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É preciso falar em Libras

Surdos e pessoas com deficiência auditiva encontram dificuldades para receber atendimento em locais públicos e privados

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É preciso falar em Libras
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Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Najaska Martins

Surdos e pessoas com deficiência auditiva encontram dificuldades para receber atendimento em locais públicos e privados

A perda de audição da microempresária Denise Jevinski começou ainda em sua adolescência. Há quase 30 anos convivendo com deficiência auditiva bilateral (em ambos ouvidos), não são poucas as dificuldades que ela enfrenta sempre que precisa de algum atendimento seja em órgãos públicos ou em locais como lojas do comércio. “Infelizmente as pessoas não estão preparadas para lidar com isto. É muito ruim e as vezes é constrangedor”, lamenta. “Já pedi para fazer uns adesivos para colocar nos meus documentos identificando minha deficiência para que entendam que eu não ouço”, relata.

Para Denise, o desafio da comunicação só não é maior porque ela consegue falar. A mesma situação ocorre com a jovem Paula Cristina Baú, de 20 anos. No entanto, há um agravante que dificulta ainda mais os atendimentos: surda de nascença, ela não oraliza. Problema semelhante ocorre com o professor Alan Rodrigues. Sem ouvir ou falar em razão de ter nascido surdo, o jovem encontra cotidianamente barreiras que impedem um atendimento satisfatório, entre elas, o fato de serem poucas as pessoas que conseguem compreender seus objetivos e vice-versa.

Falta de preparo

A realidade compartilhada pelos três é alicerçada na mesma premissa: a falta de preparo por parte das organizações, sejam elas públicas ou privadas para com o atendimento aos surdos e deficientes auditivos. Ainda assim, se comparados a outros grupos, o povo surdo vem ganhado cada vez mais visibilidade no que se refere à conquista de direitos. “Tais direitos resultam da luta das minorias historicamente excluídas. O povo surdo, tem um histórico que serve de exemplo para outros grupos. Justamente por isso que possui a visibilidade, bem como a garantia da obrigatoriedade das universidades ofertarem um componente curricular nos cursos de graduação e formação de fonoaudióloga que discuta os conceitos básicos da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS)”, explica a professora Sonize Lepke, que é pós graduada em docência, tradução e interpretação da Libras.

Para transpor a barreira que muitas vezes impede a comunicação, a alternativa que o povo surdo e as pessoas com deficiência auditiva encontram, muitas vezes, é sair com alguém da família que oralize. No caso da Paula, suas acompanhantes normalmente são sua mãe, ou sua irmã gêmea, Ana Carolina Baú, que é também sua intérprete. Em alguns casos, quando sozinha a jovem afirma que utiliza a escrita para transmitir o que busca. Entretanto, ela lamenta a falta de acessibilidade. “Os locais precisam se comunicar com os surdos. É preciso ter acessibilidade, pois alguns não sabem escrever em português e encontram dificuldades para se comunicar pois muitas pessoas não sabem Libras”, relata.

Já o Alan, que atua como professor da Língua Brasileira de Sinais na URI, também recorre à escrita quando não consegue se fazer entender. “O problema é que as vezes tenho dificuldades porque não conheço alguma palavra ou contexto para escrever em português, aí dificulta. Também peço ajuda em alguns casos para alguém que esteja no local onde estou, mas a maioria não sabe ou está sempre ocupada”, pontua.

Para minimizar o problema da comunicação nestes casos, são poucos os locais que contam com intérpretes. No caso de serviços públicos da Prefeitura, por exemplo, a informação repassada pela Secretaria de Comunicação é a de que sempre que surdos procuram atendimento é solicitada a presença de uma intérprete de Libras que fica lotada na Secretaria de Educação. Já no caso do comércio, a Câmara de Dirigentes Lojistas afirma que não há uma formação específica aos comerciantes, entretanto, a presidente da entidade, Lindanir Canelo, adianta que para o fim do próximo mês será realizada uma palestra com foco voltado ao atendimento de pessoas com deficiência.

