25°C
Erechim,RS
Previsão completa
Euro R$ 6,49 Dólar R$ 5,59
0°C
Erechim,RS
Previsão completa
Euro R$ 6,49 Dólar R$ 5,59

Publicidade

Geral

Visibilidade trans: Data reforça a luta pela cidadania e acesso aos direitos

Reportagem do Jornal Bom Dia conversou com a transexual Giovanna Deotti Alves, para entender um pouco o cenário em Erechim

Data sugere a superação do preconceito, da transfobia e, sobretudo, reafirma a luta pelo acesso aos
Giovanna Deotti Alves
Por Amanda Mendes
Foto Divulgação

Uma história marcada por obstáculos, receios, mas também, por muita defesa pelos direitos da população transexual e travestis: essa é a trajetória de Giovanna Deotti Alves de 21 anos, natural de Itatiba do Sul e que reside em Erechim há oito anos. No dia da visibilidade trans, comemorado anualmente em 29 de janeiro, a reportagem do Jornal Bom Dia, conversou com Giovanna para entender um pouco do cenário caracterizado pela violação de direitos.

 

“Infelizmente, nessa data, nós relembramos os amigos que perdemos, afinal, viver em um país campeão de transfobia é um desafio e nossa expectativa de vida, em torno de 35 anos, é algo assustador. Sobretudo, é com luta, conscientização, ocupando espaços, que antes nos eram negados, e com diálogos que vamos mudar esse panorama de medo”, pontuou.

A história de Giovanna

A transição do município itatibense para a Capital da Amizade oportunizou que Giovanna vivenciasse novas experiências e cada vez mais pudesse se conhecer. “Como nasci no interior o tema da transexualidade não era conhecido em meu ciclo social. Já com 13 anos, quando me mudei para Erechim, pude ter contato com pessoas trans e aos 18 anos comecei a perceber que algo faltava em minha vida. Esse espaço foi preenchido quando participei de uma peça em que eu representava um papel feminino e descobri que na verdade eu era transexual”.

Após muitas incertezas de como a família iria recepcionar sua sexualidade, Giovanna relata que decidiu contar no dia do aniversário de sua mãe. “Não sei se foi a melhor decisão, até porque, de qualquer forma seria um choque, pois ninguém espera isso de um filho. No mesmo momento que contei, saí de casa e fui morar em uma pensão. Tentei me sustentar sozinha, procurei emprego, mas o ‘não’ era recorrente, às vezes eu até sentia que queriam me contratar, mas ficavam receosos. Assim, tentei mudar para outros estados, mas os ‘nãos’ persistiam, foi então que encontrei a única chance que teria para sobreviver: a prostituição”, relatou.  

Nesse período, o contato com a violência tornava-se constante e ela decidiu retornar para Erechim, recomeçar sua trajetória e ingressar no ensino superior. “Percebi que não poderia continuar vivendo desta maneira quando assassinaram uma amiga ao meu lado. Fiz as pazes com minha família, reencontrei amigos que me auxiliaram nesse processo e recomecei”, acrescentou.

Diretora de Políticas LGBT da UEE

Em 2019 Giovanna se tornou diretora de Políticas de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul (UEE). “Esse fato não marca apenas minha história, mas também a da UEE, pois me tornei a primeira transexual a assumir essa função. Isso me trouxe alegria, mas também muita responsabilidade, bem como, me ajudou a ter fôlego para continuar minha graduação e a acreditar em um mundo melhor para esse grupo social”.

O cenário erechinense

Para Giovanna, apesar de ser uma cidade em constante crescimento e desenvolvimento, Erechim ainda possuí características interioranas que interferem na maneira como a sociedade convive com as pessoas LGBT. “É uma cidade grande, mas ainda é muito difícil lidar diariamente com piadas, comentários pejorativos, xingamentos e olhares ‘tortos’”.

No mundo do trabalho, as dificuldades também estão presentes. “A questão de emprego também é complicada, pois são poucas empresas que contratam pessoas trans. O mesmo ocorre com relação ao acesso à terapia hormonal que é bem burocrática, e não são todos profissionais que estão aptos para fazer o atendimento. Assim, as pessoas trans acabam não procurando o serviço de Saúde”, complementou.

Mesmo com todos esses impasses, a expectativa ainda é animadora. “A Secretaria Municipal de Saúde está em constante diálogo conosco, tentando mudar essa situação e garantir o básico que é o acesso à saúde. O cenário trans em Erechim está ganhando espaço, essa união acaba dando forças para que nossas demandas sejam escutadas”, afirma Giovanna.

Sobre a data

Conforme a Agência Brasil, o dia 29 de janeiro foi consagrado como Dia da Visibilidade Trans – população que engloba travestis, bem como homens e mulheres trans, para marcar uma das primeiras iniciativas públicas contra a transfobia, a campanha Travesti e Respeito: já está na hora dos dois serem vistos juntos, lançada em 2004 pelo Ministério da Saúde.

Sendo uma data para superar o preconceito, a transfobia e, sobretudo, endossar a luta pelo acesso a direitos e a cidadania, Giovanna destaca que é um dia especial para reafirmar a identidade trans. “Não apenas para os outros, mas para nós. Essa data surge como proposta para mostrar que existimos e resistirmos. Nos últimos anos tivemos diversos avanços, como o direito a mudança de nome, a obrigação ao respeito do nome social em espaços públicos e ser retirada da lista de distúrbios mentais pela Organização Mundial da Saúde (OMS)”, concluiu. 

Leia também

Publicidade

Publicidade

Blog dos Colunistas