0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Segurança

Lideranças femininas se unem para combater os altos índices da violência de gênero na região

Evento foi realizado na manhã de quarta-feira.jpg
Representantes de diversas entidades e lideranças de quase todos os municípios da região participara
Delegada, Raquel Kolberg, e juíza, Lilian Paula Franzmann, realizaram palestras e apresentaram os nú
Por Alan Dias
Foto Alan Dias

Elaborar propostas de ações para combater a violência de gênero no Alto Uruguai. Este foi o objetivo do Encontro Regional de Lideranças Femininas, realizado na manhã de quarta-feira (4), em Erechim.

O encontro foi proposto pela vereadora, Sandra Picoli, e realizado na Câmara Municipal de Vereadores, dentro da campanha internacional 16 Dias de Ativismo contra a Violência de Gênero. A programação contou com palestra da delegada titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), Raquel Kolberg, e da juíza titular da 2ª Vara Criminal e diretora do Fórum de Erechim, Lilian Paula Franzmann, que apresentaram números assustadores da violência contra as mulheres e crianças em Erechim e região.

Após, os participantes, de quase todos os municípios do Alto Uruguai, foram separados em grupos para discutir e desenvolver ideias de enfrentamento à situação nas áreas de segurança, política, educacional, da saúde, entre outras. O evento finalizou com a criação de um documento com os projetos propostos, que será entregue para lideranças e autoridades.

 

1800 casos em andamento

Aproximadamente 1800 procedimentos envolvendo violência contra a mulher estão em andamento hoje, na DEAM, e os dados se referem apenas aos três municípios da área de abrangência da Delegacia Especializada: Erechim, Quatro Irmãos e Paulo Bento.

Conforme a delegada Kolberg, entre fevereiro e outubro deste ano foram registradas em torno de 150 ocorrências por mês. Ameaça, lesão corporal e ofensa são as mais comuns.

No período, a DEAM cumpriu ainda mais de 50 mandados de busca e apreensão de armas de fogo e é a Delegacia que mais efetua prisões na região, foram 26 agressores detidos.

 

70 estupros

Este ano, a DEAM contabilizou 70 casos de estupro, sendo 42 contra vulneráveis (crianças e adolescentes), e em mais da metade, as vítimas foram crianças, e 28 de vítimas não vulneráveis (adultas).

“Temos um número expressivo de estupros, e diria que é uma peculiaridade local. Na maior parte entra familiar como autor e atinge crianças na maioria das vezes. Esses são os dados e é com essa realidade que a Delegacia da Mulher trabalha. Eu não consigo atualizar a tempo, porque todos os dias vai ter um novo dado”, relata a delegada.

“A violência contra a mulher é sim um problema presente, e cada vez mais. Muitas vezes sou questionada se são os casos que aumentam ou se são os números (de registros, denúncias). Eu espero sinceramente que sejam os números, as denúncias”, completa Kolberg.

 

Machismo reproduzido

Para a delegada titular da DEAM, Raquel Kolberg, tamanha violência vem da possessividade, de um sentimento de ‘eu sou o dono desta mulher’ e não destoa de municípios do porte de Erechim no Brasil e no mundo. “Não é um problema local, não é um problema do país, é mundial. É uma cultura machista que vem sendo reproduzida a muito tempo”, diz a delegada.

Além do atendimento à mulheres e crianças vítimas de violência, agora a DEAM cuidará dos casos envolvendo grupos vulneráveis, como idosos e transexuais.

 

Recorde de estupro

A juíza, Lilian Paula Franzmann, lembrou que, conforme o Atlas da Violência 2019, 13 mulheres são assassinadas por dia no Brasil, sendo que oito dessas mulheres são negras. Em 2018 ocorreram no país 1.206 feminicídios e em 88% dos casos o assassino foi o companheiro ou ex-companheiro da vítima. “O ano passado teve o maior número de estupros já registrado no nosso país. Foram mais de 66 mil casos, o que corresponde a 180 estupros por dia. Mesmo com esses índices absurdos, é comum que a gente ouça da população, da imprensa e do próprio sistema judicial, incluindo aí as policias, a justiça de um modo geral, um questionamento em relação às atitudes da vítima. Se ela bebeu demais, usou roupas de menos, ou se ela saía demais ou se tinha muitos namorados. Isso continua acontecendo, em decisões judiciais, é recorrente em atendimentos na polícia, isso é recorrente”, alertou Franzmann.

 

Massacre

Para a juíza, “não se pode mais ignorar aquela violência que é praticada em face da identidade de gênero e orientação sexual no Brasil. Entre janeiro de 2008 e dezembro de 2016 foram registrados 802 assassinatos de pessoas trans no nosso país. É o país que mais mata travestis, pessoas trans e transexuais. E ninguém fala sobre isso. Não há mais como a gente fechar os olhos para esse massacre que está acontecendo em função da orientação sexual ou da identidade de gênero. A violência de gênero existe, está acontecendo, é assustadora e precisa ser enfrentada. Precisamos reconhece-la para partir para o segundo passo, que é a modificação desse cenário”.

 

Trazer para o debate

A juíza Franzmann defende ainda que é necessário trazer as empresas, comerciantes e indústrias para o debate. “A gente sabe que existe uma situação bastante séria de assédio sexual em relação às funcionárias mulheres, em empresas, industrias, no comércio de um modo geral. Então, a gente precisa começar a trazer esse setor para o debate. Eles precisam apoiar as vítimas, ter política de atendimento para as vítimas em seus locais de trabalho. Infelizmente o que eu vejo aqui na região, que muitas mulheres me contam na Sala de Audiência, é que elas estavam trabalhando em X, Y, lugares aqui de Erechim e que, pelo marido ou ex-marido, contra quem elas já tinham medida de proteção, irem lá ficar perturbando, incomodando, elas foram demitidas. Então a gente precisa modificar isso, não está correto. Aqui na nossa região a gente já tem empresas com porte suficiente para adotar algumas políticas e estratégias para enfrentar isso. Tenho como plano chamar algumas das maiores indústrias que a gente tem aqui para conversar, mas acho que essa deve ser uma preocupação de todos nós”.

Publicidade

Blog dos Colunistas