Foi em 8 de janeiro de 2019 que, pela primeira vez, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul passou a ser comandada por uma mulher, Nadine Farias Anflor, após 177 anos de instituição.
Em seu discurso de posse, a Delegada da Polícia Civil Nadine falou sobre o empoderamento feminino e a história da mulher na Polícia Civil gaúcha, com o ingresso das primeiras agentes, na década de 1970. Foi um momento marcante, e que inspirou mulheres de diferentes funções sociais, dentro ou fora da PC, como é o caso da Delegada da Polícia Civil, Diana Casarin Zanatta, que estava na posse da Chefe: “pude presenciar a fala do Exmo. Sr. Governador Eduardo Leite que fez questão de deixar claro que a Nadine foi escolhida para assumir o cargo, não pelo fato de ser mulher, mas sim por ser competente”, lembra.
Formada em Direito na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 1998, Diana desejava ser advogada. Ainda durante a graduação, fez a prova da OAB, foi aprovada, e recebeu a carteirinha da ordem junto com o diploma. Durante aproximadamente seis anos, exerceu a advocacia, com muitos desafios para administrar e, em 2004, foi aprovada em concurso público de provas e títulos, para o cargo de Delegada da Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul.
Não era um sonho desde criança
Ela conta que, na época em que assumiu a função, o critério para escolha pelos candidatos aprovados, do local de lotação, não obedecia o critério da ordem de classificação. Por isso, mesmo ela tendo obtido o primeiro lugar no concurso, entre as mulheres, e a quinta posição geral, na turma de aprovados para o cargo de Delegado de Polícia, não teve a oportunidade de escolher a cidade e a DP onde iria atuar, conforme sua classificação no concurso (o que é regra, atualmente). Ela foi ordenada, pela administração da época, para assumir a Delegacia de Polícia de Marcelino Ramos, mas relata que gostaria de ter permanecido na região Metropolitana. Hoje, 16 anos depois, ela afirma que foi a melhor escolha que poderiam ter feito por ela, mesmo que não saibam. Após passar um longo período na pequena cidade, Diana percebeu que a experiência lhe trouxe grandes benefícios: “no início, tive que lidar com a decepção, porém, assim que assumi aquela Delegacia de Polícia, aos poucos, fui recebida com muito carinho, fui me afeiçoando às pessoas, à comunidade, fiz excelentes amigos e até mesmo formei minha família, ou seja, foi a melhor escolha possível”, reconhece.
Trajetória
Em Marcelino Ramos, a delegada permaneceu até maio de 2009, quando então foi convidada e assumiu a titularidade da DEAM – Delegacia de Polícia Especializada no Atendimento a Mulher, em Erechim. Foi a Delegada de Polícia que inaugurou a Delegacia e nela permaneceu exercendo suas atividades até outubro de 2016, quando assumiu a titularidade da Delegacia de Polícia Regional do Interior, em Erechim, interinamente. No período em que esteve na DEAM, ela trabalhou fortemente na repressão aos crimes praticados contra a mulher, mas também atuou de forma muito efetiva na prevenção dessas violências. Realizou inúmeras palestras, não somente em Erechim, mas na grande maioria das cidades da região, em comunidades, empresas, instituições públicas e privadas. Durante uma de suas palestras, foi observada pela coordenação do curso de Direito da Universidade Regional Integrada de Erechim, e após ter sido reconhecida por um dos professores integrantes da coordenação, a quem já havia solicitado uma vaga na docência, quando ainda trabalhava em Marcelino Ramos, acabou sendo convidada para ser professora. Diana aceitou mais esse desafio e, desde março de 2010, atua na docência, no curso de Direito da URI, já tendo cursado e concluído também o mestrado em Direito, pela mesma instituição.
Delegacia Regional
Além disso, está na Delegacia Regional da 11ª região policial, com sede em Erechim, onde é responsável por 37 municípios. Sua função é ser a gestora regional das 27 Delegacias de Polícia que compõe a 11ª região policial e dos quase 100 servidores policiais, entre Delegados de Polícia e agentes policiais.
De acordo com os dados da Polícia Civil, obtidos pela reportagem, em oito anos 48.176 profissionais fizeram parte do efetivo da instituição no RS. A participação dos homens na PC registrou a maior alta em 2012, com 3.906 (67,47%). O público feminino registrou alta no efetivo em 2014, com 2.081 (34,95%).
