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2,4 – D volátil: ameaça a outras culturas

Com a queda das folhas do erval, prejuízos na cultura de erva-mate podem chegar a 30% por causa do 2,4 – D. Opção é usar o produto não volátil, já disponível no mercado, diz Zonin

Cultura da erva-mate é muito afetada com agrotóxico
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Divulgação

Já está comprovado que os agrotóxicos podem causar muitas doenças nas pessoas e a exposição permanente pode levar o agricultor a problemas sérios e até mesmo, ao suicídio. Os agrotóxicos também podem poluir o meio ambiente e destroem a biodiversidade. No mundo atual, a produção agrícola e de alimentos é dependente dos agroquímicos. Contudo, a cada dia fica mais evidente e comprovado o impacto e os prejuízos dos agrotóxicos em outras culturas. Um exemplo é o 2,4 – D, herbicida muito utilizado e que vem causando prejuízos em outras cadeias culturas. O mais importante é que há alternativas para mudar essa realidade. 

“Todos os agrotóxicos são problemáticos em termos de saúde e para o meio ambiente, mas, infelizmente, o mundo moderno e a agricultura, de modo geral, é bastante dependente desses agroquímicos”, observa o engenheiro agrônomo, mestre, Valdir Pedro Zonin, supervisor regional da Emater/RS Erechim.

Zonin também é produtor de erva-mate e preside a Associação dos Produtores de Erva-mate do Alto Uruguai (Aspemate), e representa esses produtores em âmbito estadual, num grupo de trabalho, juntamente com outras cadeias produtivas afetadas pelo herbicida 2,4 – D.     

O engenheiro agrônomo comenta que o próprio agricultor se obriga a utilizar o 2,4 – D na medida em que não existe produto alternativo ou quando existe exige mais mão de obra, e, hoje em dia, não tem mais mão de obra no campo.

Herbicida 2,4 – D

Segundo Zonin, o 2,4 – D é um herbicida que está afetando várias culturas no Rio Grande do Sul e no país inteiro. “Eu me refiro ao 2,4 – D volátil e há muitos herbicidas à base desse produto. Sendo volátil tendo vento ou não ele se desloca vários quilômetros depois de aplicado. Temos casos em que já foi achado a presença de 2,4 – D volátil em 15 quilômetros do local da aplicação”, afirma. Ele ressalta que o herbicida 2,4 – D realmente se movimenta para a vizinhança, independente de vento, deriva ou não deriva.

Principais culturas afetadas

O engenheiro agrônomo afirma que o herbicida 2,4 – D prejudica um ampla gama de culturas, muito importantes na produção de alimentos, renda e trabalho no campo.

“A viticultura é uma das culturas que mais sente o efeito do 2,4 – D, toda a cadeia estadual do vinho, Ibravin, estão muito preocupados com essa questão”, afirma. Segundo Zonin, a produção de maça, que é bastante expressiva no estado, também tem sofre muitos danos pelo 2,4 – D. Outra cadeia muito afetada é a da olivicultura, o cultivo das oliveiras, recente no estado, mas muito atingida, mas significativa na metade sul do RS.

Segundo Zonin, o setor de hortigranjeiros, cadeia expressiva no estado, muito importante no cultivo de alimentos, também é muito impactada pelo herbicida 2,4 – D, envolvendo aí a produção de tomate, melancia, melão, vagem, pepino entre outras culturas atingidas.

Erva-mate

Conforme Zonin, a cultura da erva-mate, outro importante setor agrícola estadual, também sofre muito os efeitos do herbicida 2,4 – D porque, nessa época do ano, os agricultores usam bastante para combater o inço na dessecação pré-plantio do trigo e para secar as perdas da colheita da soja que acabam germinando e virando planta invasora. Esse uso nos meses de maio e junho do herbicida prejudica a erva-mate.

Zonin observa que os produtores têm relatado, nos últimos anos, a queda significativa das folhas nos meses de maio, junho e julho. Eles estão preocupados e querem saber qual é a doença que está derrubando as folhas da erva-mate. No entanto, ele ressalta que sempre teve e vai ter doenças na cultura, mas que nunca derrubaram grandes quantidades de folhas. A resposta para essa diminuição das folhas é o uso do 2,4 – D nesse período. “Isso causa a desfolha da erva-mate”, afirma.   

Ele enfatiza que as perdas e prejuízos na cultura da erva-mate chegam a 30%. “Basicamente cai as folhas, o ramo fica danificado, há redução de crescimento e muitos prejuízos, sem sombra de dúvidas. Esses são os efeitos causados pelo 2,4 – D volátil”, diz.  

Produto não volátil

Conforme o agrônomo, já tem no mercado o 2,4 – D não volátil, semelhante ao glifosato e outros secantes que depois de aplicar não se movimentam no ambiente. O herbicida não volátil fica na propriedade em que foi aplicado, não se desloca, não tem deriva. “Vai ficar concentrado na área aplicada, a não ser que tenha vento e outros mecanismos que levem esse material”, afirma.

Segundo Zonin, a recomendação que se faz é que seja proibido no estado o uso dos produtos voláteis, essa é a tendência do grupo, e que sejam permitidos os não voláteis e, ainda, com recomendações, receituário agronômico e técnicas de uso. “Que não seja aplicado em dias que não tenha vento, deriva, nas horas mais quentes do dia, com todos esses cuidados”, diz.

Zonin destaca que o 2,4 – D volátil precisa ser freado, é muito destrutivo e traz muitos prejuízos as outras culturas. “A população que vive no meio urbano também acaba sendo contaminada. Então, não é justo, aqui continua, mas é proibido nos EUA e Europa, conforme o lugar há 10, 20 anos”, comenta.

Efeitos

A biodiversidade também está sendo afetada pelo 2,4 - D, e o mais grave ainda, além das plantas, o herbicida atinge a saúde humana e animal. “E aí entra a questão das abelhas, não é que o 2,4 – D mata abelha, porque é um herbicida, mas atua no organismo delas. A gente ainda não tem certeza absoluta qual é o princípio, mas sabe que desorganiza as abelhas a ponto que elas não encontram mais a colmeia e acabam morrendo por esse segundo motivo. Ou seja, é uma morte indireta”, afirma.  

Conforme Zonin, o efeito disso é devastador porque 60% das culturas dependem da polinização da abelha. “Tenho exemplo concreto de muitos agricultores que conheço e utilizaram o 2,4 – D no potreiro deles onde tinha colmeias de abelhas, e pouco dias depois, não tinha mais uma abelha dentro da colmeia”, afirma.

Consciência

O agrônomo enfatiza que o produtor deve procurar alternativas no mercado. “Não dá para continuar com o 2,4 – D volátil”, diz.

Segundo Zonin, a recomendação para agricultores, técnicos, lojas, cooperativas, agropecuárias, iniciativa privada, que vendem esses produtos é que tenham consciência, geral. “A humanidade tem que ser respeitada, assim como, a saúde das pessoas, abelhas e dos animais”, afirma.  

Ele acrescenta que as outras culturas afetadas têm que ser respeitadas, também tem direito de produzir. “Vamos procurar, vender, incentivar produtos, e se tiver que usar 2,4 – D que não seja volátil, para minimizar os impactos. O ideal seria não usar nenhum agrotóxico, já temos na região a produção de erva-mate agroecológico em Viadutos, Áurea, Centenário, produção agroecológica de hortifrutigranjeiros”, destaca.

Zonin afirma que é possível produzir sem veneno, e se não for possível cultivar de forma orgânica, pelo menos que se respeite o vizinho.

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