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Segurança

Policial Civil fala sobre crescimento do fascismo e grupos neonazistas

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“Essas pessoas estão se sentindo empoderadas para fazer propagação de discurso de ódio e de ufanismo
Por Alan Dias
Foto Alan Dias

Vereador de Porto Alegre em seu primeiro mandato e agora pré-candidato a deputado estadual, o policial civil, Leonel Radde, esteve visitando Erechim e conversou com a reportagem sobre o avanço do fascismo e crescimento de grupos neonazistas nas cidades do Rio Grande do Sul e no país.

Antes de se licenciar para concorrer a vereador, Radde integrava o coletivo Policiais Antifascismo e após eleito, seguiu com sua luta contra grupos segregacionistas, criando canais de denúncias que já resultaram na apreensão de computadores e materiais de células nazistas em ações policiais e no cancelamento de um festival de bandas neonazistas que aconteceu em 2019 em Canoas e iria se repetir em outra cidade no ano seguinte, entre outras situações.

Formado em História, Direito, pós-graduado em História Contemporânea e com mestrado em Direitos Humanos, Radde fala que o fascismo “foi algo que sempre estudei em termos acadêmico, mas a partir de 2015 comecei a atuar de forma mais direta e a minha primeira atuação, ainda como policial, em um caso com maior repercussão, foi o ataque a um imigrante haitiano em Canoas. Ele foi hostilizado por um indivíduo que usava roupa militar. Identificamos os criminosos (o indivíduo responsável pelas humilhações e o comparsa que fez a filmagem) e conseguimos a condenação dos agressores em 2018”.

 

Dossiê Bastardos Inglórios

Desde o caso envolvendo o haitiano, Radde vem fazendo o monitoramento das redes sociais e criou o dossiê Bastardos Inglórios (referência ao filme de Quentin Tarantino, onde uma equipe de judeus americanos caça nazistas durante a 2ª Grande Guerra). “A gente tem uma rede de monitoramento, dentro do mandato como vereador, e tem acompanhado perfis e redes de ódio, situações que chegam através das redes sociais principalmente, sobre grupos de intolerância, supremacistas ou que fazem apologia ao nazismo, e encaminhado para os órgãos competentes”. Para denúncias, o vereador disponibiliza o número 51 99676 0718 (WhatsApp) e também o Twitter e Instagram (@leoneiradde).

 

Dados vazados e ameaças

“Recebemos denúncias pelas redes sociais, Twitter, Instagram ou pelo WhatsApp e elas tem aumentado consideravelmente. Inclusive estamos infiltrados em alguns grupos do Telegram e vamos acompanhando. Neles, várias vezes nossos nomes são citados, com ameaças. Alguns pegam nosso número institucional e ameaçam, ‘você vai morrer’. Essas situações são corriqueiras. Em 2020 tive meus dados pessoais vazados, meu endereço, meu número particular, áudios que eu mandava para grupos de policiais”.

 

Parceria com pesquisadora

O vereador conta que seu grupo de trabalho atua muito em parceria com a doutora em Antropologia pela Unicamp, Adriana Dias, que há 20 anos pesquisa a história e a movimentação de grupos neonazistas brasileiros. “Ela tem um trabalho de monitoramento também e nos repassa conteúdos que são provenientes do Rio Grande do Sul. A gente faz o levantamento e leva para a Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância”.

 

Empoderados

“Essas pessoas estão se sentindo empoderadas para fazer esse tipo de propagação de discurso de ódio e de ufanismo do nazismo. E isso tem nos preocupado. Teve uma intervenção da polícia há uns dois meses, veio do FBI, sobre um determinado grupo nacional de chan - abreviação da palavra inglesa channel (canal) e que tenta garantir o anonimato dos usuários, na deep web (área da Internet que fica "escondida" e tem pouca regulamentação). O alerta apontava que eles estariam organizando ataques a escolas e creches.

 

Redes abertas

Em menos de um ano conseguimos identificar diversos simpatizantes. São pessoas que têm redes sociais abertas, mais de 30 membros e simpatizantes que utilizam símbolos nazistas abertamente. Não é algo na deep web, que precise fazer uma investigação. Pessoas com CPF, RG, tudo declarado.

 

Situação preocupante

Tem um grupo que funciona na gameficação, eles dão missões aos membros, por exemplo, ‘abre teu celular ao vivo e mostra que você vai agora matar um cachorro’, ‘mostre que você vai se mutilar com o nome do grupo’, ‘mostre ao vivo que você vai cheirar cocaína’. Eles vão dando as missões e os integrantes vão avançando dentro da hierarquia de respeito do grupo. Junto a isso, vão distribuindo materiais nazistas, materiais de violência, pedofilia e fazendo ameaças. É um grupo grande (mais de mil membros) e há pouco tempo, no norte do país fizeram uma ‘missão’ em que tentaram, ao vivo, esfaquear um morador de rua. É matematicamente impossível que eventualmente não vamos ter pelo menos um lobo solitário que causará uma tragédia”.

 

Ramificado

Existem denúncias vindas de todo o estado, “de cabeça, lembro de Passo Fundo, Canoas, Pelotas, São Leopoldo, Sapiranga, Eldorado do Sul, Santa Maria, Novo Hamburgo, Tramandaí, Tapera e diversas pequenas cidades. Então a gente vê que está muito ramificado. Às vezes é apenas um ou dois indivíduos no município, mas se vinculam muito por grupos nas redes sociais”.

 

Estados

Nos estados, “em São Paulo é muito prevalente porque é um estado gigantesco, tem a questão dos skin heads que historicamente sempre foram muito fortes lá. Por incrível que pareça, são fortes no Rio de Janeiro, que é um estado miscigenado, mas tem células bem fortes, Santa Catarina talvez seja a prevalência nos estados do Sul, depois fica entre Paraná e Rio Grande do Sul”.

 

Delegacia de Combate à Intolerância

Com a Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância (inaugurada em dezembro de 2020) a coisa começou a mudar de figura, mas claro, por enquanto é muito centrado em Porto Alegre, mas às vezes é possível vincular o caso de lá com outros municípios. “Tenho recebido muito apoio da delegacia, é uma equipe fantástica. E eles não tem nenhum compromisso comigo, falo isso porque realmente acho que eles têm feito um trabalho excelente, incansável”.

 

Pautas em comum

“Eles estão muito cruzados com alguns núcleos, daria para chamar de pequenas milícias, grupos paramilitares, com capacidade para ter e fornecer armamentos, que não atuam de forma criminosa no geral, mas estão se organizando em pequenas células, que tem pautas em comum com os grupos supremacistas. Formas diferentes de atuação, mas todos com simpatia pela ideologia e que acabam se aproximando”.

 

Lógica de violência

“Temos mais de mil armas sendo registradas por dia. Um atirador pode ter 60 armas de fogo e você fica se perguntando, por que estão sendo compradas tantas armas? Qual é o objetivo disso? E aí você começa a ver os discursos.

A coisa está entrando em uma lógica de violência, e não só na questão neonazista. Isso acaba contaminando. Se sentem empoderados a ponto de matar as pessoas na rua. É muito fácil quando as coisas estão acontecendo longe de nós, para pessoas que não tem voz, mas invariavelmente, uma hora isso vai chegar em ti”.

 

Defender a democracia

“Acredito que este ano vamos passar por um processo muito violento, que eu não acredito que termine logo, deve se estender por um bom período e espero que as pessoas tenham a percepção que o que mais importa é salvar a democracia. Temos que defender a democracia independentemente da concordância ou não dos pensamentos. Que os pensamentos não sejam impeditivos de as pessoas expressarem pontos de vista”.

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