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As Máscaras

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

As máscaras são adereços que acompanham a trajetória humana desde as mais priscas eras.

Se tem notícias que já, há trinta mil anos, eram utilizadas por povos e tribos em tradições ritualísticas e outras pompas. Tinham função mágica e simbolizavam entes com capacidade de proteger do inimigo e do desconhecido, além de livrar de doenças e propiciar a vitória nas guerras.

Os antigos egípcios, no apogeu de sua civilização, acreditavam na vida após a morte. Usavam máscaras em cerimônias fúnebres e as aplicavam às múmias e sarcófagos, de modo a auxiliar na passagem dessa para uma vida melhor.

Mais tarde, no século V a.C., os gregos, no auge da sua cultura, as usavam no teatro, comédias e tragédias. Nas festas populares eram dedicadas a Dionísio, deus da natureza, fecundidade e do próprio teatro. Na mitologia romana a mesma divindade também rege a libido e é chamada de Baco.

 Maiores que a face dos atores, as máscaras acentuavam traços expressivos, para que o público assimilasse com mais facilidade e intensidade o caráter do personagem.

Da Grécia, as máscaras bem como as demais manifestações de arte e cultura helenísticas - como dito anteriormente -, migraram para Roma. Os romanos absorveram o uso teatral denominando-as “personas”. As palavras pessoas e personagens derivam da raiz persona, que significa máscara em grego.

Durante a Idade Média passaram a ser utilizadas em festas profanas. Portanto, avessas ao cristianismo dominante. Seu uso resultava em acusações que levavam à fogueira.

Ao Renascimento, voltam à cena pública e passam a ser usadas pela nobreza em festas como as “farsas”. Era um de modo de nivelar os convidados, e faziam parte do próprio traje. Também foram apresentadas à Europa na Comédia Dell’Arte.

É bom lembrar, que mais ou menos à mesma época, os verdugos e sentenciados as usavam nas decapitações. Os primeiros para não cometer a barbárie de cara lavada; os segundos para poupar a plateia da sinistra visão da cabeça desfigurada.  

Em Veneza e Florença, século XV, eram exibidas nos Bals Masqués, precursores do carnaval moderno. Serviam para abrandar conflitos políticos entre cortesões que, disfarçados e confiantes no anonimato, divertiam-se nos festejos. Daí foi um pulo evoluir para comemorações populares, onde nobres e plebeus misturados davam vazão às suas alegrias.

Tais festas aportaram no Brasil em 1808, quando da fuga napoleônica de Dom João VI e sua animada corte. Sim, carnaval e máscaras há muito andam juntos. 

Já no século XIX, as máscaras de pano, para cobrir a boca e o nariz, eram usadas por cirurgiões de modo a impedir a disseminação de perdigotos, gotículas e restos alimentares à ferida cirúrgica.

Foram aperfeiçoadas e melhoradas com a evolução da microbiologia e conceitos de higiene vindouros. Na saúde, além de serem usadas por médicos e paramédicos para evitar contaminações, também são destinadas à proteção de pacientes imunodeprimidos.

Atualmente, mediante a pandemia Covid-19, vêm sendo usadas tanto para reduzir a dispersão do vírus, bem como para proteger as pessoas da contaminação. Associadas a cuidados como a higiene geral, lavagem das mãos e isolamentos social, auxiliam no controle da propagação da doença. 

Por ora, ativos influenciadores sociais e ciosos futurólogos de plantão, apresentam a velha máscara como uma novíssima barreira mecânica que protege as “outras” pessoas. Tal artefato, tão antigo e corriqueiro, desperta a responsabilidade social quando o “eu” utiliza a máscara. Assim, no futuro próximo, as máscaras serão símbolo de empatia e solidariedade, com implicações epidemiológicas nada desprezíveis e – temporariamente – inesquecíveis. Certamente e doravante, por causa das máscaras, o mundo não será mais o mesmo. Pelo menos é o que dizem os neo-teóricos crentes nas mudanças e nos bons ventos que está o por vir.

De minha parte, com o ceticismo desenvolvido e aperfeiçoado ao longo de treze lustros de existência terrena e, portanto, já adentrado aos anos, creio que pouco ou nada irá mudar no pós-pandemia – como não houve nas anteriores.

Em se tratando de disfarce, defesa ou recíproco interesse, seria muito bom – e definitivamente redentor para a humanidade – se após uma desgraça de tamanha envergadura e intensidade, as pessoas em geral e nós mesmos, deixássemos de usar as outras fáticas máscaras que nos perseguem e atormentam desde o nascimento.

Falo das máscaras asquerosas do cinismo, escárnio, indiferença, maldade e exibicionismo que afetam tantos a tanto tempo; falo da cara de pau dos políticos velhacos, egocêntricos e arrogantes, que de tão mascarados perderam a própria vergonha na cara, e não se importam de nos molestar diariamente em redes sociais ou mesmo em casa pela televisão ao infligir seus engodos e malfeitos constantes.

Falo ainda da máscara infame da moral e da ética que foram impostas desde a infância, e que nos incapacitam a reagir ante tiranias, injustiças e tabus, além de nos fazerem eternos carregadores de culpas e desamores.

Falo das máscaras que nos levam aos templos orar a Deus e odiar ao próximo.

Sim, todas essas máscaras deveriam deixar de existir para sempre, para que de fato resultasse um mundo melhor, mais feliz, compreensivo e verdadeiramente solidário.

Mas vamos convir que tais seculares distorções, por certo, não foram causadas por uma mera alteração maligna de RNA viral do morcego e nem iniciaram na China em 2019. Se assim admitido e concordado pelos leitores, a essa altura da história, entendo que seria propícia e necessária uma mudança radical no próprio DNA humano, este sim, já bastante avariado pelas máscaras e demais vícios aceitos, cultivados e consagrados há milhares e milhares de anos pela nossa errante e recalcitrante raça.

 

Dr. Alcides Mandelli Stumpf

Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras

 

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