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‘O caminho da paz tem como foco a educação’

Afirmação é do especialista em governo, politica, contraterrorismo e conflito árabe israelense, André Lajst, que esteve em Passo Fundo na noite de terça-feira (29)

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Lideranças da comunidade judaica de Erechim acompanharam o debate em Passo Fundo. Da esq. à dir.: Ju
Por Salus Loch
Foto Divulgação

André Lajst nasceu em São Paulo e fez Aliah (retorno a Israel) em 2006. Bacharel e mestre pela IDC Herzlyia, se especializou em governo, politica, contraterrorismo e o conflito árabe israelense. Serviu ao exército de Israel por dois anos e oito meses, quando atuou como pesquisador na Força Aérea. Neto de sobrevivente do Holocausto (seu avô matou um nazista durante a fuga do campo de extermínio de Sobibor), André é o atual diretor executivo da organização educacional StandWithUs Brasil e palestra sobre diversos temas de Israel e sua relação com os demais países do Oriente Médio e do mundo. Foi nesta condição que esteve em Passo Fundo na noite de terça-feira (29), durante evento organizado pelo curso de Direito da IMED, com o apoio da Federação Israelita do RS, quando, além de falar por cerca de 1h30min sobre ‘Israelenses e Palestinos: como alcançar a paz’?, concedeu entrevista exclusiva ao Bom Dia.

A seguir, os principais trechos do bate-papo. Confira:

 

O Sr é uma das vozes respeitadas no Brasil, e fora daqui, quando se trata do conflito árabe-israelense. Qual a importância deste debate?

Estamos diante de um dos conflitos mais falados do mundo que, no entanto, é pouquíssimo conhecido de fato. Por questões que envolvem agendas políticas antagônicas, as pessoas acabam afastando o diálogo quando o tema se evidencia. Entendo, porém, que precisamos de responsabilidade e do diálogo para resolvermos o impasse no Oriente Médio. Dessa forma, refletir sobre a geopolítica, trazendo à baila aspectos ligados à segurança internacional com base em dados e fatos cientificamente comprovados é determinante para a necessária construção de um entendimento, debelando, por tabela, assuntos afins, como o antissemitismo.

Nos últimos dois anos, estive duas vezes em Israel. Sinceramente, não vi perspectiva – conversando com ambos os ‘lados’ – da celebração de um acordo de paz entre judeus e árabes. Sou pessimista demais?

Tecnicamente é possível encontrar a paz, mas, como disse antes, será preciso o amadurecimento do diálogo de ambos os lados. O problema é que, por vezes, a narrativa agressiva, responsável por sustentar as lideranças palestinas no poder, contamina a discussão e faz com que a ‘rua árabe’ não entenda que o judeu tem direito a viver num país soberano. Afinal, caso seja assinado um acordo que zere o conflito e os movimentos, a Organização para Libertação da Palestina deixaria de existir – o que não interessa a determinados grupos.

Além do diálogo, objetivamente, o que precisa acontecer para uma ‘paz definitiva’?

O caminho da paz tem como foco a educação. Além disso, há quatro pilares que devem ser observados. Eles envolvem aspectos políticos e de segurança, além da observância da questão dos refugiados e das fronteiras (assentamentos). Olhando sob o prisma de Israel, ele deve fazer o possível para que a Palestina tenha um Estado, sem, no entanto, cometer ‘suicídio’. Ou seja, sem abrir mão de condições de defesa.  

O Sr defende a criação de um ou dois Estados (Israel e Palestina)?

Dois Estados, que faça jus à vontade de ambos os povos.

O relacionamento entre Israel e a Faixa de Gaza sempre foi conflituoso. Há, porém, quem entenda que a mídia tende a atacar mais um lado do que outro. O Sr concorda?

Em partes, sim. Israel concentra o terceiro maior número de jornalistas estrangeiros do mundo. Em Gaza, especificamente, existem diversos jornalistas palestinos contratados pelas principais agências de notícias como Reuters, AP, AFP. Ocorre que Gaza está sob domínio do Hamas, não havendo liberdade de imprensa. Os jornalistas trabalham sob constante ameaça ou são coagidos a divulgar matérias, colocando Israel como o culpado de tudo que ocorre de ruim na região; o que não é verdade. Mesmo organizações internacionais, que servem de fonte para jornalistas, têm dificuldade em verificar e transmitir dados aos jornalistas, porque o o Ministério da Saúde, o IML e outras instituições governamentais são controladas pelo Hamas. A única forma de mudar o cenário seria ou o fim do governo totalitário do Hamas em Gaza, e por consequência a conquista da liberdade de imprensa, ou os principais veículos de comunicação e mídia do mundo cessarem de publicar matérias, cujas fontes são provenientes da Faixa de Gaza.

Há quem diga que Israel pratica o apartheid. Qual sua posição sobre isso?

Israel é o oposto de um Estado de apartheid. É uma democracia multicultural e o único país livre no Oriente Médio, de acordo com a Freedom House. A lei israelense consagra direitos iguais para todos os cidadãos, e as minorias participam ativamente da vida pública.  Israel tampouco pratica o apartheid na Cisjordânia e em Gaza. Os palestinos não são cidadãos do Estado judeu e a grande maioria não quer ser. Eles são governados por seus próprios líderes (Hamas e Autoridade Palestina) e desejam ter autodeterminação em seu próprio Estado. Medidas israelenses, como postos de controle e a barreira de segurança, não existem para separar pessoas com base na religião ou etnia, mas sim para proteger civis israelenses de todas as origens e contra grupos terroristas racistas. Quando os líderes palestinos aceitarem a paz, essas medidas se tornarão desnecessárias.

Como o Sr encara a crescente onda antissemita no mundo?

É preocupante. Os ódios são cíclicos. Muitos não aprendem com o passado. Antes, era o povo judeu o visado; mas, agora, é o Estado de Israel. O novo antissemitismo é marcado pelo ‘anti-israelismo’ – que é o antagonismo ideológico à simples existência do Estado de Israel. Infelizmente, contudo, não creio que tais movimentos desaparecerão, assim como o racismo e outros ismos. Em determinado momento, eles até podem ser colocados de escanteio, mas sem educação e conscientização, nada vai mudar.

O segredo

Israel, que é do tamanho de Sergipe, tem um PIB de quase US$ 370 bilhões, de acordo com dados do FMI. Ao site ‘OBrasilianista’, André Lajst respondeu qual seria o segredo, aqui reproduzido:

“Israel foi constituído por judeus imigrantes e judeus que já moravam na região com o objetivo de construir uma sociedade igualitária, justa e com forte avanço em educação. Durante muitas décadas, foi um país socialista com muitas empresas estatais. As ameaças existenciais contra Israel ao longo de sua história criaram nos cidadãos forte senso de sobrevivência. O país foi obrigado a construir um sistema de defesa amplo, complexo e autossuficiente. Neste sentido, Israel desenvolvia muita tecnologia militar buscando estar alguns passos à frente dos seus vizinhos, até então, hostis. Na década de 1990 e início dos anos 2000, após Israel passar por hiperinflação, modernizar sua economia e abrir para investimentos externos, o Estado viu um crescimento surpreendente. Decidiram então investir 4% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, e o resultado disso é o maior polo de inovação do planeta, com 8,8 mil empresas de alta tecnologia. Todos os anos, mil novas empresas de inovação são abertas, o que atraiu bilhões de dólares de investimentos estrangeiros. Assim, Israel enriqueceu, melhorou seu investimento militar, transformando-se no 8º país mais poderoso do mundo e a 32ª economia do planeta”.

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