Avanços e desafios do povo surdo

Questionada sobre os avanços que o povo surdo alcançou nos últimos anos, Sonize se diz otimista. “Sou uma eterna otimista vigilante. Otimista porque tivemos grandes avanços nas últimas duas décadas. Há vinte anos, as pessoas não conheciam a Libras, surdos e pessoas com deficiência não possuíam um nome, uma história. Nos cursos de graduação a temática não era discutida e a presença de um acadêmico surdo era quase nula. Hoje eles conquistaram espaço na mídia, na sociedade e nas discussões. Têm a opção de escolher em qual escola querem estudar (às vezes com muitos problemas), mas isso não era possível imaginar alguns anos atrás”, ressalta.

Sobre ser vigilante, ela explica: “Não podemos esquecer os avanços e as dificuldades que persistem. Pois temos uma longa caminhada, tanto para o surdo, como para outras deficiências. Também, precisamos ficar vigilantes quanto aos possíveis retrocessos como a possibilidade de negar vaga nas escolas ou cobrança de taxas adicionais nas escolas particulares. Talvez, por isso a mobilização do povo surdo seja permanente. E nós da comunidade surda, precisamos apoiar as reivindicações destes”.

Como desafio do povo surdo, Sonize cita, entre outros pontos, o acesso a um currículo escolar que contemple as suas especificidades. “Pode parecer estranho, mas avançamos nas garantias de acessibilidade e permanência nas escolas, mas não existe com isso uma garantia de acesso ao currículo proposto. A forma de comunicação e expressão do surdo é através da língua de sinais, mas só isso não basta. Pesquisas já apontaram a necessidade dos professores que atuam com crianças e adolescentes surdos necessitam utilizar metodologias e estratégias que valorizem a visão. Essas mudanças, não iriam beneficiar apenas os surdos, mas todos os demais colegas”, diz a professora.

Por fim, ela salienta que todos ganham com a presença de colegas surdos. “Porém, a escola e professores precisam estar dispostos a mudar e representar o diferente como um sujeito que aprende, que possui uma língua e uma cultura que precisa ser respeitada”, finaliza destacando que seus apontamentos refletem sua visão de ouvinte, participante da comunidade surda e professora dos cursos de formação de professores.

 Libras: a primeira língua dos surdos

Se para os ouvintes a primeira língua é o português na forma oral, para os surdos é a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Considerando que muitos deles são filhos de pais ouvintes, eles também estão exposto à língua portuguesa, no entanto, é comum muitos terem dificuldades na comunicação nesta em razão de não ser sua língua materna, tal qual um ouvinte sente-se limitado diante da necessidade de falar em uma segunda língua, como o inglês, por exemplo. É por meio da Libras que a linguagem da maior parte das crianças surdas evolui, é por meio dela que as possibilidades cognitivas e conceituais para nomear e categorizar a realidade acontecem. É por meio da Libras que o surdo tem acesso à cultura, ao conhecimento e à integração social.

Neste sentido, Sonize salienta algumas conquistas dos surdos, entre elas a presença de intérprete escolar na educação. “Aqui em Erechim avançamos com uma interprete que atua na administração municipal. Também, garantimos a permanência das classes especiais ou bilíngues para surdos nos anos iniciais do ensino fundamental.                Na saúde, o surdo tem prioridade nos atendimentos, tanto quanto na identificação da deficiência auditiva, com de outras doenças relacionadas à perda auditiva ou surdez. Tem também a garantia de acessibilidade, e no caso do surdo, seria a presença de um interprete ou pessoas usuárias da Libras. Aliás, este ainda é um grande problema”, destaca.

A professora elenca ainda algumas bandeiras de lutas, entre elas, o respeito à língua, à cultura surda e ao espaço no mercado de trabalho. “Aliás, as três questões estão interligadas, pois quando a sociedade desconhece as especificidades da língua e a cultura, nega ao surdo a possibilidade de ocupar uma função remunerada para o qual possui formação. Vejo muitos exemplos de professores surdos graduados e pós graduados que não encontram espaço, vejo muitos administradores, contadores, enfim vários profissionais habilitados que permanecem na mesma função por décadas mesmo com aperfeiçoamento profissional”, afirma. “A questão está em o ouvinte entender que o surdo possuí um língua, que precisa ser respeitada e que esta não diminui as suas potencialidades”, pontua, destacando também que ainda há lutas relacionadas à carência de professores ouvintes e intérpretes que possam atuar no contexto educacional. “Ou seja, temos que avançar e estudar muito a língua de sinais”.         

        

 

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