14°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Geral

80 anos depois: Operação Barbarossa e o Holocausto

teste
Os Einsatzgruppen são um dos temas menos explorados pela literatura que trata da Segunda Guerra. Boa
Por Salus Loch
Foto Yad Vashem
A noite de 21 para 22 de junho de 1941 - solstício de verão, uma das datas místicas da SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista) - transcorreu tranquilamente pela  extensão da fronteira da Rússia com a Europa Ocidental. O expresso Berlim - Moscou atravessou-a na hora certa e os postos aduaneiros permaneceram abertos. Contudo, por volta das 3h30min, já do dia 22, uma intensa barragem de artilharia seria desferida pela Alemanha de Adolf Hitler contra as terras de Josef Stalin, dando início à invasão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) pelas tropas nazistas. A ação colocou por terra o pacto de não agressão firmado entre os dois ditadores em agosto de 1939, pelo qual ambos dividiam suas áreas de interesse e influência no leste europeu, o que permitiu o ataque da Wehrmacht (forças armadas da Alemanha) à Polônia, em 1 de setembro de 1939, marcando o começo da Segunda Guerra Mundial.
 
II
A invasão da URSS, denominada de Operação Barbarossa - em homenagem ao imperador alemão que conduzira seus exércitos na Terceira Cruzada contra os eslavos pagãos, no século XII - representou a maior operação militar germânica na Segunda Guerra com a participação de mais de 3 milhões de soldados alemães apoiados por 650 mil tropas dos países alinhados ao regime nazista (Finlândia e Romênia) e, mais tarde, por unidades da Itália, Croácia, Eslováquia e Hungria, sendo executada por três caminhos que levavam ao coração da Rússia. Um deles percorria a costa do Báltico até Leningrado (hoje, São Petersburgo). O segundo, que Napoleão tomou em 1812, passava por Minsk e Smolenski até Moscou; e o terceiro, situado ao sul dos pântanos do Pripret, pegava a estrada que vai do sul da Polônia à região das terras negras da Ucrânia. 
Depois de um começo arrasador, com a Blitzkrieg (guerra relâmpago) alemã promovendo estragos, o confronto se estenderia pelo território soviético e, com o ápice em Stalingrado, o jogo começaria a virar, não sem antes causar milhões de mortes de combatentes e de civis, manchando com sangue a neve russa. O revés na URSS implicaria a Hitler o fim do sonho de conquistar a União Soviética e dizimar sua população para explorar o país e, num futuro, colonizá-lo com alemães, criando um grande império germânico do Atlântico até os Urais. A derrota no leste também teria impacto decisivo para o desfecho da Segunda Guerra e a tomada de Berlim pelo exército vermelho. Em maio de 1945, depois do suicídio de Hitler, em 30 de abril, seria decretado o fim do Reich, que, ao invés de durar mil anos, como projetaram os líderes nazistas, se extinguiria após 12 anos de atrocidades.
 
III

Adolf Hitler, Heirinch Himmler, Reinhard Heydrich e outros levariam sua crueldade ao extremo, justamente, com a Operação Barbarossa. Ali, a política antijudaica alemã e de seus colaboradores resultaria no assassinato em massa de cerca de 1,5 milhão de judeus sob ocupação nazista em florestas e ravinas como Ponar e Babi Yar.

De acordo com o coordenador geral do Museu do Holocausto de Curitiba/PR, Carlos Reiss, foi na URSS que o Reich deu início à resolução do ‘problema judaico’, a partir dos  Einsatzgruppen (grupos de ação), unidades especiais da Polícia de Segurança e do Serviço de Inteligência da Alemanha nazista, estabelecidos em 1938. Verdadeiras milícias, os esquadrões da morte acompanhavam a Wehrmacht ao longo da expansão sobre a Europa, com atribuição especial no leste. “O objetivo oficial era estabelecer medidas de segurança, como identificar e neutralizar potenciais inimigos, apreender locais estratégicos, prevenir sabotagem e recrutar colaboradores. Porém, eles se tornaram mais conhecidos por seu papel no assassinato sistemático de judeus em operações de fuzilamento em massa na URSS”, observa Reiss.

 

IV

Os Einsatzgruppen costumavam chegar aos locais pouco depois do avanço do exército regular. Embora, inicialmente os alvos fossem as lideranças políticas locais, membros do partido comunista e homens judeus adultos, logo os milicianos de Hitler passaram a caçar e assassinar a população judaica de modo geral, incluindo, mulheres e crianças, além de ciganos roma e prisioneiros soviéticos, em muitas ocasiões, com o auxílio da Wehrmacht e de colaboradores locais. Segundo o coordenador do Museu do Holocausto de Curitiba, um dos motivos para o uso dos grupos de ação no leste seria a inviabilidade de expulsar os judeus (como em outras partes da Europa). Ao longo da Guerra, o fuzilamento em massa responderia por cerca de 40% do total de judeus assassinados no Holocausto.

 

V

Conforme o Yad Vashem, Museu e Memorial Holocausto de Israel, Hitler considerou a invasão da URSS como parte de seu plano para fornecer à nação alemã “espaço vital” (Lebensraum) e uma oportunidade de destruir o comunismo, que ele odiava. Por tal razão, instruiu seus comandantes militares a submeterem os Kommisars (oficiais políticos que acompanhavam o exército vermelho) e os intelectuais a um tratamento impiedoso.

