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Segurança

A guerra do tráfico em Erechim

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“Polícia criou as DRACOS justamente para combater esse tipo de criminalidade”, diz o delegado Ceccon
Em 2018, polícia apreendeu aproximadamente 100 quilos de drogas em Erechim
Por Alan Dias
Foto Alan Dias

Em 2017 membros de facções, oriundas da capital e região metropolitana, desembarcaram em Erechim com um único objetivo: dominar o tráfico de drogas na cidade. A partir de então, deram início a um plano que tem como estratégia principal a violência, já resultou em quase uma dezena de assassinatos e tem aterrorizado moradores de diferentes bairros do município.

Do outro lado do front estão as forças policiais de Erechim e região fazendo frente a estas organizações criminosas, em uma luta diária e incessante que tem conseguido frustrar as tentativas de domínio destes grupos.

A reportagem do Bom Dia conversou com o delegado titular da Delegacia de Polícia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO), Gustavo Vilasbôas Ceccon, e preparou matéria especial mostrando como agem as facções, quem são, o perigo que representam para a comunidade regional e o que está sendo feito para frear suas tentativas de avanço.

 

O comando

Para a investida pelo interior do estado, as facções teriam escolhido líderes, geralmente criminosos da própria região visada que enquanto cumpriam penas foram transferidos para prisões de maior periculosidade, recrutados e doutrinados.

Conforme o delegado Ceccon, os líderes das facções que atuam em Erechim estão presos e é de dentro das cadeias que dão as ordens. “Praticamente todos os integrantes desses grupos já foram presos. E o que temos reparado também, é que os grupos aqui de Erechim estão sendo liderados por pessoas que já estão presas. Os líderes dessas facções comandam de dentro de um presídio. Isso é outro problema. Claro que a liderança mesmo destes grupos está acima dos líderes de regiões”.

Para Ceccon, o atual sistema prisional acaba funcionando como uma garantia de vida para o criminoso. “Como deveria funcionar: se um indivíduo foi preso, ele está segregado, está dentro do presídio, a lógica é que ele pare de delinquir, mas o que está acontecendo, o sujeito é preso, de dentro do presídio ele comanda todas as ações, ele faz seu negócio funcionar, ele ordena todas as ações e ele tem a segurança de estar em um local onde o Estado irá protegê-lo. Se ele está na rua, pode ter algum rival, se envolver em uma situação em que acabe morto, esse tipo de disputa geralmente acaba em assassinato. Estando na rua, ele pode sofrer alguma coisa, quando ele está no presídio, ele tem essa tranquilidade, de saber que lá dentro não vai acontecer nada. O Estado acaba protegendo esse indivíduo. É algo até bem contraditório. Esses indivíduos, quando identificamos e damos provas sobre a participação deles, eles são responsabilizados, mas claro, fica essa questão, vai aumentar a pena dele, mas ele vai continuar fazendo isso aí”.

Sem citar nomes, o delegado fala sobre um dos líderes. “De dentro da cadeia ele já ordenou pelo menos nove homicídios, três em Erechim”.

 

A chegada das facções

Os primeiros sinais de que facções haviam chegado a Erechim surgiram através de pichações em muros dos bairros de Erechim, depois, a Brigada Militar passou a encontrar indivíduos de cidades da região metropolitana durante abordagens de rotina nestes locais. Todos possuíam fichas criminais, andavam armados e frequentemente era descoberto que estavam em situação de procurados ou foragidos em seus municípios de origem.

Na sequência iniciaram os relatos de trocas de tiros, residências sendo alvejadas por diversos disparos e pessoas sendo emboscadas. Então começaram os desaparecimentos e corpos sendo encontrados em matagais e locais ermos. A polícia já investigava a presença das facções e efetuava prisões.

“Em 2017 surgiram conversas de que algumas facções, com origens na região metropolitana e na capital, estariam tentando se instalar em Erechim. Elas têm suas denominações, são rivais e algumas delas teriam vindo para a região. Isso é um fenômeno que não acontece só em Erechim, mas em todo o interior do estado praticamente. E a polícia, com o passar do tempo e com a certeza que isso estava ocorrendo, criou as DRACOS, justamente para combater esse tipo de criminalidade. Isso é natural, é normal, de tempos em tempos a polícia precisa se adaptar. O crime vai se modificando. Alguns anos atrás a gente não imaginava que teríamos delegacias especializadas em crimes cibernéticos, por exemplo. Isso é uma adaptação. A sociedade vai se transformando, o crime vai se transformando, então a polícia precisa estar preparada para estas novas realidades”, explica o delegado Ceccon.

Inicialmente membros destas facções estariam chegando a Erechim e recrutando criminosos nativos, mas com as prisões de praticamente todos os recrutados, passaram a enviar membros que atuavam em suas cidades de origem e também armamento.

“Aqui no município verificamos que eles começaram a trazer gente de fora, principalmente da capital e da região metropolitana, e elas chegam aqui, muitas vezes armadas, com uma estrutura para começar a traficar e expandir o negócio. Costumam usar especialmente adolescentes, justamente porque a repressão com relação ao adolescente, na hipótese de ser pego, é muito menor. Hoje se você pega um adolescente em flagrante por tráfico, ele não vai direto para o CASE (Centro de Atendimento Sócioeducativo), porque a Lei diz ser um crime cometido sem violência ou grave ameaça, é uma vez só e não reiteradas vezes, então, tu não consegue internar ele na primeira vez, e a facção sabendo disso, usa ele como mão de obra”.

 

Violência marca a tentativa de expansão em Erechim

A tentativa de expandir o domínio em Erechim acontece em violentas disputas territoriais, com os rivais sendo eliminados de maneira brutal e a população destas áreas vivendo sob constante ameaça.

“Primeiro eles ameaçam traficantes rivais. Chegam e dizem, ‘olha, a partir de hoje tu vai vender minha droga, vai trabalhar para mim, se tu não trabalhar para mim, nós vamos te matar’. E é o que às vezes aconteceu. Teve gente que preferiu não fazer parte desses grupos e aí começou uma disputa pelo ponto, pelo local. A gente percebeu que isso aconteceu recentemente no Bairro São Vicente de Paulo. Há poucos dias ocorreu mais uma prisão de integrante de um grupo, onde, através do trabalho da Draco a justiça decretou a prisão preventiva e a Brigada Militar localizou e prendeu o indivíduo”.

O delegado conta que “para demonstrar poder, muitas vezes eles cometem homicídio, mostram força assim e amedrontam tanto os traficantes rivais quanto as pessoas que moram nestes locais. Às vezes eles querem uma determinada casa para instalar ponto de tráfico, eles ameaçam a família, tiram a família da casa. Então, para quem vive nestes locais onde está ocorrendo isso aí, é muito complicado, é uma vida muito difícil. Você não sabe qual será a reação do criminoso, tu tem que obedecer ordens e se não obedece, tu não sabe o que pode te acontecer. Tu pode apanhar, ser agredido, tu pode até ser morto. Teve um dos assassinatos ali (São Vicente de Paulo), em que a ordem da facção era justamente para que ninguém furtasse no bairro, aí desconfiaram que a vítima teria furtado e ela acabou pagando com a vida”.

A maioria dos homicídios relacionados à disputa pelo tráfico de drogas tem como marca principal a brutalidade. Espancamentos, pauladas, apedrejamento, esquartejamento e corpos incendiados. No caso citado por Ceccon, onde em dezembro de 2108, Luís Carlos Guedes, 48 anos, foi assassinado no Bairro São Vicente de Paulo, por suspeita de furto, a vítima foi “espancada até a morte, com a utilização de pedras e outros objetos, ficando com a face praticamente desfigurada”.

Na guerra pelo tráfico, entre o final do ano passado e janeiro de 2019, a Rua José Wilk ficou marcada pela violência. Além da morte de Guedes, outros dois casos foram registrados. No dia 26 de novembro, Josimar Ferreira de Bairros, 35 anos, foi morto com dois tiros e na noite de 6 de janeiro, a adolescente Eliane de Oliveira Ribeiro da Silva, de 15 anos, morreu com um tiro na cabeça. O alvo seria o namorado da vítima, apontado como integrante de um dos grupos rivais. Todos os envolvidos nos homicídios já estão presos.

