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Segurança

Disputa de facções leva medo ao maior bairro de Erechim

Casal foi surpreendido pelos atiradores.jpg
Atirador disparou diversas vezes contra as vítimas.jpg
Por Alan Dias
Foto Vídeo/Reprodução

Pouco depois das 21h30min de sexta-feira (25), sirenes de diferentes órgãos de segurança cortaram o centro de Erechim e atiçaram a curiosidade de quem viu ou ouviu as viaturas. Poucos minutos depois veio a informação. Um intenso tiroteio havia deixado feridos no bairro Progresso.

Guarnições da Brigada Militar e ambulâncias deslocaram para atendimento das vítimas e duas pessoas, um rapaz, de 19 anos, e uma adolescente, de 15 anos, haviam sido baleados.

Na manhã de sábado (26), moradores da região entraram em contato com a reportagem do jornal Bom Dia. Queriam desabafar. Estavam com medo. “Moro aqui há mais de 20 anos, sempre tivemos alguns problemas com crimes, mas nada como agora.  O que está acontecendo eu nunca tinha visto nesses anos todos em que moro aqui”, relata uma moradora.

“O tráfico está correndo solto. Traficantes, desde jovens até velhos, estão tomando conta, tentando tomar o bairro. As pessoas de bem estão ficando encurraladas, não tem para onde ir. Vão fazer o quê? Vender suas casas?”, questiona outro morador.

Um terceiro residente do bairro, que também conversou com a reportagem, falou ainda que o tráfico é diário e que pessoas de fora, desconhecidos chegam com frequência à região, se instalam e passam a comercializar entorpecentes. “A movimentação é 24 horas por dia. Seguidamente vemos pessoas estranhas chegando e vindo morar no bairro, pessoas que nunca vimos. E te digo, isso é mantido por ricos”.

 

O tiroteio de sexta-feira

De acordo com vídeo que circula pela internet, três pessoas conversavam em via pública e uma quarta passava pela rua quando dois indivíduos, usando bonés, jaquetas e bermudas chegam ao local e abrem fogo. Um dos jovens consegue fugir e é perseguido por um dos atiradores. O rapaz que estava na via, também foge e o casal que permanece no local, é atingido à queima-roupa. Diversos tiros são disparados e as vítimas caem na via pública. O atirador então, segue atrás do comparsa. Pouco depois, mais um indivíduo surge, aparentando estar armado, parece conversar com uma das vítimas e foge na sequência.

O casal foi socorrido pelas ambulâncias do Samu e Corpo de Bombeiros Militar e encaminhado para atendimento médico na Fundação Hospitalar Santa Terezinha e até a noite de segunda-feira (28), permanecia internado e fora de risco. A maioria dos tiros teria atingido as pernas dos jovens.

Em outro vídeo é possível ouvir diversos disparos em sequência. Conforme uma moradora das proximidades “foram uns 20 tiros que ouvimos”.

A polícia realizou buscas pelos suspeitos, mas eles não foram localizados.

 

Novo tiroteio no sábado

No sábado (26), um novo tiroteio foi registrado. Passava das 16h30min quando a Brigada Militar foi informada sobre diversos disparos de arma de fogo sendo efetuados no bairro. Os atiradores fugiram em um Gol, de cor azul, e ninguém teria ficado ferido.

Guarnições iniciaram buscas pelos suspeitos e localizaram o carro estacionado em frente a uma casa na Rua Euclides Grazziotin, bairro Poletto.

Quando uma viatura se aproximava, um indivíduo que estava junto ao carro, correu para o pátio da moradia e fugiu pelos fundos, não sendo mais localizado.

Os policiais entraram na casa e lá encontraram 96 gramas de cocaína; 54 gramas de maconha, 49 gramas de crack e duas bananas de dinamite.

Devido à presença dos explosivos, o local foi isolado e acionado o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) de Porto Alegre para recolher os explosivos. Na tarde de domingo (27), os artefatos foram levados para local afastado e detonados.

 

Situação semelhante

Entre o final do ano passado e início de 2019, o bairro São Vicente de Paulo viveu situação semelhante à que acontece agora na região do grande Progresso. Traficantes se instalaram no local, passaram a comercializar entorpecentes e a situação foi se agravando, com homicídios em sequência, pessoas baleadas e até moradores sendo expulsos de suas casas.

As forças policiais intensificaram as ações, realizaram diversas prisões, apreensões de armas e drogas e a situação foi controlada.

Em março deste ano, em entrevista para o jornal Bom Dia, o delegado titular da Delegacia de Polícia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO), Gustavo Vilasbôas Ceccon contou que facções da região metropolitana estavam tentando se instalar em Erechim e expandir, o que resultava em confronto entre organizações rivais. “Para demonstrar poder, muitas vezes eles cometem homicídio, mostram força assim e amedrontam tanto os traficantes rivais quanto as pessoas que moram nestes locais. Às vezes eles querem uma determinada casa para instalar ponto de tráfico, eles ameaçam a família, tiram a família da casa. Então, para quem vive nestes locais onde está ocorrendo isso aí, é muito complicado, é uma vida muito difícil. Você não sabe qual será a reação do criminoso, tu tem que obedecer ordens e se não obedece, tu não sabe o que pode te acontecer. Tu pode apanhar, ser agredido, tu pode até ser morto. Teve um dos assassinatos ali (São Vicente de Paulo), em que a ordem da facção era justamente para que ninguém furtasse no bairro, aí desconfiaram que a vítima teria furtado e ela acabou pagando com a vida”.