 

VI

Quatro divisões de operações especiais (A, B, C e D) operaram por trás do corpo que participou da campanha contra a URSS, detalha o Yad Vashem. As unidades eram formadas por SS, policiais e auxiliares mobilizados junto à população local. Embora centenas de milhares de judeus tenham conseguido fugir, outros tantos permaneceram sob ocupação nazista, sendo exterminados. Em menos de meio ano, no final de 1941, cerca de 500 mil judeus foram assassinados nas áreas conquistadas por Hitler.

 

VII

Em fevereiro de 2020, estive num destes locais: a ravina de Babi Yar, em Kiev, na Ucrânia - onde, entre 28 e 29 de setembro de 1941, membros da Einsatzgruppe C assassinaram 33.771 judeus, além de ciganos e prisioneiros de guerra soviéticos.

Ponar, uma floresta localizada a 10 km ao sul de Vilna, na Lituânia, também tornou-se campo de matança. De julho de 1941 a julho de 1944, mais de 70 mil pessoas, grande maioria judeus, foram assassinadas em meio a frondosas árvores.

A partir de novembro de 1941, judeus e outras vítimas do regime nazista foram assassinados na floresta de Blagovshchina, perto da aldeia de Maly Trostinets, a sudeste de Minsk, Bielorússia. Os primeiros a morrer foram cerca de 100 mil judeus do gueto de Minsk.

 

VIII

No final de 1941, porém, os alemães perceberam que não derrotariam a União Soviética em uma guerra relâmpago como haviam previsto. A Wehrmacht exigiria uma força de trabalho que ajudasse na pavimentação de estradas, limpeza de campos minados, produção de ordenanças e equipamentos. Temporariamente, foi tomada a decisão de deixar prisioneiros judeus vivos em campos e guetos a fim de empregá-los no esforço de guerra alemão. A trégua, todavia, foi breve. O extermínio seria renovado em sua intensidade na primavera de 1942, com a operacionalização dos campos da morte construídos na Polônia ocupada, que buscavam conduzir à ‘Solução Final da Questão Judaica’.

No inverno de 1943, a maioria dos judeus da Bielorússia e quase metade dos 2,5 milhões de judeus da Ucrânia já haviam sido assassinados. O expresso Berlim - Moscou ainda levaria um bom tempo até voltar a circular normalmente, e um primeiro acordo no pós-guerra envolvendo os governos da Alemanha e União Soviética só entraria em vigor em 3 de junho de 1972, quando a política de distensão do chanceler federal, Willy Brandt, do PSD - Partido Social Democrata da Alemanha, já havia sido consagrada internacionalmente com o Prêmio Nobel da Paz, seis meses antes.

 

Saiba mais

# Em preparação para a invasão nazista da Polônia em setembro de 1939, os Einsatzgruppen foram formados para combater elementos considerados hostis aos Reich; o que parece ter soado como uma ordem para assassinar milhares de judeus e membros da classe alta polonesa. Em 21 de setembro de 1939, os grupos de ação receberam instruções sobre os judeus nas recém-conquistadas regiões, os quais deveriam ser presos e transferidos para guetos próximos às linhas ferroviárias, a fim de facilitar deslocamentos. Eles também foram instruídos a criar os Judenraete (conselhos judaicos).

 

# Enquanto a Alemanha se preparava para invadir a URSS, Hitler deixou claro para o exército que aquela guerra seria de extermínio, baseada em um conflito fundamental entre duas ideologias opostas. Era imperativo destruir os elementos que perpetuassem o comunismo.

 

# O Einsatzgruppe A, que acompanhou o exército do norte, era o maior dos quatro agrupamentos, com cerca de 1.000 homens. Eles operavam nos Estados Bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) e na área entre as fronteiras orientais e Leningrado. O Einsatzgruppe B contava com 655 homens ligados ao exército do centro, fazendo seu serviço sujo na Bielorússia e em direção a Moscou. Já o Einsatzgruppe C tinha 700 milicianos ligados ao exército sul, cobrindo o norte e centro da Ucrânia. Por fim, o Einsatzgruppe D, com 600 homens, era ligado ao 11o exército, operando no sul da Ucrânia e Crimeia.

 

# Em regra, as vítimas dos esquadrões da morte nazistas eram forçadas a entregar seus bens e remover suas roupas, e, então, fuziladas. Os comandantes, com disciplina prussiana, registravam em relatórios diários tais atividades.

 

# Apesar de bestiais, o contato próximo e constante com o assassinato teve efeito destrutivo em muitos dos membros dos grupos de ação. Isso levou os nazistas a procurarem outros modos de extermínio, como caminhões de gás e, na sequência, os campos com suas câmaras de gás e crematórios.

 

# Conforme o Dr. em direito internacional e um dos organizadores do Fórum Permanente sobre Genocídio e Crimes contra a Humanidade, Felipe Alamino, após a guerra, os principais líderes dos Einsatzgruppen foram julgados em Nuremberg, Alemanha. Segundo o Yad Vashem, dos 24 réus, 14 receberam sentença de morte; porém, apenas quatro foram executados (o restante teve suas sentenças reduzidas). Os julgamentos de Nuremberg serão tema de uma das palestras do Fórum Permanente sobre Genocídio e Crimes contra a Humanidade, a ser realizada em São Paulo, no mês de agosto.

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas