22°C
Erechim,RS
Previsão completa
Euro R$ 4,37 Dólar R$ 3,84
22°C
Erechim,RS
Previsão completa
Euro R$ 4,37 Dólar R$ 3,84

Publicidade

Geral

Andor Stern, o brasileiro que sobreviveu a Hitler

Stern
Por Salus Loch
Foto Divulgação

No dia 5 deste mês, uma parceria entre o Museu do Holocausto de Curitiba/PR e o Curso de Relações Internacionais da Universidade Positivo, promoveu encontro histórico entre dois sobreviventes do Holocausto: Gitta Heilbraun Schwartz e Andor Stern, ambos com 90 anos.

Em comum, além do bom humor e do desejo de 'seguir adiante', a dupla teve suas vidas eternizadas em obras literárias. A trajetória de Gitta me inspirou a escrever o romance 'A Tenda Branca'; enquanto Andor viu seus relatos se transformarem na biografia 'Uma Estrela na Escuridão', de autoria do historiador santista Gabriel Davi Pierin.

Ao lado de Gabriel, aliás, participei do encontro promovido pelo Museu e a Universidade na condição de mediador das falas de Gitta e Andor (André, em português, como prefere ser chamado). Ao final, tive a oportunidade de conversar demoradamente com o Sr Stern, o único brasileiro que sobreviveu a Hitler. Confira os principais trechos deste bate-papo:

O senhor nasceu no Brasil em 1928. Como foi parar no coração da Segunda Guerra - sendo prisioneiro de diversos campos de concentração e extermínio dos nazistas?

Fui para a Hungria com dois anos quando meu pai, que era médico no Brasil, foi transferido para Mumbai, na Índia, em 1930. Depois disso, em vez de voltarmos para cá, ficamos na Europa. Escolhemos o endereço errado em uma péssima ocasião. Quando o Brasil declarou guerra (em 1942, ao Eixo), virei refém. Tinha 14 para 15 anos quando fui preso em um campo de concentração pela primeira vez.

Quando os alemães ocuparam a Hungria, começaram a nos "empacotar" em vagões de trem e mandar para Auschwitz. Fui parar lá com minha família. Acabei sendo selecionado para o trabalho em uma fábrica de gasolina artificial, pois era um garoto bem desenvolvido. Mais tarde, acabei em Varsóvia, onde tive que limpar tijolos e concertar as estradas que os aliados haviam bombardeado, e depois, em um campo próximo a Dachau, já na Alemanha. Ainda fui levado a Mühldorf, Ampfing e depois para a Bavária. No meio disso tudo, dos 93 membros de nossa família, apenas quatro sobreviveram. Jamais voltei a ver meus pais.

Como era a vida nestes campos?

Não existia vida. Era terrível. Desacreditei em tudo. Vi coisas que jamais esquecerei, como um filho dando uma pedrada no pai, o que ocasionou a morte deste, por um pedaço de pão. Disputei comida com ratos e com outros prisioneiros. A fome era brutal - criei uma espécie de 'alimentação virtual' que me permitia imaginar que estava comendo coisas, que lá não existiam. Além disso, apanhei muito dos soldados da SS. Eles eram desumanos.

Em 1º de maio de 1945, um dia depois do suicídio de Hitler, o senhor foi libertado por soldados americanos, no Sul da Alemanha. Naquele instante, o que pensou?

Fomos libertados próximos a uma lago, nos Alpes. Pesava 28 kg. Pensei inicialmente que estava no céu. Depois, me questionei: daqui a 10 anos, o que eu quero? Conclui que queria ter um sapato que não machucasse os pés; se tivesse uma meia, então, seria um luxo. Desejava uma roupa limpa que não tivesse piolho e me cobrisse do frio. E também um bolso enorme para guardar um pão enorme para comer a hora que quisesse. Além disso, ter liberdade para ir onde e quando quisesse. 

O senhor está no rol dos sobreviventes que, anos depois, voltaram a Auschwitz. Por quê?

Eu procurei muito o passado. De repente, como conto no livro, senti uma necessidade de voltar a Auschwitz. E voltei, aliás, ao lado do Gabriel que escreveu a minha biografia - fomos também para outros campos e locais da minha infância/juventude. Senti que tinha que estar próximo daqueles que perdi. Destes acontecimentos, ficaram ideias e convicções. Sobraram-me coisas boas. Aprendi a perder e a comemorar as pequenas conquistas.

Hoje, dá para dizer que o senhor está em paz?

Olha, em paz não dá para dizer. A injustiça é latente. Mas, aprendi que enquanto houver vida, há esperança.

Algumas frases emblemáticas de Andor:

- "Durante a guerra, fui separado da minha família e nunca mais os vi. Por isso, quando dou palestras, procuro falar mais da vida do que de meus sofrimentos";

- "Apesar da maldade que imperava naquele tempo, houve, sim, gente que procurava ajudar os judeus";

- "Minha vida foi interrompida quando eu era garotinho, mas recomecei e conquistei muita coisa";

- "A liberdade tem um valor inestimável";

- "Valorizo muito a vida. Tudo que existe, tudo que é vivo, para mim, é muito caro. E posso dizer, apesar de tudo, que a vida foi muito generosa comigo".

Saiba mais:

Aos 90 anos, Andor Stern - que é casado há 65 anos com uma brasileira - mora em São Paulo e segue trabalhando diariamente. Ele participa, em média, de 12 palestras por ano para falar de sua história.

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas