conflito, se matar. Isso não resolve nada, e só deixa aquele ódio ou a tristeza maior ainda", disse ele. 

Caso isolado

A comerciante e suplente de vereadora, Marines Rosa Ronsoni (PP), que atua na defesa dos agricultores com terras legalmente adquiridas, diz que entende que este é um caso isolado e, conforme ela, "de forma alguma a questão indígena pode ser pautada por um exemplo que não quer dizer nada para o que realmente envolve a questão das demarcações. Boas relações entre as pessoas é o mínimo que se espera em todos os casos. Não se pode colocar aos agricultores e aos indígenas a responsabilidade de um conflito gerado pelo desgoverno. Acima de tudo deve-se considerar que a legalidade e juridicidade devem ser respeitadas". O jornal Bom Dia tentou fazer contato com o Sindicato Rural de Erechim através de sua sede e de seu presidente, João Picolli, a fim de saber o posicionamento da entidade a respeito do assunto. Entretanto, até o final desta edição, não foi possível registrar a palavra do presidente. 

Professor comenta o assunto

Para o professor de sociologia da Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS, Cassio Brancaleone é preciso admitir que as demarcações constituem apenas uma faceta de uma política justa e necessária de reconhecimento da dívida histórica que o Brasil possui com as chamadas "populações tradicionais" (o que inclui não apenas os indígenas, mas também populações quilombolas, por exemplo). "Digo uma faceta porque a incorporação das populações indígenas no quadro de uma agenda positiva de direitos sociais no Brasil implicaria em uma série de outras ações que ultrapassariam a simples disponibilização de terras (ainda que esse aspecto tenha uma centralidade própria no âmbito das lutas indígenas, que deve ser observado). Isso nos leva a uma outra questão, essa sim que merece o devido cuidado e o máximo de participação do restante da sociedade brasileira: como operacionalizar uma política de demarcações, para não ocasionar na produção de novas injustiças", explicou.
Sobre a boa relação que a comunidade indígena mantém com Zanoelo, o professor destaca que, para ele, parece sim ser possível buscar um bom entendimento entre as populações indígenas e os pequenos agricultores. Para ele, esse caso, mesmo sendo exceção, pode ser um belo exemplo de que o suposto ódio de alguns agricultores em relação aos indígenas, seja muito mais produto do medo de perder suas terras e induzido politicamente por certos setores da sociedade brasileira que percebem os indígenas como parte do atraso nacional e pedra no sapato do desenvolvimento. 

A demarcação no Rio Grande do Sul

De acordo com Brancaleone, "no caso do RS, é importante que indígenas e agricultores reconheçam que o verdadeiro responsável por esta situação é o Estado gaúcho, que autorizou a colonização e venda de terras devolutas no início do século, bem como realizou reforma agrária em terra indígena nos anos 1950. Agricultores e indígenas precisam estar unidos para reivindicar uma solução que reconheça os direitos de ambas as partes e que por sua vez exige do governo uma solução razoável para esse impasse". Para ele, a dimensão mais tensa desses conflitos deve ser buscada no atual cenário que o país vem vivenciando de expansão da sua fronteira agrícola em áreas de populações tradicionais. "Precisamos incluir aí também o lugar ocupado pelos 'grandes projetos de desenvolvimento' (como estradas, usinas, etc), promovidos pelo Estado. O conflito entre pequenos agricultores e indígenas, como vivenciamos aqui no RS, é apenas uma pequena fração da verdadeira dinâmica de desterritorialização que essas populações vêm sofrendo nos últimos anos. Na verdade esse fenômeno é de expressão internacional". 

Finalizando, o professor diz que acredita sim ser direito dos povos indígenas as suas terras de ocupação tradicional. "O que insisto é na necessidade de promover um amplo debate na sociedade brasileira sobre a melhor forma de operacionalizar o acesso à terra, para que não sejam produzidas novas injustiças. Especialmente no caso em que os envolvidos são, em sua maioria, pequenos produtores, como é o caso do RS", finalizou. 

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