No artigo anterior destaquei que trabalhos científicos sobre a obra de Riopardense de Macedo concluíram que ele era um urbanista com intensa consciência coletiva, que entendia que projetar não é só decorar, mas criar um espaço com determinada finalidade para a comunidade, cuja criação merece cuidadoso estudo plástico e carinhosa dedicação.
Na procura da essência do projeto trago uma frase de um livro esgotado de Macedo, publicado pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, onde ele lecionou urbanismo por três décadas. Nele consta uma frase que ficou célebre nos meios do urbanismo e paisagismo:
“Um dia todos se reunirão fora de casa para a festa da vida. Formas, cores e sons para o banquete da existência. Não haverá ódios. Nem preconceitos. Nem medo... Por enquanto, vamos preparar os Espaços”.
A arquiteta Enilda Ribeiro, que foi presidente do IAB regional e nacional, quando homenageada no Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre, na comemoração do cinquentenário do prédio projetado por ela e pelo também arquiteto, Demétrio Ribeiro, citou esta frase em seu discurso. Observando-se o complexo projetado do colégio podem-se ver os grandes espaços existentes em frente às salas de aula e entre as edificações, o que foi pioneiro naquela época. Tudo para fomentar a convivência entre os estudantes, mestres, pais e funcionários.
O autor da frase, portanto, tinha grande confiança na coletividade. Acreditava que o convívio entre as pessoas, seus dissensos e consensos trariam a evolução humana para tempos melhores. Por esta razão na Praça da Bandeira e no canteiro central da Avenida há grandes espaços para convivência, o que era inédito até então no interior do estado.
Outro equipamento importante são os bancos com pés e braços de roda de carreta, idealizados por ele. Estes contêm três elementos. Do passado, do presente e do futuro. Do passado são as rodas de carreta, que retratam a origem rural do povoado. O elemento do presente é o restante da estrutura física dos bancos. Já o terceiro representa a essência do objeto, de caráter não físico, mas intrínseco, e aponta para o futuro, na fé que o criador tinha na convivência das pessoas e no que isso representaria para a construção de um futuro melhor.
Quando encontrei as pessoas de diferentes gerações ocupando os espaços do canteiro central da Avenida, sentadas naqueles bancos, juntamente com outras que de casa traziam cadeiras para ali conviver, conversar e tomar chimarrão, tive certeza da premonição de meu pai: “Um dia todos se reunirão fora de casa para a festa da vida ... Por enquanto, vamos preparar os Espaços”.
A essência do projeto de Riopardense de Macedo, portanto, na modesta opinião do autor deste artigo, é a abertura de espaços para a convivência da população, onde possam conversar, discutir e crescer humanamente.
Este resultado não é obra apenas do projeto, mas de sua implantação, conservação e saudável ocupação por parte do povo de Erechim.
Sergio Martins de Macedo
Advogado, Especialista em Direito Ambiental e do Patrimônio Histórico e Cultural pela UFRGS.