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Agronegócio: “É possível produzir com menos agrotóxicos”

Estudos científicos feitos em Erechim na UFFS mostram que é possível reduzir o uso dos agrotóxicos sem prejudicar a produção das culturas. Trabalho do pesquisador Leandro Galon foi, recentemente, reconhecido internacionalmente.

Trabalho do pesquisador Leandro Galon foi, recentemente, reconhecido internacionalmente
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

Esse é o resultado de um estudo realizado em Erechim (RS) pelo agrônomo, professor, pesquisador e pós-doutor, Leandro Galon, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS – Campus Erechim). Recentemente, Galon publicou um trabalho de pesquisa numa revista internacional que ficou entre os 20 mais acessados do mundo. A pesquisa comprova que é possível reduzir as doses de agrotóxicos recomendadas em bula para plantas daninhas.       

“O experimento usou vários herbicidas, em alguns casos foi utilizado a metade da dose, e conseguimos o mesmo efeito de controle da planta daninha”, explica. O detalhe, observa Galon, com menor custo ao produtor, diminuição da contaminação e impacto ambiental, sem afetar a produção da cultura. “Produzindo o que tem que se produzir”, diz.

Investimentos em pesquisa

Um ponto importante da pesquisa é que ela foi feita no campus da UFFS em Erechim, na área experimental da universidade. O pesquisador ressalta que a constatação da redução do uso de agrotóxicos nas lavouras só é uma realidade devido ao fato de se investir em pesquisas em universidades e órgãos públicos. “A empresa vendedora de agrotóxico não vai fazer isso, ela quer vender porque esse é o negócio dela”, observa.

Culturas

Galon comenta que na pesquisa realizada com a cultura do feijão reduziu a dose de bula de dois litros por hectare para 1,2 litros por hectare. “E deu o mesmo resultado, com menor contaminação do ambiente, do produto e redução de resíduos”, afirma.  

O pesquisador cita o exemplo também de um trabalho realizado com a cultura da cana de açúcar, quando estava no pós-doutorado, em que houve redução de dose de 2 litros por hectare para 1,6 litros por hectares na aplicação. “Se pensar em oito milhões de hectares, reduzir 400 ml é muita coisa, tanto em reflexos ambientais quanto em recursos financeiros”, diz.

Como reduzir os agrotóxicos

O pesquisador afirma que é possível reduzir a dose e o uso de agrotóxicos desde que o produtor adote práticas de manejo na lavoura e tecnologias de aplicação dos agroquímicos. Conforme Galon, o produtor precisa trabalhar com cobertura de solo, palhadas de inverno, que podem ser de aveia e ervilhaca, ter cuidados e tecnologia na aplicação dos agroquímicos como equipamentos bem calibrados, pontas de pulverização adequadas, respeitando as condições do ambiente, por exemplo, estar atento a umidade relativa e temperatura.

Segundo o pesquisador, tendo cuidado com o manejo, usando tecnologia na aplicação, respeitando as condições ambientais, o produtor vai contribuir para evitar a deriva, deixando de afetar outras culturas “não alvo e os vizinhos”.

Efeitos práticos

Galon afirma que entre os efeitos práticos da redução do uso de agroquímicos está a economia de dinheiro e um menor impacto ambiental, e uma cultura menos contaminada. O pesquisador ressalta que a redução de agrotóxico se aplica a todas as culturas seja ela de soja, cana ou algodão. “O que se quiser”, diz. Ele ressalta que a diminuição no uso de agrotóxicos tem efeitos positivos tanto para o ser humano, como para a natureza e a produção de alimentos. “Para a sociedade como um todo”, diz.

Cultura da soja

Conforme Galon, há um trabalho em andamento sobre a cultura da soja, que está em fase de tabulação dos dados. Ele estima que possa chegar a 35% a redução de agroquímicos na lavoura da soja. “O que é bastante”, afirma.  

O pesquisador observa que está nessa linha de pesquisa desde o seu pós-doutorado em 2009. “Procurei ir para esse lado já que não se pode extinguir os agrotóxicos, é difícil o produtor produzir sem ele, mas pelo menos vamos reduzir a quantidade, o custo e a aplicação no ambiente”, afirma. E, acrescenta, “é possível produzir com menos agroquímicos, isso é uma realidade”.

Informações ao produtor  

O pesquisador afirma que para isso ocorrer o produtor precisa de instruções, receber informações que não sejam dadas pela iniciativa privada, por quem vende os agrotóxicos. “Hoje, quem dá assistência técnica é o vendedor, o dono da agropecuária”, afirma.

Outro ponto importante é a valorização do agrônomo. “Tem colega que ganha R$ 900 de salário e o resto é comissão, ele vai querer aplicar mais porque está desvalorizado e tem que sustentar a família dele também”, comenta.  

Segundo Galon, a redução dos agrotóxicos passa por muitos fatores, desde política pública de conscientização, valorização do profissional até a desvinculação da venda do agrotóxico e a receita.  

2,4 – D

Com relação ao herbicida 2,4 – D, o pesquisador sempre diz nas suas aulas de plantas daninhas e herbicidologia para evitar esse produto. “Porque tem várias alternativas, herbicidas com características próximas e que não tem volatilidade. Mas não são usados porque são mais caros que o 2,4 – D”, afirma.

Gotas grandes

Uma questão importante para quem utiliza o 2,4 – D é considerar a melhor época de se aplicar, trabalhar com o tamanho de gotas grandes na aplicação porque volatiliza menos.

Ele enfatiza que o produtor não usa a gota grande porque precisa aplicar mais água na lavoura, ao invés de 100 litros por hectares vai ter que usar de 150 litros a 200 litros por hectare. “Isso gasta mais tempo para abastecer o pulverizador, mais diesel, enfim, para economia de tempo e combustível”, observa.

No entanto, Galon ressalta que o recomendado é usar a gota grande no pulverizador e um volume de calda maior. “Isso fará bem para ele, para aplicação, porque não vai dar o efeito na uva do vizinho, na hortaliça, como já tem vários casos no RS”, afirma.

Ele se preocupa muito com o 2,4 – D porque está chegando uma soja resistente ao produto o que pode causar problemas na lavoura que não for resistente em áreas próximas. “Se eu uso e você não usa vai dar problema”, diz.  

Mudar o modelo produtivo   

Galon ressalta que continuar seguindo o atual modelo de agricultura não tem um futuro muito promissor. “Daqui cinco anos vamos perder todas as ferramentas químicas”, diz.

Solução   

Segundo o pesquisador, a solução é fazer a rotação de cultura, de produtos, nem sempre usar o 2,4 – D, glifosato, principalmente, ter diferentes mecanismos de ação que controlem as plantas daninhas. “Não cair na armadilha de ter plantas resistentes”, afirma.

De acordo com Galon, a rotação de cultura é muito eficiente, mais do que o produto químico. “Tenho trabalhado desde 2012 com rotação de cultura e sistemas de cultivos na área experimental da universidade e temos encontrado resultados maravilhosos, diminuição do banco de sementes de planta daninhas e espécies”, observa.

Ele enfatiza que o grande produtor também pode fazer a rotação de cultura, por exemplo, plantando na sua área 20% de milho e 80% de soja. No ano seguinte, planta soja nos 20% do milho e mais 30% nos 80% de soja. “Não precisa sair de toda a soja, faz por percentuais, 20%, 30%, 40%, mas o mais importante é que faça a rotação”, afirma. Ele acrescenta que o maior problema de hoje para manejar a planta daninha é o monocultivo.

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