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Ensino

Especialistas destacam necessidade de recursos para o retorno às aulas

Professores na UFFS pontuam que a retomada das atividades no ensino público, demanda estrutura para garantir segurança à comunidade escolar

As aulas foram interrompidas em março, como medida para evitar a propagação do novo coronavírus
Por Amanda Mendes
Foto Divulgação

Há mais de dois meses com as atividades presenciais suspensas na Educação gaúcha e, com a retomada ainda distante, especialistas se preocupam com as condições do ensino público na volta às aulas para garantir segurança aos estudantes, bem como, para a recuperação do calendário letivo. As aulas foram interrompidas em março, como medida para evitar a propagação do novo coronavírus.

Sobretudo, a mestre em Educação e professora na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Silvania Regina Irgang, ressalta que esse retorno não é semelhante a voltar para o ambiente escolar após um período de férias, ele traz uma série de fatores que devem ser considerados para a dinâmica de ensino.

“Nesse momento, vivenciamos o maior desafio de nossas vidas, com a dupla função de preservar a saúde física e mental. Como professora de Estágio Supervisionado em Gestão Escolar, conheço parte da realidade de muitas escolas públicas da região do Alto Uruguai e esse ‘retorno às aulas’ não está meramente vinculado a um simples retorno de férias”, pontuou Silvania à reportagem do Jornal Bom Dia.

Falta estrutura para garantir protocolos da OMS

A professora destaca que as instituições de ensino básico públicas, não têm estrutura para seguir os protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS). “A infraestrutura de muitas escolas de educação básica não possui condições adequadas, e, consequentemente, não poderão receber as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos de forma segura”.  

“O sistema educacional público está sempre com suas vagas preenchidas ao máximo e em todas as modalidades de ensino, isso precisa ser pontuado como um dos problemas que inviabiliza o isolamento social. A escola é lugar de sujeitos afetivos, cognitivos e o movimento de cada um é o que o dá vida ao espaço educativo. Dificilmente, os corpos dos alunos permanecerão disciplinados e imóveis por 4 ou 10 horas na escola, considerando as crianças que frequentam a educação infantil. Não queremos reduzir o retorno vinculado à solução do espaço físico, mas é algo que precisa ser considerado, haja vista que o combate ao vírus está recém sendo enfrentado. Além disso, é essencial conhecer os protocolos da OMS, embasados em pesquisas científicas”, acrescentou a docente.

Analisar peculiaridades

Silvania, ressalta, também, a necessidade de se analisar as peculiaridades de cada instituição de ensino. “Outro desafio extremamente importante é pensar caso a caso, não é somente abrir as portas da escola e passar álcool gel em todas as mãos na entrada e na saída. Ainda, há especificidades significativas e extremamente complexas para esse ‘retorno’. Ao pensar o retorno às aulas nas escolas públicas, não podemos negar quem são esses sujeitos e quais suas peculiaridades”.

Saúde dos professores e funcionários

A preocupação com os professores, equipe diretivas e funcionários, também está presente nas análises da Silvania. “É indispensável considerar a saúde deles, pois estes são os que mais deveriam ser ouvidos, porque retornar às aulas sem todos os profissionais, a tendência aos riscos de contaminação tende a aumentar significativamente”.

Recursos

Para o doutor em Educação e também professor na UFFS, Jerônimo Sartori, os recursos para que as escolas enfrentem esses desafios só serão alcançados por meio de pressões junto ao setor público.

“Primeiramente, precisamos estar atentos para não perder as garantias conquistadas no que se refere aos recursos disponibilizados para as escolas públicas. Cabe destacar que os profissionais da educação estão sempre lutando por melhores condições de trabalho e para o bem-estar da comunidade escolar. Neste momento de crise, é fundamental tencionar o diálogo e os debates com o setor público, estadual e municipal, para garantir a maior segurança possível no que tange à saúde física e mental dos diferentes atores educacionais na retomada das aulas”, argumentou.

Além disso, o docente destaca a importância de os profissionais atuarem de maneira conjunta. “Ressaltamos que este tempo de covid-19 requer que a comunidade escolar atue de maneira colaborativa, participativa e solidária, observando criteriosamente os protocolos do sistema de saúde, bem como das redes de ensino que se somam na busca de recursos para o andamento das atividades escolares. Nesse sentido, os gestores das escolas precisam estar junto com as Secretarias de Educação, em constante diálogo, requisitando maior segurança para todos”.

Recuperação do calendário

Segundo Sartori, a maneira como o calendário escolar será recuperado deve ser elaborada, coletivamente, pelas entidades representativas da Educação. “Os conselhos de educação, secretarias e órgãos competentes precisarão repensar coletivamente a adequação do calendário à legislação vigente, aprovada no andamento da pandemia, para a realização de atividades não presenciais. Essa questão demanda o debate coletivo e intersetorial, para analisar as possibilidades que o Conselho Nacional de Educação (CNE) e os decretos do Estado do Rio Grande do Sul pontuaram sobre o que será ou não considerada atividade letiva a carga horária anual”.

“Além disso, é importante debater o que pedagogicamente poderá ser oportunizado pelas escolas para as horas obrigatórias a serem cumpridas. Não podemos retornar as atividades escolares como se nada tivesse acontecido. No aspecto pedagógico, é essencial considerar os tempos de aprendizagem, que em uma turma os tempos são sempre plurais, para não correr o risco de “encher” os educandos de conteúdo, sem que a aprendizagem seja significativa. Entendemos, que não é necessário cumprir o calendário escolar dentro do ano civil, pois, o tempo da aprendizagem requer o respeito ao processo de cada sujeito. Para isso, o diálogo entre os pares é imprescindível”, concluiu Sartori.

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