 

Tráfico como atividade principal

As facções, em geral, têm o tráfico de drogas como atividade principal, mas não se limitam apenas a ele e abrem portas para uma escalada de violência e medo gerada por outros crimes.

“O foco é o tráfico, mas ele acaba gerando toda uma cadeia de criminalidade que vem junto. Aumentando o tráfico, aumenta o número de usuários, estes, em certo ponto não tem mais dinheiro para manter o vício e começam a furtar, primeiro dentro das próprias residências, depois começam a furtar em outros locais, depois passam a roubar pedestres, então tudo isso acaba aumentando também. Além disso, acontece muito de os usuários acabarem entrando para a facção e vendendo drogas para sustentar o vício.

E quando a facção está com dificuldade financeira, acabam realizando assaltos para levantar dinheiro, aí precisam de armas, também para uma eventual disputa com o rival, então uma coisa acaba levando a outra. Também temos os grupos que acabam atuando nos roubos a banco ou outros crimes.

Não tendo dinheiro, o bandido vai buscar, ele é assim, se ele quer uma coisa, vai e tira, não é como o cidadão normal que tem trabalhar e analisa o que pode comprar ou não. Em via de regra, o tráfico é o carro chefe de uma facção porque é um dinheiro que eles ganham fácil, movimenta muito dinheiro, mas é muito diversificado”, explica Ceccon.

 

Mudança no comércio das drogas

Na entrevista ao jornal Bom Dia, o delegado Ceccon falou sobre as mudanças percebidas no funcionamento do tráfico de drogas em Erechim. “Temos notado que essa situação tem se modificado. Antes, aqui na cidade, tínhamos traficantes que muitas vezes operavam sozinhos seus negócios. Tinham seu fornecedor ou eles mesmos buscavam a droga em algum lugar e faziam a venda. Claro que haviam outras pessoas que colaboravam, mas não existia uma organização criminosa junto com eles. Comprava aquela droga de alguém e aquilo era de responsabilidade dele, fazia o que ele queria com aquilo lá. Isso foi se alterando, as facções começaram a ter muito poder e como qualquer organização empresarial, elas pensam também em se expandir e aí começaram a se expandir para o interior. Em Erechim, perto de outros lugares, a gente ainda está tranquilo, tem locais aí que a coisa perdeu o controle. Mas por que estamos um pouco melhor? Porque a gente não descansa, assim como o bandido, a polícia aqui, tanto a civil quanto a militar, não dá folga e não dá trégua para eles. Estamos sempre em cima, sempre atentos e fazendo o máximo para que esse pessoal saiba que aqui em Erechim a coisa é mais difícil. Poder judiciário também tem mantido e decretado muitas prisões, Ministério Público tem sido um grande parceiro, e quem ganha com isso é a população, que fica mais segura”.

 

Quais são as facções

O delegado conta que algumas organizações já estão instaladas no município e foram identificadas pela polícia, outras, estão tentando se instalar. “Desde o início do ano já identificamos pelo menos três organizações criminosas operando aqui no município. Temos grupos estabelecidos e outros querendo se estabelecer. Se intitulam usando alguns nomes, tem gente que diz que faz parte dos Abertos, tem quem diz que faz parte dos Manos, dos Balas na Cara, dos Anti-balas, então, tudo isso está sendo analisado. Muitas vezes, pode ser que sim, que façam parte desses grupos, outras vezes não, falam para servir como algum tipo de ameaça aos rivais e amedrontar os moradores”.

Conforme Ceccon, uma das dificuldades em acabar com as organizações está na rapidez com que eles recrutam novos integrantes. “A gente tira eles de circulação e dias depois, a facção já começa recrutar novos integrantes”.

