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Vida Vivida: “É muito importante gostar do que se faz”

“Trabalhar é um divertimento”, afirma o sapateiro Evaldo Garcia de 82 anos que há 65 anos exerce a profissão com muita disposição e satisfação. Ao lado da máquina de costura Patent Elastic, verdadeira relíquia e sua companheira há 60 anos

“Tem que fazer com amor”, diz Evaldo
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

Cheguei na sapataria faltando poucos minutos para uma hora da tarde e já estava aberta. Almocei e saí um pouco antes da hora habitual para achar o local, não sabia onde ficava ao certo na Avenida Pedro Pinto de Souza. Quando entrei um alarme desses de porta soou bem baixinho, segundos depois apareceu o seu Evaldo Garcia. Disse para ele que queria entrevista-lo sobre seu trabalho de sapateiro, ele me olhou uns instantes e, em seguida, com sorriso no rosto me atendeu. Nos poucos minutos que ali fiquei fui muito bem atendido, por um senhor disposto, motivado, educado, que resumiu em poucas palavras a sua história de vida.

O sapateiro Evaldo tem de 82 anos e há 65 anos exerce a profissão com muita disposição e satisfação. “Já estou aposentado, mas continuo trabalhando porque é bom, é um divertimento. Gosto muito de ser sapateiro, se não gostasse já tinha largado. Tem que gostar do que se faz, isso é muito importante”, comenta.

Ele aprendeu a profissão com os irmãos mais velhos, hoje falecidos, que a época tinham uma pequena fábrica de calçados com nove empregados. “Eu tinha 12 anos e fui aprender com eles, daí em diante continuei até hoje. Fiquei uns anos com meus irmãos, depois fui para o quartel servir, na volta comecei a trabalhar por conta, e nunca mais parei de trabalhar. De vez em quando tiro umas férias”, afirma.

Segundo Evaldo ainda tem muita procura pelo serviço de sapateiro, ele não faz calçados novos, somente reformas, trabalha com couro, troca solados, faz pintura de bolsas e calçados de mulher. “A maioria do serviço é para as mulheres, tem bastante procura, nem venço o serviço, já que tudo é feito artesanalmente, manualmente”, diz.

Na sua avaliação, a profissão de sapateiro é muito boa, mas é preciso se dedicar. Como sapateiro conseguiu criar os quatro filhos e sempre tirou o sustento da família da sapataria. “Sempre lutando, mas chegamos lá”, diz. E, acrescenta, “tem que fazer com amor”.

Conforme Evaldo, ele já tentou ensinar a profissão a três jovens, dedicou tempo e recursos para repassar as técnicas e conhecimentos, mas nenhum deles quis continuar na atividade. “Depois que aprendiam não seguiam na profissão”, observa. Hoje, um dos seus filhos está seguindo os passos do pai.    

Para Evaldo, a tendência é que com o tempo a profissão de sapateiro deixe de existir. “Mais uns anos vai ser difícil, os próprios fregueses já falam isso: ‘em Erechim os sapateiros são velhos’”, diz.

Companheira de longa data   

Uma das principais ferramentas utilizadas pelo seu Evaldo, desde que iniciou a profissão, é uma verdadeira relíquia. A máquina de costura Patent Elastic é sua companheira há 60 anos e já passou por seis sapateiros, sendo Evaldo o sétimo. “Acho que é alemã, acredito que tenha quase 200 anos, é toda de ferro, só tem o cabinho de madeira e funciona muito bem”, afirma.

Ele lembra que comprou de outro sapateiro de Erechim em 12 prestações na época. “Isso já faz mais de 60 anos e funciona perfeitamente, ele me disse que já tinha passado por seis sapateiros. Costura para mais de um lado, com essa máquina consigo costurar até o bico, independente do sapato”, explica. 

Ele conta que um dia um colecionador do Paraná entrou na sapataria, há uns dois anos, e disse para ele fazer o preço que quisesse que compraria a máquina. “Insistiu muito para comprar, mas eu não vendi”, diz.

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