A juíza da 2ª Vara Criminal, Lillian Paula Franzman, também participou da coletiva sobre o encerramento da Operação Nacional Maria da Penha, na manhã de quinta-feira (23), destacou sobre os avanços e fortalecimento do trabalho em rede e falou sobre a necessidade de se quebrar alguns mitos e mudar a cultura do machismo. “Todos os órgãos têm trabalhado bastante para dar uma atenção especial aos casos de violência contra a mulher aqui na nossa região. Eu percebo que ainda existem alguns mitos em relação à violência contra a mulher. Às vezes a gente observa que a comunidade imagina que apenas pratica violência contra a mulher aquele cidadão que já tem antecedentes criminais, que já é envolvido com o crime, que uma pessoa que não tem antecedentes, que é bem visto na comunidade, que é trabalhador, essa pessoa não pode praticar violência contra a mulher, mas eu diria que é exatamente ao contrário, a maior parte dos abusadores domésticos não tem antecedentes criminais, são trabalhadores e bem vistos na comunidade. Então, precisamos acabar com esse mito de que pessoas, digamos, de bem, não praticam a violência contra a mulher”.
Quem vai acreditar em mim?
“Muitas vezes as vítimas ficam com medo, com receio de buscar a justiça. Ah, eu não vou procurar porque o meu marido é uma pessoa conhecida, ele é uma pessoa poderosa, ele é uma pessoa que tem dinheiro. Se eu procurar, quem vai acreditar em mim? Eu quero dizer que a palavra da vítima tem valor, ela importa para nós. A palavra da vítima é extremamente importante, porque não é um crime que aconteça com testemunhas.
Esse é um crime que não vê classe social. Na minha sala de audiência recebo pessoas de todos os níveis sociais, de todas as profissões, pessoas que os senhores nem imaginam, e a Lei, ela é exatamente igual para todo mundo”, frisou a magistrada.
Algo cultural
“E a gente percebe que isso acontece porque a violência de gênero é algo cultural. Muitas vezes, aquele homem viu o pai dele, o vô dele ser agressivo com a esposa, e ele transmite isso, às vezes, não de uma forma pensada. Ele repete aquele padrão familiar, passa de geração a geração. A violência contra a mulher ocorre dentro da casa, onde ninguém vê, onde ninguém percebe, muitas vezes silenciosa, muitas vezes sem qualquer lesão corporal, sem qualquer marca de agressão, apenas com palavras, com atitudes, durante muitos e muitos anos, e isso caracteriza um crime, sim, terrível, com consequências nefastas para a vítima e para os seus filhos. É a violência psicológica”, finalizou a juíza.