Gráfico 1
Gestão e perfil
A Polícia Civil possui vários tipos de Delegacias de Polícia. De acordo com Diana, algumas são mais operacionais, como as que investigam homicídios, tráfico, latrocínio, roubos em geral e outras que trabalham uma temática mais específica, como é o caso da Delegacia Especializada ao Atendimento à Mulher. Mas, esclarece, para todas elas, o que há em comum é o objetivo: “tem como missão a repressão à prática de condutas criminosas, entregando à sociedade, como produto do seu trabalho, a investigação policial de excelência, que seja capaz de elucidar o crime, apontar seu(s) autor(es) e, mais do que isso, atualmente, que seja também capaz de buscar a descapitalização do criminoso”. Segundo ela, um Delegado de Polícia além de ser conhecedor do ordenamento jurídico e do sistema de justiça, precisa ser um bom gestor de recursos materiais e de pessoas, saber trabalhar em equipe – com talento para liderança sem ser autoritário-, e tomar decisões de forma rápida e segura.
Para equilibrar tantas e tamanhas responsabilidades, Diana diz que não há uma receita infalível, mas que procura ter uma vida harmoniosa em família e com amigos. Pratica atividades físicas, curte bons momentos e, sobretudo, procura deixar o trabalho do lado de fora da porta de casa, mas nem sempre é possível, “policiais são policiais 24 horas por dia, todos os dias”, explica.
O efetivo de Delegadas de Polícia
Por meio de solicitação de informações à Polícia Civil, para produção desta reportagem, foi possível observar nos dados estatísticos disponibilizados pela instituição, que atualmente as mulheres ocupam, por ordem crescente de efetivo, os cargos de: Escrivã, Inspetora, Delegada e Comissária. Com 16 anos de atuação na Polícia Civil gaúcha, já no topo de sua carreira, ela é uma das 20 mulheres que ocupam a 4ª classe, a última das classes de promoção, que começa na 1ª, com o ingresso na carreira.
Perguntada pela reportagem, a Polícia Civil esclareceu que o cargo de Investigador de Polícia foi extinto pela Lei Estadual nº 14.433/2014. Quanto ao aumento do número de Comissários de Polícia, a instituição explicou que se deu por causa da Lei Estadual 13.790/2011, que aumentou o número de vagas.
Não percebe preconceito na função de delegada
A Delegada de Polícia Diana acredita que não existe mais dificuldade da sociedade em vislumbrar mulheres nas mais diversas carreiras, dentro ou fora da segurança pública. Ela conta que, quando foi lotada na Delegacia de Polícia em Marcelino Ramos, certo dia chegou um senhor bastante humilde e interiorano, e pediu para falar com o Delegado. “Fui atender esse senhor e percebi que, insistentemente, ele solicitava para conversar com o Delegado. Creio que isso não acontece mais, atualmente”. E Diana enfatiza: “há poucos dias comemorávamos meio século de formatura da primeira turma de Delegadas na Polícia Civil do RS e, graças a elas, mais mulheres ingressaram na instituição”.
Os dados solicitados para a Polícia Civil gaúcha mostram que em 2012 a instituição tinha no efetivo 3.906 homens (67,47%) e 1.883 mulheres (32,53%). Após 8 anos, a PC do RS conta com 3.067 homens (61,50%) e 1.920 mulheres (38,50%).
É preciso caráter
Para a Delegada, na sua função, é muito importante manter o treinamento de tiro e os cuidados de e com a segurança. Ela reconhece que é uma carreira que lida com a criminalidade, porém diz que o importante é a forma como você lida com o crime e o criminoso.
Diana deixa claro que as instituições públicas, tais como a Polícia Civil, procuram integrar seus quadros com profissionais sérios, íntegros e, sobretudo, dinâmicos, pois a função de um Delegado de Polícia não tem rotina. Entre as funções do Delegado de Polícia estão: presidir o Inquérito Policial e, assim, ser o responsável por todas as decisões que nele forem tomadas, bem como analisar e classificar os fatos descritos no boletim de ocorrência, enquadrando-os nos crimes previstos em lei. Mas, segundo ela, a função vai muito além disso, pois o Delegado de Polícia tem a missão de decidir pela autuação ou não de alguém em flagrante; representar ao Juízo pela decretação de prisões temporárias ou preventivas; dar cumprimento, por seus agentes, a mandados de busca e apreensão; esquematizar, planejar, organizar e executar operações policiais; determinar as mais diversas diligências, no sentido de elucidar um crime e sua autoria, entre outras muitas funções, como já destacadas por ela durante a entrevista. “Quando o Estado não consegue se antecipar e prevenir um crime, entra em ação a Polícia Civil, para reprimi-lo, com vigor”. Segundo a Delegada Diana “a melhor prevenção é a repressão qualificada”, ou seja, “se queremos ali na frente comemorar índices baixos de criminalidade, nós sociedade, precisamos entender que o crime é um negócio para o criminoso, então, para ele parar, precisamos fazer com que entenda que o negócio do crime dá prejuízo, caso contrário, ele continua delinquindo”, conclui.