 

A chegada das facções

Os primeiros sinais de que facções haviam chegado a Erechim surgiram através de pichações em muros dos bairros de Erechim, depois, a Brigada Militar passou a encontrar indivíduos de cidades da região metropolitana durante abordagens de rotina nestes locais. Todos possuíam fichas criminais, andavam armados e frequentemente era descoberto que estavam em situação de procurados ou foragidos em seus municípios de origem.

Na sequência iniciaram os relatos de trocas de tiros, residências sendo alvejadas por diversos disparos e pessoas sendo emboscadas. Então começaram os desaparecimentos e corpos sendo encontrados em matagais e locais ermos. A polícia já investigava a presença das facções e efetuava prisões.

“Em 2017 surgiram conversas de que algumas facções, com origens na região metropolitana e na capital, estariam tentando se instalar em Erechim. Elas têm suas denominações, são rivais e algumas delas teriam vindo para a região. Isso é um fenômeno que não acontece só em Erechim, mas em todo o interior do estado praticamente”, explicou o delegado na entrevista feita em março.

Inicialmente membros destas facções estariam chegando a Erechim e recrutando criminosos nativos, mas com as prisões de praticamente todos os recrutados, passaram a enviar membros que atuavam em suas cidades de origem e também armamento.

A maioria dos homicídios relacionados à disputa pelo tráfico de drogas tem como marca principal a brutalidade. Espancamentos, pauladas, apedrejamento, esquartejamento e corpos incendiados. No caso citado por Ceccon, onde em dezembro de 2108, Luís Carlos Guedes, 48 anos, foi assassinado no bairro São Vicente de Paulo, por suspeita de furto, a vítima foi “espancada até a morte, com a utilização de pedras e outros objetos, ficando com a face praticamente desfigurada”.

 

Quais são as facções

Em março o delegado contou que algumas organizações já estão instaladas no município e foram identificadas pela polícia, outras, estão tentando se instalar. “Desde o início do ano já identificamos pelo menos três organizações criminosas operando aqui no município. Temos grupos estabelecidos e outros querendo se estabelecer. Se intitulam usando alguns nomes, tem gente que diz que faz parte dos Abertos, tem quem diz que faz parte dos Manos, dos Balas na Cara, dos Anti-balas, então, tudo isso está sendo analisado. Muitas vezes, pode ser que sim, que façam parte desses grupos, outras vezes não, falam para servir como algum tipo de ameaça aos rivais e amedrontar os moradores”.

Conforme Ceccon, uma das dificuldades em acabar com as organizações está na rapidez com que eles recrutam novos integrantes. “A gente tira eles de circulação e dias depois, a facção já começa recrutar novos integrantes”.

Outro e crucial ponto seria a necessidade de mudanças no sistema prisional. “Quando é que isso vai parar? Quando tivermos um sistema prisional confiável, quando o sujeito realmente fique segregado”.

 

Recrutamento de adolescentes

Uma das dificuldades encontradas pela polícia para conter o avanço das facções está no fato de as organizações criminosas estarem recrutando adolescentes, tanto em cidades maiores como menores, inclusive naquelas ainda consideradas pacatas.

Durante o II Encontro Municipal sobre Medidas Socioeducativas: Refletindo o Ato Infracional através de Experiências do Meio Fechado, realizado no início deste mês em Erechim, o Analista em Psicologia do Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE) de Passo Fundo, João Paulo Jacomini, relatou que “muitos dos adolescentes de Erechim (não necessariamente são de Erechim, mas estavam no município) que chegam ao CASE, integram alguma facção. Temos que levar esse assunto muito a sério”.

Segundo ele, as facções estariam recrutando “em municípios pequenos para depois tentar entrar nos mais estruturados”.

 

Faz sentido para eles

O analista frisa que muitas vezes estes adolescentes recrutados “foram criados em uma realidade diferente e só conhecem aquela. Então a gente (CASE) busca mostrar outras realidades e verdades”.

“Muito antes de eles se tornarem adolescentes, já vão aprendendo sobre hierarquia e ordens. Precisamos olhar para as causas. Eles vivem uma vulnerabilidade subjetiva, querem ser alguém, ter importância. Se tratam pelos apelidos. Tudo isso faz sentido para eles, está ao alcance deles. Estamos perdendo uma guerra silenciosa para o tráfico de drogas e o crime organizado”, diz.

Ainda segundo Jacomini, uma das formas de aliciamento usada pelos criminosos foca diretamente em fazer que o adolescente se sinta importante e que sua família será protegida. “Tu vai lá e faz, tu é de menor, vai ficar dois, três aninhos (apreendido). Se for eu, vou ficar 18 anos. Vamos cuidar da tua família”, argumentam.

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