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Rural

“Estamos vendo tudo se acabar”

Com mais de 15 anos de apicultura, casal de Aratiba vê todas as abelhas das 22 colmeias morrerem em poucos dias

“Ver as abelhas morrerem é muito triste"
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Cleonice Maria Dobrovolski

Segurando nas mãos um punhado de abelhas, ao lado da esposa, Maria Francisca Piekas, o agricultor de Aratiba (RS), Luis Pedro Piekas, mostra a sua tristeza ao ver milhares delas mortas, e todas as suas colmeias comprometidas.  

A propriedade da família Piekas fica na localidade da Linha Polonesa em Aratiba (RS), e é a primeira vez, em mais de 15 anos de apicultura, que registra a morte de tantas abelhas, que praticamente eliminou todas as colônias. A produção de mel é utilizada para consumo da família, dos filhos, irmãos e uma parte é comercializada para renda familiar.

“Está destruindo tudo”

“Estou muito sentido de ver as abelhas morrendo e não são só na minha propriedade, tem também em outros vizinhos. A gente não sabe o que aconteceu, está destruindo tudo, fico com pena, tenho 22 colmeias e todas elas não têm mais salvação, estão comprometidas, caindo, morrendo”, desabafa.  

Não é falta de alimento

O casal colheu duas safras esse ano por caixa e tinha deixado bastante mel para as abelhas sobreviverem. “Então, não é de fome que estão morrendo”, observa. Seu Luis comenta que já são três famílias na comunidade com o mesmo problema. “Passei por uma caixa e vi que tinha abelhas mortas no domingo, voltei e fiquei pensando que estavam passando fome. Abri a caixa e fui ver as outras e todas elas tinham abelhas mortas. Hoje, tem caixas que não tem mais nenhuma abelha viva”, afirma.  

Providências 

O agricultor pede que as autoridades tomem providências e investiguem a mortandade, o que aconteceu, se foi uma doença ou agrotóxico. “Por que estão morrendo. É uma pena porque a gente cuida com carinho, trata, e acontece um caso assim”, diz.

Indignação

“Estamos indignados com o que está acontecendo na nossa propriedade. A gente trabalha muito, a cada dia, para ver todas as nossas colmeias morrerem, as abelhas jataí, mirins. Cuidamos com tanto carinho e amor, a gente se dedica pra tirar o mel de cada dia. Estamos vendo tudo morrer”, relata Maria Francisca Piekas.

“A gente vê tudo se acabar”

Segundo ela, a família também doa mel para pessoas que precisam fazer medicamentos pra saúde e, além disso, trabalha com alimentos orgânicos. “Ver as abelhas morrerem é muito triste, porque elas ajudam na polinização das árvores, plantas, frutas, no pólen, e a cultivar produtos de qualidade. E, agora, a gente vê tudo se acabar”, desabafa.

A agricultora Maria está indignada e pede o apoio das autoridades, do município, para ajudar a entender o que aconteceu na propriedade deles. “Isso é um crime contra as abelhas, que só ajudam a gente. Agora, vejo elas morrendo ali, não tenho nem mais palavras para dizer”, afirma.

Investigação

A fiscal estadual Agropecuária, Luciana Borba, da Secretaria de Agricultura do Estado, foi até a propriedade da família Piekas para fazer uma investigação da alta mortalidade das abelhas. “Nós da secretaria e da área de sanidade animal e vegetal investigamos essas elevadas mortalidades”, diz.

Ela comenta que o objetivo da sua visita ao local é para fazer a análise das colmeias, coletar material, que será encaminhado para verificação, para descartar algumas doenças, que hoje são de notificação obrigatória da Secretaria de Agricultura, e para pesquisar se foi por intoxicação de alguns pesticidas.

“Hoje em dia temos acompanhado diversas notificações de mortalidade de abelhas. Tem sido cada vez mais comum os produtores observarem essa grande morte de abelhas, muitas vezes, a mortalidade das colmeias é total e em poucos dias. Fizemos essa investigação para descartar a possibilidade de intoxicação por algum componente químico”, observa.  

Abelhas estão desaparecendo

Conforme a extensionista rural social da Emater de Aratiba, Cleonice Maria Dobrovolski, que entrou em contato com o Bom Dia e repassou as informações e fotos utilizadas na matéria, o resultado da análise vai demorar cerca de dois meses para sair.   

Ela explica que diversas espécies de abelhas estão desaparecendo em todo o mundo. Na Europa e EUA o fenômeno tem sido observado desde o ano 2000 e no Brasil desde pelo menos 2005. “No Rio Grande do Sul entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019 foi registrado a perda de aproximadamente 5 mil colmeias, algo equivalente a 400 milhões de abelhas. Está desaparecendo a espécie apis mellifera, principal responsável pela produção comercial de mel, e nas matas brasileiras há centenas de espécies selvagens possivelmente afetadas”, disse.  

Segundo Cleonice, o impacto econômico previsto é imenso, pois grande parte da agricultura depende do trabalho de polinização realizado pelas abelhas, é o caso por exemplo de todas as frutas comestíveis.

“A causa do sumiço e morte repentina em massa das abelhas também já é conhecida: a aplicação indevida e indiscriminada de defensivos agrícolas. São compostos químicos, inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas que contaminam as abelhas que saem das colônias e acabam atingindo toda a colmeia”, explica.  

A extensionista rural social afirma que a família Piekas ingressou, no ano passado, no programa municipal de produtos orgânicos para cultivar banana orgânica. “A família estava bem motivada com essa adesão dos orgânicos, mas agora essa situação deixou eles bastante tristes, com a morte das suas colmeias, e o reflexo no sustento da família. São pessoas que se preocupam com a saúde e o bem-estar e se dedicam na atividade”, observa.

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