O governo brasileiro quer mudar algumas normas regulamentadoras de segurança e saúde no trabalho com o objetivo de reduzir as exigências feitas às empresas, as multas aplicadas às firmas, e com isso, gerar uma economia de R$ 68 bilhões em 10 anos. Inicialmente devem ser modificadas três dessas normas conhecidas como NRs. Hoje, o país tem 36 NRs que somam mais de 6 mil linhas distintas de autuação. No entanto, ao ver os números de acidentes de trabalho a realidade é assustadora. Falta ainda uma cultura de prevenção.
O consultor erechinense em segurança do trabalho, Tiago Dalla Rosa, que atua em todo o país, hoje sediado no litoral catarinense, afirma que é preciso olhar mais a fundo essa questão, já que o Brasil vive um cenário de guerra quando o assunto é acidente de trabalho. “Existe uma guerra silenciosa”, diz.
Conforme Tiago, o país “registra” em média 600 mil acidentes de trabalho ao ano, e a cada acidente notificado existem sete não notificados. “São quatro milhões de acidentes de trabalho ao ano, um a cada oito segundos”, afirma.
O consultor comenta que o número de mortes “registradas” chega a três mil por ano, oito por dia, uma a cada três horas. Além disso, 14 mil trabalhadores ficam incapacitados para o resto da vida anualmente.
Ele lembra que houveram oito mortes nas obras da Copa de 2014 e 11 nas obras para as olimpíadas, sendo o Brasil “recordista mundial em mortes nas obras de todas copas e olimpíadas”. Tiago cita o exemplo de Fábio Hamilton da Cruz, 23 anos, um dos três mortos nas obras da Arena Corinthians para Copa de 2014, que foi contratado como servente de pedreiro, foi obrigado a assinar um certificado de um curso de oito horas, sem passar por treinamento.
Tiago afirma que o custo gerado pelos acidentes entre trabalhadores com carteira assinada, segundo o economista José Pastore, que são notificados e identificados, é estimado em cerca de R$ 70 bilhões, no entanto pode chegar a R$ 100 bilhões.
A realidade é alarmante diz Tiago, de 2007 a 2013 o Brasil registrou a perda de um milhão de dedos no trabalho. “Os brasileiros mutilam ou incapacitam 135 mil dedos todos os anos em acidentes de trabalho. As mãos são as mais atingidas”, afirma.
“O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), mostra que os acidentes de trabalho oculares notificados chegam a 150 mil casos por ano. A fagulha de uma esmerilhadeira alcança uma distância de 11 metros a uma temperatura de mil graus”, observa.
Tiago observa que o trabalho em altura representa em média 40% dos acidentes em serviço no Brasil. Segundo ele, em média, 50% dos acidentes são causados pelos próprios trabalhadores, que relutam em cumprir os procedimentos e usar os equipamentos. E, acrescenta, “trabalhador irresponsável é aquele que recebe toda proteção necessária, mas não usa e quando é advertido fica ainda irritado”. O consultor enfatiza que os treinamentos são de responsabilidade do empregador e devem ser feitos em horário de trabalho.
O consultor comenta que o acidente da Vale do Rio Doce, em Brumadinho, Minas Gerais, talvez seja o maior acidente de trabalho da história brasileira. “Até então, o maior acidente de trabalho do Brasil foi o do pavilhão da gameleira em Belo Horizonte, uma obra de Oscar Niemeyer”, afirma.
Tiago comenta que o Brasil tem em torno de 2.500 auditores fiscais para fiscalizar mais de três milhões de empresas. “Com essa quantidade de agentes demoraria mais de 40 anos para fiscalizar a mesma empresa novamente”, diz.
“Só se usa o cinto de segurança porque é obrigatório, o capacete porque é obrigatório, e não porque é importante para preservar a saúde do próprio trabalhador”, diz.
Em países desenvolvidos as estatísticas mostram que a cada um dólar investido em segurança do trabalho gera um retorno de quatro dólares. Ele entende que o empregador está sufocado e precisa ser desonerado de muitos custos desnecessários e que são obrigatórios, mas que o caminho não é mexendo na questão da segurança do trabalho, porque se está falando de vidas.
O consultor ressalta que é preciso criar uma cultura de prevenção em tudo que se faz, das atividades mais comuns do dia a dia, no trânsito, na vida e no trabalho. Ter segurança não porque é obrigatório, mas porque é importante para valorizar a vida, para se cuidar e se preservar. O principal é supervalorizar as pessoas, mostrar que ela é a pessoa mais importante de alguém.
“É importante colocar o equipamento de proteção porque não se está só preservando a si mesmo, mas também a família. É preciso instituir uma cultura de prevenção porque você, trabalhador, é a pessoa mais importante da vida de alguém. A gente tem a obrigação de andar na linha para preservar a história de vida das famílias”, destaca.