Outro e crucial ponto seria a necessidade de mudanças no sistema prisional. “Quando é que isso vai parar? Quando tivermos um sistema prisional confiável, quando o sujeito realmente fique segregado. E isso só vai se obter com muito investimento e não sei quando o sistema prisional teve um investimento significativo. Pega o exemplo aqui de nossa cidade. Olha o tamanho que era Erechim quando o presídio foi construído, claro, teve algum aumento, mas não foi um incremento significativo. Hoje a gente está sofrendo por causa disso, a gente não tem onde colocar os indivíduos. Precisamos investir, é uma área sensível, todos estão sofrendo, pessoas estão inclusive morrendo por essa falha do Estado. Nós vimos aí o último latrocínio (morte do empresário Rogério Paulo Soccol, durante assalto cometido por um foragido), se fosse um presídio em condições, um presídio que a gente tivesse certeza que o pessoal não iria fugir, não teria ocorrido”.

 

Tráfico não é apenas um problema criminal

As apreensões de drogas, em pequenas ou grandes quantidades, são diárias em Erechim. Crack, maconha, cocaína, ecstasy, fazem parte das principais apreensões e em questão de quantidade, seguem a ordem citada no texto. As prisões por tráfico são constantes, flagrantes por posse, também, e para Ceccon, não se trata apenas de um caso de polícia.

“Não é só um problema criminal, é um problema de conscientização, de educação do próprio usuário. Não sei o que desperta esse interesse, o ser humano é curioso, muitas vezes acaba experimentando, quer ter uma sensação diferente, não só com drogas ilícitas, mas com tabaco, álcool, muita gente gosta de se embriagar. E infelizmente, enquanto tivermos usuários, a gente vai ter traficantes, é aquela velha lei da oferta e da procura. O número de usuários está crescendo cada vez mais.

Agora estamos tendo pesquisas mais fidedignas, realizadas ao longo de anos, mostrando que a própria maconha, que até então se dizia, não fazia mal, causa malefícios. No início não se sabia dos malefícios do cigarro e hoje ninguém vai te questionar dizendo que o cigarro não faz mal, sobre a maconha ainda existem divergências. É uma droga de entrada, depois você vai experimentar outra, e vai para outra, quando vê está em algo que talvez não consiga mais sair, será uma batalha diária para tentar se livrar, então a gente sempre diz, não usem drogas, e é um problema para o resto da tua vida e principalmente para tua família. As famílias que têm pessoas com problemas com algum tipo de droga, elas sabem o que estou dizendo, é a pior coisa que tem.

Discute-se a legalização da maconha, mas você legaliza e no comércio formal ela vai custar, digamos, R$ 15,00, no comércio informal, no tráfico, vai custar R$ 2,00, R$ 3,00, só vai mudar o nome do crime, não vai ser tráfico, será contrabando, e o contrabando de cigarros hoje está mais lucrativo que o tráfico de drogas, principalmente por ser considerado um crime menos grave que o tráfico”.

 

O combate vai continuar

O combate ao tráfico de drogas e as facções é diário, incessante, ininterrupto e não irá parar. “Nosso trabalho agora, com a DRACO, é identificar esses grupos e procurar retirar eles das ruas para dar uma maior tranquilidade para a população que está sofrendo com essa situação. O combate a esses grupos vai continuar. Os criminosos estão mais organizados e mais ousados em razão desta organização, passaram a ter mais lucro e poder com estas organizações. Vocês acompanharam casos até de ameaças contra policiais. É algo que um tempo atrás não teria ocorrido. Foi reprimido e acredito que ninguém seria tão imprudente a este ponto, pois certamente saberia que a repressão iria aumentar. E as pessoas que se sentirem ameaçadas, procurem a polícia, sempre”.

Em 2018, a batalha dos policiais civis e militares contra o tráfico de drogas na Capital da Amizade resultou na apreensão de aproximadamente 100 quilos de drogas, mais de duas dezenas de prisões e na apreensão de fuzis, espingardas calibre 12, pistolas, revólveres, coletes balísticos, farta munição, rádios comunicadores e diversos outros objetos utilizados pelos criminosos.

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